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Cenário de apreensão

Rubens Medrano
é vice-presidente da FecomercioSP e do Centro do Comércio do Estado de São Paulo (Cecomercio)
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Rubens Medrano
é vice-presidente da FecomercioSP e do Centro do Comércio do Estado de São Paulo (Cecomercio)

O mercado financeiro e os órgãos internacionais vêm constantemente alterando suas projeções de crescimento global para 2020, em razão da crise sem precedentes causada pelo coronavírus. Em relatório divulgado em junho, o Fundo Monetário Internacional (FMI) revisou suas projeções, que agora apontam para uma queda de 4,9% na economia mundial este ano. O ritmo de deterioração do cenário é tão grande que, em abril, a instituição estimava uma retração de 3%. Nesse mesmo período, as projeções de queda do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro passaram de -5,3% para -9,1%.

A Organização Mundial do Comércio (OMC) projetou em abril uma queda no comércio internacional entre 13% e 32% em 2020. A disparidade nos porcentuais ocorre pelo elevado grau de incerteza decorrente da pandemia.

No Brasil, na nota técnica  “Cenários para o Comércio Exterior Brasileiro (2020-2021: Estimativa dos Impactos da Crise da Covid-19”, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), baseado nos cenários desenhados pelo FMI e pela OMC, projeta uma queda entre 18% e 30% das exportações brasileiras em 2020, seguidas de uma recuperação entre 9% e 16% em 2021. Entretanto, os últimos dados têm mostrado uma queda menos acentuada graças ao ótimo desempenho do setor agropecuário. Em maio, considerando a média diária, as exportações desse setor avançaram 51,1% em relação ao mesmo mês de 2019, enquanto as exportações totais brasileiras se retraíram em 4,5%.

De qualquer forma, o cenário para os empresários que atuam no comércio exterior, independentemente do porte ou do segmento, é desafiador. E o trabalho de representação feito pelo Conselho de Relações Internacionais da FecomercioSP se mostra cada vez mais importante, ao abrir um canal de comunicação entre o setor produtivo e o Poder Público. A pandemia colocou em evidência uma das principais bandeiras deste Conselho relacionada à facilitação do comércio:  a da digitalização de processos – documentos, assinaturas eletrônicas e fiscalização a distância. Sendo assim, o órgão vem acompanhando e cobrando iniciativas, como as contidas no Decreto 10.278 de 2020, que dispõe sobre as regras para que um documento digitalizado produza os mesmos efeitos legais do original.

Ainda é difícil traçar um cenário para o comércio internacional no período pós-pandemia. No final do ano, caso seja eleito presidente dos Estados Unidos  o candidato do partido democrata, podem ocorrer mudanças tanto nas relações entre China e Estados Unidos, hoje abaladas, quanto no posicionamento deste último em relação aos órgãos multilaterais como a OMC, já que o presidente Trump é um crítico ao modelo e age para o enfraquecimento desses órgãos.

Nos últimos meses, ficou evidente o elevado grau de concentração da cadeia mundial de produção na China, provocando desabastecimento de alguns setores. No Brasil, a indústria eletroeletrônica chegou a relatar falta de componentes. Ao longo da pandemia, alguns países também adotaram políticas restritivas e/ou protecionistas relacionadas à exportação de alimentos e de produtos cuja finalidade está ligada ao combate e à prevenção ao covid-19. A Índia, por exemplo, que tem grande peso na produção de insumos para o setor farmacêutico, restringiu a exportação de alguns desses insumos. No pós-pandemia alguns países devem promover políticas industriais para a indústria de saúde – farmacêutica, diagnósticos, Equipamentos de Proteção Individuais (EPIs) – diminuindo sua vulnerabilidade e dependência, mas no longo prazo medidas protecionistas devem perder força.

Para o Brasil, o Conselho espera que o País continue avançando na agenda de reformas e na desburocratização do ambiente de negócios, além de acelerar a assinatura de acordos comerciais com outros países e blocos.

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