Artigo

A mulher à frente da sustentabilidade

Cristiane Cortez
é engenheira química, doutora em energia, assessora técnica do Conselho de Sustentabilidade da Fecomercio-SP e professora da Fundação Armando Alvares Penteado (Faap).
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Cristiane Cortez
é engenheira química, doutora em energia, assessora técnica do Conselho de Sustentabilidade da Fecomercio-SP e professora da Fundação Armando Alvares Penteado (Faap).

Numa aula sobre desenvolvimento sustentável, no início deste semestre, para uma turma de engenharia de produção composta somente por homens, dei-me conta do protagonismo feminino na área. Assim, resolvi propor esta reflexão, citando expoentes femininos da recente história da preocupação mundial com a sustentabilidade.

A pioneira em manifestar a premência de se respeitar o ecossistema, para proteger a saúde humana e o meio ambiente, lá em 1962, foi Rachel Carson, bióloga, cientista e escritora norte-americana que publicou o livro A primavera silenciosa. A obra é um alerta sobre o uso agrícola de pesticidas químicos sintéticos. O poético título retrata a cruel morte de pássaros contaminados por agrotóxicos, temática ainda bastante relevante, principalmente no Brasil – um dos líderes mundiais do agronegócio.

Outra expoente é a médica Gro Harlem Brundtland, mestre em saúde pública, também a primeira mulher a atuar como premiê da Noruega, que assumiu a presidência da Comissão Mundial sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento da Organização das Nações Unidas (ONU), em 1983. Lá, coordenou a elaboração do relatório Nosso Futuro Comum, justamente (re)conhecido como “Relatório Brundtland”.

Lançado em 1987, é o primeiro documento a trazer o conceito do desenvolvimento sustentável: aquele que supre as necessidades atuais sem comprometer a habilidade das futuras gerações de atender às próprias necessidades. Em minha avaliação, somente uma mulher poderia externar esta genuína preocupação: típica da alma feminina, que traz o zelo e o cuidado com a vida, impressas em sua essência.

Nestes quase 35 anos, ocorreram avanços, porém, o mundo ainda apresenta pobreza e desigualdades, bastante evidenciadas pela pandemia de covid-19 e por sérios problemas ambientais e climáticos – que poderão futuramente impactar, de modo ainda mais avassalador, a civilização. É preciso ouvir mais as mulheres!

No Brasil, na área pública poucas mulheres tiveram cargos de destaque nas pastas de meio ambiente, como as ex-ministras Marina Silva (historiadora) e Isabella Teixeira (bióloga), e as secretárias estaduais Marília Melo (engenheira civil), em Minas Gerais, e Patricia Iglecias (advogada), em São Paulo, ainda a primeira mulher presidente da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb).

Já no setor privado, num país fragilizado social, econômica e politicamente, há cada vez mais mulheres se formando em cursos de engenharia e tecnologia da área ambiental (43%, enquanto nas outras áreas, cai para apenas 19%). Apesar dos desafios impostos a todas as mulheres que galgam cargos de comando, muitas lideram times de sustentabilidade (que vêm sendo denominados ESG, da sigla em inglês “Environmental, Social and Governance”) ou seja, ambiental, social e governança – e que, talvez, devesse ser EESG, para incorporar o ”economical”.

Importante lembrar que uma mulher, a economista Inger Andersen, é a atual diretora-executiva do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, com os desafios de salvaguardar a vida na Terra, deter a célere perda de espécies, impedir mortes por poluição do ar, impulsionar países à adoção de ações para consumo e produção sustentáveis, descarbonizar a energia e reduzir a geração de resíduos.

Desta forma, concluo, certa de que a vida da humanidade e o desenvolvimento sustentável devem estar na dedicada e competente direção das mulheres!

Os artigos aqui publicados são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião da PB. A sua publicação tem como objetivo privilegiar a pluralidade de ideias acerca de assuntos relevantes da atualidade.

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