Artigo

A república de bananas

Daniel Buarque
é pesquisador no programa  de doutorado em Relações Internacionais do Brazil Institute do King’s College London (KCL) e do IRI/USP. É jornalista, tem mestrado em Brazil in Global Perspective pelo KCL e é autor de “Brazil, um país do presente”. Escreve quinzenalmente, às terças-feiras, na PB.
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Daniel Buarque
é pesquisador no programa  de doutorado em Relações Internacionais do Brazil Institute do King’s College London (KCL) e do IRI/USP. É jornalista, tem mestrado em Brazil in Global Perspective pelo KCL e é autor de “Brazil, um país do presente”. Escreve quinzenalmente, às terças-feiras, na PB.

A imagem de tanques e blindados da Marinha desfilando em frente ao Palácio do Planalto, em tentativa de mostrar a força do presidente Jair Bolsonaro e de intimidar parlamentares, teve um efeito nefasto sobre a reputação do Brasil no resto do mundo. A cobertura da imprensa internacional adotou um tom fortemente crítico, apontando o ridículo das cenas divulgadas. No cenário externo, o País está se consolidando como o que ficou conhecido de forma pejorativa em todo o mundo como uma “república de bananas”.

Esta expressão foi usada por veículos da imprensa estrangeira, como o britânico The Guardian, a rede árabe Al Jazeera, o americano Washington Post e muitos outros, na cobertura da “parada militar” de Bolsonaro. O termo faz uma referência histórica a países cuja economia dependa de monocultura de produtos primários (e, aqui, a soja substitui as bananas) e cujas instituições governamentais são fracas e dominadas pela corrupção. Em suma, é uma forma de apontar que, em meio a tanta instabilidade, o Brasil não é um país sério.

A imagem negativa tem origens históricas. Um levantamento que realizei de pesquisas de opinião conduzidas em dezenas de países na década de 2010 já havia deixado claro o quanto o Brasil é associado positivamente apenas a atividades lúdicas, diversão, praia e esportes. Há muito tempo que o País já não tem uma reputação muito positiva em relação a aspectos ligados a política e economia.

Ainda assim, a situação se deteriorou de forma rápida e deletéria para o Brasil desde que Bolsonaro chegou ao poder. No início do século, a estabilização da economia e a continuidade política deram um ânimo novo à imagem nacional, que ganhava força e respeito no cenário internacional. Contudo, nos últimos anos, o Brasil vem perdendo prestígio a passos largos, tornando-se voz menos relevante na política global e se vendo associado, cada vez mais, a instáveis republiquetas latinas que são piada entre países mais ricos e desenvolvidos.

Se a ideia do governo, de fato, era mostrar força com a parada da Marinha, o tiro saiu pela culatra. O que se vê é um governo fraco em busca de qualquer justificativa para romper com os limites legais e se perpetuar no poder. Isso, enquanto a economia patina, a inflação afeta o cotidiano das famílias e se vive ainda um momento crítico de uma pandemia que matou mais de 560 mil pessoas.

Atentos ao ataque constante às instituições brasileiras, grandes potências dão sinais negativos aos arroubos autoritários do presidente. Ficou claro, em uma visita de um enviado dos Estados Unidos, por exemplo, que o governo de Joe Biden não vai abraçar o discurso golpista sobre fraudes nas urnas eletrônicas. A China, por outro lado, dá mostras de cansaço com o tratamento hostil de grupos ligados ao presidente brasileiro: o embaixador chinês chegou a fazer uma publicação irônica nas redes sociais sobre a prisão de Roberto Jefferson, aliado de Bolsonaro.

Ao se consolidar o caminho desejado pelo presidente a fim de desfazer a democracia brasileira, portanto, o que virá é o isolamento de uma nação pária, fraca, sem voz nem aliados. O Brasil é visto, de fora, como uma nação grande e cheia de potencial, que atrai o interesse estrangeiro. Entretanto, o caminho do autoritarismo faria com que qualquer mínimo sinal de seriedade conquistada ficasse para trás de vez. O caminho seria parecido com o trilhado pela Venezuela (em que o petróleo faz as vezes de banana), onde as instituições foram desfeitas, o autoritarismo dominou a política, e o povo é quem paga com o isolamento e a rejeição do mundo.

Somente a renúncia ao golpismo, a valorização das instituições e o respeito à democracia são capazes de reduzir este espectro negativo da república de bananas. Somente um governo sério e comprometido com a estabilidade da política, o respeito aos demais poderes e a retomada da economia podem ajudar o País a se recuperar, melhorar a vida da população e a ganhar de volta o prestígio que se perde a cada dia.

Os artigos aqui publicados são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião da PB. A sua publicação tem como objetivo privilegiar a pluralidade de ideias acerca de assuntos relevantes da atualidade.

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