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Bolsonaro: herança pífia ou Brasil nanico?

Humberto Dantas
é cientista político, doutor em Ciência Política e head de Educação do CLP – Centro de Liderança Pública. Integra o grupo de especialistas que escrevem às quartas-feiras na coluna “Ciência Política” da PB.
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Humberto Dantas
é cientista político, doutor em Ciência Política e head de Educação do CLP – Centro de Liderança Pública. Integra o grupo de especialistas que escrevem às quartas-feiras na coluna “Ciência Política” da PB.

Não resta alternativa a Bolsonaro, e o tempo começa a ser cruel. A lei exige que candidatos tenham filiação partidária de, ao menos, seis meses à legenda pela qual disputam cargos eletivos no País. Sendo assim: o atual presidente da República tem menos de 11 meses para tomar a decisão. Seu desapego ideológico a qualquer grupo existente é tão expressivo que em 2018 não foi diferente, mas ali ele era novidade e estava procurando espaço para aparecer.

Alternativas não parecem faltar, sendo a questão essencial compreender o que tem sido colocado à mesa pelas partes interessadas nessa adesão do presidente. Se somarmos todas as notícias a respeito deste fato, chegaremos a um conjunto amplo de organizações. Desde a frustrada, e já considerada improvável “Aliança pelo Brasil”, até a lista a seguir. Já lemos reportagens, mesmo que infundadas e desmentidas, incluindo: PL, Republicanos, volta ao PTB, volta ao PSL, volta ao PSC, volta ao Progressistas, Patriota, PMB e PRTB. Sobre estes dois últimos valem considerações especiais, pois hoje seriam os destinos mais prováveis do presidente.

O Partido da Mulher Brasileira mudou de nome para receber Bolsonaro. Ao que tudo indica, ele adora se livrar de temáticas que lhe incomodam ou sobre a qual demonstra incompreensão. O primeiro exemplo foi o PEN – Partido Ecológico Nacional. Em 2018, antes de optar pelo PSL, em sua homenagem Bolsonaro viu nascer o Patriota, para substituir o apelo ambiental que ele ignora. Agora, as mulheres, tema espinhoso para um machista convicto, saem da sigla para o grupo se tornar “Brasil 35”. Aqui temos o primeiro problema.

Os ministros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), por unanimidade, quando da criação do PEN (hoje, Patriota), vetaram a ideia de a sigla, que queria adotar o PEN51, conter o número da agremiação. À ocasião, um documento oficial da justiça dizia da “impossibilidade de a sigla partidária conter o número da legenda”. A sigla pode ser polêmica, mas isso não está em parte alguma da lei – alguma! Mas o nome? A sigla talvez não possa ser BR35, mas o errado no “Brasil 35” seria o número? Onde está escrito isso? Não está, e o problema maior aqui parece ser adotar unicamente o nome do País. Isso, sim, é estranho: o monopólio (Brasil) de algo que, em tese, agrega todas as legendas da Nação.

O segundo problema está na lógica personalista do PRTB – que, nos últimos dias, sinalizou que poderia mudar de nome, assumir o “Aliança pelo Brasil” e se afastar do “Renovador”, característica esta que qualquer cidadão percebeu que não caracteriza Jair. Levy Fidelix mal morreu e sua família teria herdado “sua” legenda e a colocado em negociação com os Bolsonaro. Chamou a atenção o presidente ter, finalmente, se sensibilizado com alguma morte. O Estadão noticiou que o “mito” disse: “uma pessoa realmente que vai deixar saudades em todos nós”. Mas vamos aos negócios.

Algo precisa ficar evidente: nunca diga que “só no Brasil” há partido com dono. Isso assalta a teoria. Em sua obra Os partidos políticos, Maurice Duverger, relevante teórico destas organizações, esboçou sua “teoria dos pequenos partidos”, criando a seguinte tipologia: “partidos de minorias permanentes”, ou causas perenes pouco capazes de comporem maiorias, e “partidos de personalidades”. Aqui estaria Levy e seu PRTB, em caracterização relatada por Sérgio Praça e este autor em artigo de 2014 na revista Leviathan, da Universidade de São Paulo (USP). E, neste caso, literalmente: “seu” partido. Tão seu que até na herança deixada à viúva e aos filhos o “negócio” entrou. O acordo partiria deste ponto e representaria tudo o que Bolsonaro mais deseja, de acordo com interlocutores: ter um partido de porteira fechada em que possa fazer o que quiser – mesmo que lá dentro esteja contido o vice-presidente da República. Sob tais condições, não restará outra opção senão uma legenda nanica, com um agravante: faltará estrutura, recurso e espaço para o atual presidente mostrar, em 2022, o que fez pelo Brasil. De herança pífia ou Brasil nanico, com algo assim em mãos será difícil mostrar o seu “legado” e se defender de ataques adversários, lembrando que em se tratando de atentados e raios, dificilmente um mesmo evento ocorre duas vezes no mesmo lugar… Ou sobre a mesma cabeça.

Os artigos aqui publicados são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião da PB. A sua publicação tem como objetivo privilegiar a pluralidade de ideias acerca de assuntos relevantes da atualidade.

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