Artigo

Campanha presidencial internacional

Daniel Buarque
é pesquisador no programa  de doutorado em Relações Internacionais do Brazil Institute do King’s College London (KCL) e do IRI/USP. É jornalista, tem mestrado em Brazil in Global Perspective pelo KCL e é autor de “Brazil, um país do presente”. Escreve quinzenalmente, às terças-feiras, na PB.
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Daniel Buarque
é pesquisador no programa  de doutorado em Relações Internacionais do Brazil Institute do King’s College London (KCL) e do IRI/USP. É jornalista, tem mestrado em Brazil in Global Perspective pelo KCL e é autor de “Brazil, um país do presente”. Escreve quinzenalmente, às terças-feiras, na PB.

Um ano antes de os brasileiros irem às urnas para escolher o próximo governante do País, os dois principais candidatos apresentados até o momento levaram suas campanhas ao resto do mundo. Ao longo das últimas semanas, tanto o presidente Jair Bolsonaro quanto o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva se apresentaram internacionalmente em busca de apoios para uma campanha polarizada, que vai definir, em 2022, o futuro do Brasil.

A avaliação geral sobre o embate entre os candidatos brasileiros no exterior é a de que o ex-presidente se saiu melhor.

Lula foi recebido pelo presidente da França, Emmanuel Macron, com protocolo reservado a chefes de Estado. Encontrou-se ainda com Olaf Scholz, primeiro-ministro designado da Alemanha, além de ter feito um discurso muito aplaudido no Parlamento Europeu. Candidato líder nas pesquisas de intenção de voto para 2022, Lula promoveu uma imagem internacional próxima da que o Brasil havia desenvolvido no fim do seu segundo mandato, falando do potencial do País, da necessidade da democracia e de uma relação saudável com o resto do mundo.

O atual presidente, por outro lado, embarcou para o Oriente Médio e, no período de uma semana, passou por Dubai, nos Emirados Árabes Unidos; Manama, no Bahrein; e Doha, no Catar. Depois de viagens polêmicas pela Europa, quando ficou isolado em encontro de líderes globais, foi alvo de protestos na Itália e mentiu sobre dados do desmatamento do Brasil em apresentação gravada à Conferência do Clima; foi uma viagem sem grande apelo político. O tour incluiu encontros com líderes de países sem tanta importância global, em que a democracia não tem muito espaço e mesmo o potencial comercial não consegue trazer boas notícias ao Brasil.

Para complicar, Bolsonaro deve voltar à Europa em breve para realizar visitas a Rússia, Polônia e Hungria, segundo o portal Metrópoles. Mais uma vez, deixa de lado qualquer tentativa de defender a democracia e o desenvolvimento histórico das relações internacionais do País, para se associar a países com lideranças autocráticas e sem tanta relevância para a diplomacia brasileira.

Apesar de o público estrangeiro não ter voz na definição da eleição brasileira, a movimentação dos dois candidatos é importante, e deixou claras as bandeiras que serão levantadas em 2022. A campanha global serve para que Lula e Bolsonaro mostrem ao eleitor brasileiro quem são suas alianças e como isso vai consolidar o projeto político de quem vencer a eleição.

Além disso, as alianças diplomáticas formadas agora podem ter peso nas relações do Brasil com o mundo após o pleito. A depender de quem vença no ano que vem, pode-se ver um País mais alinhado a democracias e parceiros históricos no Ocidente ou a nações menos democráticas, das quais o Brasil era mais distante, mas, agora,se aproxima, em uma postura “antiglobalista” defendida desde 2019.

Lula tenta se mostrar como o líder capaz de trazer de volta o prestígio internacional do Brasil no Ocidente, com reforço a parcerias históricas. Mais do que isso, tenta formar alianças para tentar reduzir a força de qualquer tentativa de ameaçar a democracia brasileira, buscando uma posição crítica de potências internacionais contra aventuras golpistas no País. Basta lembrar da situação da Venezuela, cujo presidente não é sequer reconhecido como tal por muitos países do mundo. Alemanha, França, Espanha e outras nações europeias têm relações históricas e importantes com o Brasil, e o laço com um candidato pode determinar como vai se dar o futuro dessas trocas políticas e comerciais.

Já Bolsonaro tenta fortalecer seu laço de parceiros políticos que não valorizam tanto a democracia, mas que se apoiam mutuamente para defender a soberania e garantir a sobrevivência de governos autoritários. É nítida a relação do russo Vladimir Putin com alguns dos principais ditadores do mundo, e Hungria e Polônia estão entre os países que mantêm viva a chama de um movimento conservador global, representado por Donald Trump até o ano passado. Esta movimentação tem um potencial reduzido de trazer benefícios econômicos e políticos para o Brasil, e parece servir como aceno a um eleitorado mais radical e fiel ao bolsonarismo.

Os artigos aqui publicados são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião da PB. A sua publicação tem como objetivo privilegiar a pluralidade de ideias acerca de assuntos relevantes da atualidade.

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