Artigo

Brasil na campanha pela reeleição de Trump

Daniel Buarque
é pesquisador no programa  de doutorado em relações internacionais do Brazil Institute do King’s College London (KCL) e do IRI/USP. É jornalista, tem mestrado em Brazil in Global Perspective pelo KCL e é autor de “Brazil, um país do presente”. Escreve quinzenalmente, às terças-feiras, na PB.
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Daniel Buarque
é pesquisador no programa  de doutorado em relações internacionais do Brazil Institute do King’s College London (KCL) e do IRI/USP. É jornalista, tem mestrado em Brazil in Global Perspective pelo KCL e é autor de “Brazil, um país do presente”. Escreve quinzenalmente, às terças-feiras, na PB.

Jair Bolsonaro precisa de Donald Trump. A relação construída entre o presidente brasileiro e o seu ídolo norte-americano criou uma situação de dependência que vai além da tradicional institucionalidade diplomática entre Estados – e entra no terreno do personalismo dos seus líderes. Isso está transbordando para o processo da eleição nos Estados Unidos, na qual o Brasil também abandona a institucionalidade, adotando uma política arriscada que pode ir contra os interesses do País.

Bolsonaro se inspira e segue Trump; enquanto as pesquisas de intenção de voto nos Estados Unidos mostram que a reeleição do norte-americano está ameaçada, o governo do Brasil teme pelos seus interesses. O País parece ter deixado de lado qualquer seriedade e isenção típicas da política internacional, para passar a entrar “de cabeça” na campanha pela reeleição de Trump.

Na semana passada, o governo brasileiro estendeu tapete vermelho para Mike Pompeo, o secretário de Estado dos Estados Unidos, em Roraima. O objetivo era aumentar a pressão sobre a Venezuela – tema importante da campanha de Trump. A visita foi criticada por ex-chanceleres brasileiros, que protestaram contra a afronta às tradições de autonomia e altivez da política externa nacional.

O comportamento brasileiro vem sendo criticado por excesso de subserviência aos Estados Unidos. Antes da visita de Pompeo, o governo Bolsonaro, de uma vez só, deu pelo menos mais três presentes para a campanha de Trump.

O País aceitou a decisão dos Estados Unidos de cortar em 80% a importação de aço brasileiro. Em seguida, decidiu expandir o prazo para a importação de etanol norte-americano com tarifas mais baratas, contrariando o interesse dos próprios produtores nacionais, mas ajudando produtores e eleitores de Trump. Mais tarde, Bolsonaro abriu mão da chance de o País ter a presidência do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e preferiu ajudar a eleger um norte-americano para o cargo pela primeira vez.

As medidas poderiam ser vistas como derrotas diplomáticas do Brasil, mas foram claramente planejadas para tentar dar algum impulso à reeleição de Trump.

Desde que Bolsonaro assumiu a presidência, o País tem sido alvo de pressões internacionais. O aumento da devastação provocada por incêndios na Amazônia e no Pantanal, a falta de uma política de saúde coordenada contra o coronavírus, o cerceamento à imprensa, os cortes de direitos e as ameaças à democracia foram temas de críticas no resto do mundo. Enquanto a Organização das Nações Unidas (ONU) e os países da União Europeia assumiram tom duro contra o Brasil – o que Bolsonaro chama de perseguição –, o governo sempre contou com o discurso de apoio de Trump.

Entretanto, isso está ameaçado pelas urnas dos Estados Unidos. Pesquisas de intenção de voto mostram que o democrata Joe Biden tem 77% de chances de ser eleito em novembro (dados analisados pelo site FiveThirtyEight). Uma mudança como esta na presidência daquele país pode se voltar contra o governo Bolsonaro.

Com uma vitória democrata, os Estados Unidos deixariam para trás a política de Trump, em uma mudança drástica de tom na relação com a América Latina, especialmente o Brasil. Entre os focos dele, estão uma ação mais integrada contra a pandemia de covid-19 – deixando de lado o negacionismo científico de Trump e Bolsonaro – e uma política mais forte de proteção ambiental. São dois possíveis “calos” na relação entre um novo governo nos Estados Unidos e o presidente brasileiro.

Uma barbaridade do ponto de vista diplomático, a manobra de apoio a Trump pode até fazer sentido para a política de Bolsonaro, que percebe a sua dependência do norte-americano. A eleição nos Estados Unidos tem uma contagem de votos controversa, em que nem sempre quem tem mais votos nacionalmente vence; então, uma pequena mudança em alguns Estados e grupos de eleitores podem ajudar a deixar Trump mais quatro anos no governo. Se a mobilização do Brasil ajudar a reeleição do ídolo bolsonarista, isso pode garantir um apoio ainda mais irrestrito à sua política pelos próximos dois anos, talvez ajudando até a reeleição do brasileiro.

Mas é uma manobra de alto risco. Se Trump for derrotado, um governo democrata que já chegaria ao poder com um tom mais crítico em relação ao Brasil pode ver, no governo brasileiro, um opositor. Isso pode aumentar ainda mais a pressão do resto do mundo sobre o País, dificultando o trabalho de Bolsonaro e fechando o cerco para uma possível reeleição sua em 2022. Mais do que isso, a pressão pode trazer resultados negativos para a política internacional do Brasil, para a economia e para toda a população brasileira.

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