Artigo

Brasil, de pária a líder

Helga Almeida
é doutora em Ciência Política pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), é professora da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf). Integra o grupo de especialistas que escrevem às quartas-feiras na coluna “Ciência Política” da PB.
É
Helga Almeida
é doutora em Ciência Política pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), é professora da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf). Integra o grupo de especialistas que escrevem às quartas-feiras na coluna “Ciência Política” da PB.

É comum ouvir, no Brasil, que o ano só começa depois do carnaval. Não a política. Esta é feita continuamente sem espaço para férias. No campo da política internacional, então, a coisa tem estado um caldeirão em ebulição. Há grandes conflitos ocorrendo no mundo, e o Brasil saiu da sua posição de pária internacional, condição assumida nos tempos de Bolsonaro, e tem retomado o histórico protagonismo diplomático e o papel de liderança.

Nesse contexto, algumas ações brasileiras têm chamado a atenção. A mediação exercida no conflito entre Venezuela e Equador foi emblemática. Os atritos entre os dois países começaram quando o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, fez um plebiscito acerca da anexação da região de Essequibo, região que corresponde a 70% do território da Guiana. Segundo autoridades venezuelanas, houve mais de 96% de concordância da população com a incorporação do território guianês. A consequência da divulgação do resultado das urnas foi o acirramento dos ânimos, inclusive norte-americanos — que se colocaram prontos para defender a Guiana, caso necessário. Fato é que essa questão pegou no susto o governo brasileiro, que, naquela mesma semana, estava assumindo a presidência do G20 (grupo que reúne as 20 maiores economias do mundo). A partir daí, deu-se uma movimentação diplomática brasileira no sentido de conduzir diálogos para que não ocorresse uma escalada do conflito. Nesse sentido, a ligação telefônica de Lula para Maduro foi crucial para o retorno dos diálogos sobre essa controvérsia que remonta a 1899.[i] Além disso, há também uma preocupação brasileira em se manter como liderança regional, neutralizando, em alguma medida, a interferência direta dos Estados Unidos na política do continente.

O Brasil também teve um papel importante no estancamento da tentativa de golpe na Guatemala no momento de posse do presidente democraticamente eleito, Bernardo Arévalo, neste 15 de janeiro. Ao longo dos meses anteriores à posse de Arévalo, o Brasil já vinha acompanhando as investidas para uma ruptura da democracia guatemalteca e, assim, se manteve firme ao longo das 11 sessões do Conselho Permanente da Organização dos Estados Americanos (OEA) para exercer a contenção da crise institucional. Na cerimônia do presidente eleito na última semana, houve um atraso de nove horas nos eventos, o que gerou momentos de tensão. Os embaixadores e as autoridades estrangeiras presentes chegaram a publicar uma carta reafirmando o apoio ao presidente democraticamente eleito. Um dos signatários foi Geraldo Alckmin, vice-presidente brasileiro, que estava presente como representante do governo do Brasil. Após a resolução do imbróglio, o presidente da Guatemala agradeceu ao Brasil pela intervenção na crise.[ii]

O recentíssimo apoio do País à acusação que a África do Sul fez na Corte Internacional de Justiça da Organização das Nações Unidas (ONU) a Israel também demonstra por onde se delineará a política externa brasileira nos próximos anos. A denúncia sul-africana à Corte de Haia acusa o país do Oriente Médio de cometer genocídio contra o povo palestino em Gaza e violar diversos artigos da legislação internacional, solicitando a urgente interrupção das operações militares naquele território.[iii] O posicionamento do Brasil o desloca do alinhamento direto aos Estados Unidos e às potências europeias — que têm evitado falar em “genocídio” — e demarca uma postura afim com seus pares do Sul Global.

Por fim, é imprescindível falar do renascimento do Brics, tão esquecido no governo de Bolsonaro, agora retomado e expandido no governo Lula. O grupo que se resumia a Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul — e isso já equivalia a 25,5% da atividade econômica global —, contará também com Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes, Etiópia e Irã, alargando as suas importâncias econômica[iv] e, por sua vez, política. Especialmente no caso da economia, a criação de um Novo Banco de Desenvolvimento para nações emergentes e um fundo de reserva para países-membros pode ameaçar, de fato, a dependência de fundos norte-americanos — o que, por sua vez, poderá mexer com a estrutura da economia mundial.

Em suma, o Brasil vai se deslocando da margem e se inserindo de novo no centro do debate, reafirmando-se como liderança do Sul Global e dos países em desenvolvimento e tentando neutralizar as investidas de influência direta dos gigantes Estados Unidos e China. Esperemos para ver se o mesmo resultado positivo poderá ser visto nos próximos meses no Mercosul e na União de Nações Sul-Americanas (Unasul).


[i] https://g1.globo.com/mundo/noticia/2023/12/14/representantes-de-venezuela-e-guiana-irao-se-reunir-no-brasil-para-discutir-questao-de-essequibo.ghtml. [ii]https://www1.folha.uol.com.br/colunas/monicabergamo/2024/01/presidente-da-guatemala-agradeceu-ao-brasil-por-intervencao-em-crise-que-ameacou-sua-posse.shtml. [iii] https://www.brasildefato.com.br/2024/01/11/africa-do-sul-acusa-israel-formalmente-de-genocidio-e-pede-fim-de-operacoes-militares-no-primeiro-dia-de-julgamento-em-haia. [iv] A Argentina também seria membro, mas o novo presidente, Javier Milei, anunciou que o país não participará do Brics.

Os artigos aqui publicados são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião da PB. A sua publicação tem como objetivo privilegiar a pluralidade de ideias acerca de assuntos relevantes da atualidade.

receba a nossa newsletter
seta