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Ciência brasileira desacelera pela primeira vez na história

Agência BORI
é um serviço único que conecta a ciência a jornalistas de todo o País. Na BORI, profissionais de comunicação cadastrados encontram pesquisas científicas inéditas e explicadas, além de materiais de apoio à cobertura jornalística e contatos de cientistas de todas as partes do Brasil preparados por nós para atender à imprensa. Acesse: abori.com.br
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Agência BORI
é um serviço único que conecta a ciência a jornalistas de todo o País. Na BORI, profissionais de comunicação cadastrados encontram pesquisas científicas inéditas e explicadas, além de materiais de apoio à cobertura jornalística e contatos de cientistas de todas as partes do Brasil preparados por nós para atender à imprensa. Acesse: abori.com.br

Os efeitos da pandemia na produção científica mundial começam a ser revelados por meio de dados. Apesar de a produção ter crescido 6,1% em 2022, em relação ao ano anterior, 23 países tiveram queda no número de artigos científicos publicados em 2022, em relação a 2021 — incluindo, de maneira inédita, o Brasil. O País vinha aumentando a produção de artigos anualmente desde que os dados começaram a ser tabulados (em 1996).

Nesse cenário, 2022 se tornou o ano com a maior quantidade de países que perderam produção científica na história. O recorde anterior tinha sido em 2002, quando 20 países observaram queda no número de artigos científicos publicados em comparação ao ano anterior (2001). As informações são do relatório da Elsevier–BORI 2022: um ano de queda na produção científica para 23 países, inclusive o Brasil[1], lançado em julho. Os dados são da base Scopus/Elsevier. Para os cálculos, foi usada a ferramenta analítica SciVal/Elsevier. O relatório analisou todos os países que publicaram mais de 10 mil artigos científicos em 2021, em um total de 51 nações.

O documento mostra que o Brasil teve um decréscimo de 7,4% na sua produção científica em 2022, em comparação ao ano anterior. A queda na quantidade de ciência nacional no ano passado se assemelha à da Ucrânia, país que entrou em guerra no mesmo período. Ambos os países tiveram a maior perda de produção científica entre os países analisados. “É muito provável que o decréscimo no último período se deva, em boa parte, aos efeitos da pandemia, especialmente ao considerar o número de países afetados”, diz Carlos Henrique de Brito Cruz, vice-presidente sênior de Redes de Pesquisa da Elsevier.

Em sentido contrário, países como China e Índia apresentaram crescimento significativo na produção científica em 2022, em relação a 2021: em torno de 20%. A Índia, aliás, superou o Reino Unido pela primeira vez, passando a ser o terceiro país com mais publicações no mundo, atrás de China e Estados Unidos. Perder ritmo de produção científica significa produzir menos conhecimento e menos soluções para questões como tratamento de doenças, melhora no plantio ou enfrentamento da violência urbana. Nenhum país se desenvolve sem forte produção científica.

Ciência brasileira

No Brasil, com exceção da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), todas as instituições de pesquisa sofreram redução importante na produção científica em 2022, em comparação ao ano anterior. Foram consideradas as instituições de pesquisa do País com mais de mil artigos científicos publicados em 2021, resultando em um total de 35 analisadas. A Taxa de Crescimento Anual Composta (TCAC) do número de artigos com autores nacionais tem caído nos últimos 30 anos: de 1996 a 2006, foi 12% ao ano (a.a.); de 2009 a 2019 e de 2011 a 2021, de 6,6% a.a.; e entre 2012 e 2022, de 4,9% a.a. A quantidade anual de artigos com autores no Brasil, no entanto, cresceu em todos os anos de 1996 a 2021. A partir de 2020, essa produção diminui o ritmo de acensão e enfrenta, em 2022, a primeira queda.  

O relatório Elsevier–BORI mostra, ainda, que as Ciências Agrárias — área especialmente importante para o País — sofreu um decréscimo maior na produção científica do que a média nacional: 13,7% artigos publicados de 2021 para 2022. No entanto, todas as áreas de conhecimento apresentaram decréscimo. As Ciências Médicas apontaram queda de 6,8% na produção; as Engenharias e Tecnologias, de 6,3%; as Ciências da Natureza, de 8,2%; as Humanidades, de 5,1%; e as Ciências Sociais, de 0,8%. “O declínio inédito da produção científica brasileira também acompanha os expressivos cortes orçamentários de recursos públicos para pesquisas nos últimos anos, o que precisa ser analisado em futuros documentos”, ressalta Estêvão Gamba, cientometrista e cientista de dados da Agência BORI. É muito provável que o decréscimo no último período se deva, em boa parte, aos efeitos da pandemia, especialmente considerando o número de países afetados. 

A quantidade de publicações é apenas uma das dimensões da capacidade em Ciência e Tecnologia (C&T) de uma nação. Outros indicadores são igualmente importantes para traçar um panorama do contexto de C&T, dentre eles, a quantidade e a qualidade dos estudantes formados; o número de patentes internacionais; o número de citações das publicações em trabalhos científicos, patentes e documentos orientadores de políticas públicas; a fração do total de publicações com autores em empresas; e a quantidade e a qualidade das publicações em temas de interesse estratégico para cada país. 

Este é o segundo relatório da parceria entre a editora científica Elsevier e a BORI, que pretende analisar, periodicamente, a ciência brasileira e disponibilizar essas informações para jornalistas. O primeiro, A pesquisa brasileira sobre oceanos — estado da arte da produção científica do Brasil de 2017–2022[2], trouxe uma análise da produção científica especificamente na área de Oceanos. A ideia é ter um retrato da produção científica nacional e munir o debate público com dados relevantes para políticas científicas e para tomadas de decisão.


[1] https://abori.com.br/relatorios/2022-um-ano-de-queda-na-producao-cientifica-para-23-paises-inclusive-o-brasil/[2] https://abori.com.br/ciencia/pesquisa-sobre-microplastico-dispara-no-brasil-tema-se-tornou-um-dos-principais-na-area-de-oceanos/

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