Artigo

A política é pop? O efeito Anitta nas eleições

Helga De Almeida, Mário Dias, Victor Araújo, Raquel Souza
Helga De Almeida é doutora em ciência política pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), professora da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) e do PPGCP da Universidade Federal do Piauí (UFPI). Integra o grupo de especialistas que escrevem às quartas-feiras na coluna “Ciência Política” da PB. Mário Dias é mestrando do programa de pós-graduação em ciência política pela Universidade Federal do Piauí (UFPI), membro do Observa – Observatório de Conflitos na Internet (UFABC) e pesquisador do Grupo de Estudos de Teoria Política Contemporânea (DOXA – UFPI). Victor Matheus Araújo é graduando em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf), bolsista de iniciação científica FAPESB e membro do Politik – Centro de Estudos em Instituições, Participação e Cultura Política (Univasf). Raquel Souza é graduanda em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) e membro do Politik – Centro de Estudos em Instituições, Participação e Cultura Política (Univasf).
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Helga De Almeida, Mário Dias, Victor Araújo, Raquel Souza
Helga De Almeida é doutora em ciência política pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), professora da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) e do PPGCP da Universidade Federal do Piauí (UFPI). Integra o grupo de especialistas que escrevem às quartas-feiras na coluna “Ciência Política” da PB. Mário Dias é mestrando do programa de pós-graduação em ciência política pela Universidade Federal do Piauí (UFPI), membro do Observa – Observatório de Conflitos na Internet (UFABC) e pesquisador do Grupo de Estudos de Teoria Política Contemporânea (DOXA – UFPI). Victor Matheus Araújo é graduando em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf), bolsista de iniciação científica FAPESB e membro do Politik – Centro de Estudos em Instituições, Participação e Cultura Política (Univasf). Raquel Souza é graduanda em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) e membro do Politik – Centro de Estudos em Instituições, Participação e Cultura Política (Univasf).

Vez ou outra escutamos que a política não deveria ser o lugar de paixões, dizem que a política feita com paixão faria com que embates, a anteriori racionais, se transformassem em meros enfrentamentos de torcidas de futebol. Um “FLA x FLU” político.

Mas e a política sem paixão é a ideal? Em um povo que nada tem de frio, seria um bom indicador uma política asséptica, sem jingles, sem memes, sem carros de som, sem piadas jocosas, sem entusiasmo e uma pitada de fúria? Será que a política sem paixão, no caso brasileiro, não demonstraria um cenário de sossego e denotaria indiferença à própria realidade? E é isso que queremos mesmo?

O ano de 2022 tem sido um ano de paixões políticas à flor da pele. Não se trata de qualquer eleição. As escolhas desta vez perpassam por manter um governo de extrema direita ou retirá-lo, e, assim, modificar o projeto de País que vem sendo trazido à baila. O fervilhar das eleições que se aproximam fica demonstrado, por exemplo, no percentual de eleitores que já decidiram seu voto para presidente, faltando ainda dois meses para o pleito: 71%[1]. Parece não existir mesmo lugar para desinteresse e, principalmente, para posicionamentos em cima do muro.

Nesta toada, um movimento interessante tem sido observado no cenário eleitoral: o envolvimento de celebridades brasileiras na defesa de seus candidatos à presidência, já na pré-campanha. A novidade em 2022 são personas públicas importantes no mundo da cultura popular, e que anteriormente não se movimentavam dentro da política tradicional, utilizando seus perfis nas diversas mídias sociais para estimular o engajamento de seus milhares de seguidores, às vezes milhões, nas campanhas de seus escolhidos. Tem sido também curioso ver como a influência dessas celebridades no campo da política tem conseguido furar bolhas e, assim, apresentar e aproximar nomes políticos de uma camada do eleitorado que as elites políticas tradicionais costumam ter pouco acesso, como a juventude, por exemplo.

O caso Anitta expressou, em termos midiáticos, a potência dessas celebridades em movimentar as redes sociais e a opinião pública. Se isso, de fato, resultará em votos já é outro debate. Mas tratando-se de uma eleição em tempos “hipermidiatizados” e polarizados, que tem constituído uma disputa considerada a mais agressiva desde a redemocratização[2], com o eleitorado massivamente na internet, além disso, se informando a partir da web, este fenômeno tem relevância o suficiente para ser observado de perto.

Anitta é hoje, possivelmente, a cantora latino-americana com a maior visibilidade no mundo[3]. Anitta tem mais de 63 milhões de seguidores no Instagram, quase 21 milhões no TikTok e outros 18 milhões de seguidores no Twitter. A título de comparação, somos hoje 150 milhões de cidadãos aptos a votar[4], isso significa que a cantora é seguida, aproximadamente, por metade dos eleitores brasileiros. Portanto, os impactos de sua tomada de posição política têm potencial relevância.

E foi exatamente isso que pôde ser observado no dia 11 de julho de 2022. Depois do assassinato do tesoureiro do Partido dos Trabalhadores do município de Foz do Iguaçu por um militante bolsonarista[5], a cantora fez uma série de posts em seu Twitter, declarando que, a partir daquele episódio, tomaria partido e estaria engajada na campanha de Lula para a Presidência nas eleições de 2022.

Fonte: https://twitter.com/Anitta/status/1546583351804526596
Fonte: https://twitter.com/Anitta/status/1546584022368894981
Fonte: https://twitter.com/Anitta/status/1546584431036604417
Fonte: https://twitter.com/Anitta/status/1546584721538293760
Fonte: https://twitter.com/Anitta/status/1546585283948339202

A resultante dos tweets veio em onda e inflamou a internet brasileira. De acordo com os dados da Quaest Consultoria, publicados pela Folha de S.Paulo em 11 de julho, o Índice de Popularidade Digital (IPD) do ex-presidente Lula subiu de 62,6 para 77,8[6]. Unido a isto, a cantora Anitta conquistou cerca de 300 mil seguidores, sendo 167.570 só no Twitter.

