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Conspirações seletivas?

José Mário Wanderley Gomes
é doutor em Ciência Política, mestre em Direito Público pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e docente da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap). Integra o grupo de especialistas que escrevem às quartas-feiras na coluna Ciência Política da PB.
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José Mário Wanderley Gomes
é doutor em Ciência Política, mestre em Direito Público pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e docente da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap). Integra o grupo de especialistas que escrevem às quartas-feiras na coluna Ciência Política da PB.

Na segunda-feira passada (18), o presidente da República reuniu embaixadores para insistir, sem provas, na conduta de opor dúvidas sobre a legitimidade das urnas eletrônicas e sobre a integridade e a legitimidade do processo eleitoral brasileiro.

Não tardaram as reações institucionais. Os ministros presidentes do STF, do STJ e do TSE reafirmaram a confiança no sistema eleitoral e na democracia brasileira, bem como publicaram notas rebatendo as afirmações falsas. Os comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica declinaram do convite do Planalto, numa clara demonstração de que não querem se ver associados a tal postura.

Outras entidades divulgaram notas públicas de apoio à atuação da Justiça Eleitoral: a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB); a Federação Nacional dos Delegados de Polícia Federal (Fenadepol); o Instituto dos Advogados Brasileiros (IAB); a Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho (Anamatra); o Conselho Nacional das Defensoras e Defensores Públicos-Gerais (Condege); a Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB); e a Associação dos Juízes Federais do Brasil (Ajufe). A assessoria de comunicação da Embaixada dos Estados Unidos afirmou à imprensa que as eleições brasileiras são exemplo a ser seguido por outros países.

O ato formal, realizado no palácio e na presença do corpo diplomático internacional, serviu apenas para gerar conteúdo novo para alimentar as redes da própria bolha de apoiadores fiéis. Como já era sabido, nenhuma prova das graves alegações de fraude e de fragilidade do sistema eleitoral foi apresentada, nem sequer qualquer novo indício que justificasse novas investigações. Nada. Somente um requentado velho conjunto de acusações infundadas (já desmentidas fartamente pela imprensa, por órgãos internacionais e pelas autoridades eleitorais), extraído de compartilhamentos frequentes por canais apoiadores e compilado numa sofrível apresentação.

Seguiu-se (embora antecipadamente) o mau exemplo do ex-presidente norte-americano Donald Trump, ao contestar sem qualquer evidência, a lisura de um sistema eleitoral que, além de eleger o presidente, elegeu membros de sua família e um amplo grupo de apoiadores. São conspirações seletivas que supostamente apoiam a indignação frente a um possível cenário de derrota, mas que (contraditoriamente) não seriam impeditivas em caso de vitória eleitoral. Valeriam somente para os outros.

Não esperou a campanha, tampouco o resultado do pleito. Posicionou-se antes mesmo da convenção partidária que iria aprovar sua candidatura à reeleição. Se, por um lado, a “aposta” for na estratégia de provocar a cassação judicial da chapa e no fictício e delirante discurso de “vítima do sistema”, como preparação para a derrota por si mesmo anunciada, por outro, as respostas institucionais vão no sentido de garantir a efetivação das decisões democráticas dos eleitores. Talvez tenha sido um péssimo timing: o mau perdedor “evoluiu”, à ocasião, para o estado de pré-candidato inconformado e “pré-derrotado”.

Este ato de campanha antecipada, idealizado por ele e/ou por seus conselheiros, em vez de promover seu fortalecimento, pode ter apresentado ao público (interno e externo) a indesejada face do desespero de um candidato em campanha, pequeno e vencido, incapaz de atingir novos eleitores fora de sua bolha.

As instituições eleitorais resistem e se fortalecem.

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