A fim de visualizarmos melhor o panorama, os dados abaixo foram capturados por linguagem python pelo grupo Observa – Observatório de Conflitos na Internet, coordenado pelo Professor Cláudio Penteado (UFABC), ao qual os autores deste artigo, Helga de Almeida e Mario Dias, fazem parte. As análises foram geradas a partir de todos os tweets postados entre 9/7 e 15/7, que citavam o apoio da Anitta a Lula, contabilizando 23.694 tweets.

Para um primeiro entendimento do contexto, as palavras mais vistas estão descritas na nuvem abaixo. O texto salienta “anitta”, “lula”, “apoio”, “voto”, “vai”, palavras já esperadas, mas também cita o polo antagônico “Bolsonaro”, que perde com o apoio de Anitta a Lula.

Os dados do gráfico abaixo impressionam pelo pico de menções ao assunto, que veio à tona em 11 de julho e reverberou nos quatro dias seguintes.

Na tabela a seguir, destacamos os dez tweets com maior engajamento (retweets e likes) de usuários. Trocando em miúdos, são aqueles textos pelos quais os usuários mais se interessaram e, assim, tomaram a iniciativa de interagir. Fica saliente que os sete tweets com maior envolvimento dos usuários foram os de apoio a Anitta e a Lula, o que nos indica que a cantora conseguiu movimentar positivamente o Twitter em torno da candidatura do candidato do PT. Houve ainda três tweets entre os “Top 10” que movimentaram mensagens de usuários críticos a Lula, ou seja, a rede bolsonarista foi pautada pelo assunto e fez um esforço de reação argumentativa.

É relevante observar, ainda, que alguns outros tweets mencionam outras celebridades pop brasileiras. O segundo tweet listado coloca Anitta de um lado e Gustavo Lima, cantor publicamente bolsonarista, de outro. Já no sexto tweet, uma série de celebridades da música pop são enumeradas e levantadas positivamente como apoiadoras de Lula.

No próximo quadro, apresentamos a rede de interações por grau, usando como base as hashtags mais utilizadas nas postagens observadas. Em vermelho estão os lulistas e em azul os bolsonaristas. As três hashtags mais citadas são #anitta, #lula, #lulano1ºturno. Em reação a elas aparecem #luladrao, #ptnuncamais.

Como teste, e para entendermos a importância das figuras da cultura pop no debate político contemporâneo, fizemos a captura de tweets da Anitta entre 2021 e 2022. A raspagem de dados nos retornou 45.269 tweets. É interessante ver que, entre os dez tweets da cantora com mais likes (apresentados na coluna “Favorites”) temos três que falam diretamente sobre política.

A conclusão é só uma: Anitta conseguiu pautar o debate político brasileiro. E mais, o pautou de forma positiva para a campanha de Lula, em um ambiente – as mídias sociais – em que a direita tem domínio.

Puristas dirão que a influência exercida por celebridades digitais é perniciosa e gerará males democráticos, já que cidadãos estariam tentados a tomar uma atitude eleitoral no sentido apenas de copiar os seus ídolos. No entanto, essa relação precisa ser observada de forma parcimoniosa, com olhos mais realistas e menos elitistas. Em primeiro lugar, lembremos que todo eleitor tem figuras públicas e de seu núcleo social que o ajudaram, e ajudam, a formatar seu pensamento político, além de influenciarem sua forma de pensar. Em segundo lugar, como apontou o autor John Street, ainda em 2004, o fenômeno da política feita por celebridades é um produto necessário ou inevitável da mudança social e política (STREET, 2004)[7] e tecnológica.

O lado positivo é que celebridades, muitas vezes, alcançam indivíduos não ativos politicamente e podem, a partir de seu discurso, ativá-los, como pôde ser visto no Brasil, no relevante aumento de jovens que fizeram o título de eleitor por influência de uma ampla campanha de artistas nacionais[8] [9], no começo de 2022.

Quem mais vai se “envolver”?


[1] https://www1.folha.uol.com.br/poder/2022/07/datafolha-71-dizem-estar-totalmente-decididos-sobre-voto-a-presidente.shtml

[2] https://www.metropoles.com/brasil/eleicoes-2022/forcas-de-seguranca-veem-eleicao-como-a-mais-perigosa-desde-1989.

[3] https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2022/07/anitta-entra-para-o-guiness-como-a-primeira-latina-no-1o-lugar-no-spotify.shtml

[4] https://www.tse.jus.br/comunicacao/noticias/2022/Julho/brasil-tem-mais-de-156-milhoes-de-eleitoras-e-eleitores-aptos-a-votar-em-2022-601043

[5] https://www.istoedinheiro.com.br/morte-de-tesoureiro-do-pt-por-bolsonarista-repercute-no-mundo/

[6] O IPD equaciona uma combinação de variáveis que incluem números de seguidores, a variação do mesmo, a quantidade de menções, de retweets, de proporções positivas e negativas e volume de busca.

[7] STREET, John. Celebrity politicians: Popular culture and political representation. The British journal of politics & international relations, v. 6, n. 4, p. 435-452, 2004.

[8] https://www.poder360.com.br/eleicoes/artistas-fazem-campanha-para-jovens-tirarem-titulo-eleitoral/

[9] https://www.tse.jus.br/comunicacao/noticias/2022/Maio/tse-comemora-marca-historica-de-jovens-eleitores-nas-eleicoes-2022

Os artigos aqui publicados são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião da PB. A sua publicação tem como objetivo privilegiar a pluralidade de ideias acerca de assuntos relevantes da atualidade.

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