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Covid-19 e os desafios da educação

Claudia Costin
é diretora do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais da Fundação Getulio Vargas (FGV) e ex-diretora de Educação do Banco Mundial
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Claudia Costin
é diretora do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais da Fundação Getulio Vargas (FGV) e ex-diretora de Educação do Banco Mundial

Em 2015, foram aprovados os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), entre eles, o ODS 4, referente à educação, que estabelece que, até 2030, iremos assegurar educação de qualidade e oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todos. O Brasil foi um dos signatários. No entanto, apesar de importantes avanços em acesso à escola no período recente, ainda temos grandes desafios para oferecer um ensino com algum nível de excelência, além de convivermos com expressivas desigualdades educacionais, como mostram resultados do Pisa, avaliação aplicada a jovens de 15 anos, de 79 economias, organizada pela OCDE [Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico].

De fato, o Brasil vive uma crise de aprendizagem, e, isso, num período em que a chamada “Revolução 4.0” tem acarretado uma automação acelerada frente aos avanços da Inteligência Artificial (IA), com uma crescente substituição de trabalho humano por máquinas, inclusive o que demanda competências intelectuais. De fato, o mundo laboral passou a exigir dos jovens não só habilidades básicas, mas competências mais sofisticadas, como resolução colaborativa de problemas com criatividade, adaptabilidade ou pensamento sistêmico.

Não nos ajuda, frente a esses desafios, o fato de que a profissão de professor tenha baixa atratividade, o que dificulta a retenção de talento na carreira, e que a formação docente se dê num processo de reduzido diálogo entre teoria e prática, como corretamente constatou o Conselho Nacional de Educação (CNE), ao emitir as novas Diretrizes de Formação Docente.

É nesse cenário que chega o covid-19, que, em pouco tempo, se transforma na maior crise sanitária de que o mundo teve notícia. Mais de 190 países tiveram escolas fechadas, entre eles, o Brasil – onde, desde meados de março, as crianças e adolescentes não vão às aulas. Nesse contexto, há risco de um aumento expressivo de desigualdades educacionais e de agravamento geral da crise de aprendizagem.

Nessa situação, a maior parte das redes públicas no País usou alguma combinação de mídias para tentar assegurar que a aprendizagem chegasse a todos. Foram utilizados aqui, como em boa parte dos outros países, das plataformas digitais, da televisão, do rádio e de roteiros de estudo impressos. Por meio de uma logística complexa, foram distribuídos materiais didáticos, adquiridos pacotes de dados para celulares e construídas parcerias com canais de TV ou rádio.

Os avanços da educação em direção ao digital acabaram lentamente se construindo, pegando, de início, os educadores de surpresa, já que não havia nem conectividade de qualidade para todos, nem bons cursos que os preparassem para o uso educacional de ferramentas online. Com o tempo, ocorreu um processo de aprender que desenvolveu, nos mestres, algumas competências para um ensino que demande não só conhecimentos sobre computadores e aplicativos, como também trabalho colaborativo entre pares.

Houve também professores que se voluntariaram a dar aulas na TV ou no rádio. Talentos foram revelados, num processo de reinvenção profissional de muitos, mas bastante desafiador para boa parte dos docentes. De fato, muito se fez, e foi, para muitos deles, um exercício de adaptação ao uso de novas mídias e de redescoberta do prazer em superar obstáculos profissionais. Além disso, muitos pais passaram a valorizar o empenho dos professores de seus filhos, ao constatar como é complexa a sua profissão.

Com base no que aprendemos em tempos de covid-19, poderemos avançar no desenvolvimento não só de competências básicas, mas também de habilidades do século 21 em alunos e mestres, para nos assegurarmos que o Brasil possa promover um desenvolvimento mais inclusivo.

Além disso, a tecnologia pode ser útil a docentes, possibilitando-lhes trabalhar com dados sobre o que aprende cada aluno, de forma a desenvolver estratégias mais efetivas de ensino. Assim, as plataformas adaptativas, que permitem identificar mais precisamente insuficiências de aprendizagem de cada estudante, e permitir que eles sejam direcionados aos conteúdos que suprirão as lacunas identificadas, serão importantes para apoiar o processo de ensino.

Na volta às aulas, entenderemos melhor o impacto do coronavírus na educação. Para além dos sofrimentos causados, ficarão algumas lições aprendidas na área. E elas não se referem só a textos enviados para casa ou a aulas remotas assistidas.

Se essa volta ocorrer como em países que já retomaram as aulas, com rodízio de alunos para reduzir o tamanho das turmas, teremos um ensino híbrido sendo esboçado, com estudantes tendo aulas presenciais, enquanto outros continuam em casa, em aprendizagem remota. Com isso, as escolas terão de desenvolver estratégias, como salas de aula invertidas e metodologias ativas no processo de ensino. Mas para que tudo isso funcione bem, além de alguns bons exemplos ocorridos durante a pandemia, teremos de investir, de forma efetiva, em atrair, formar e reter bons professores – e construir, com base no que aprendemos na crise, uma escola que possa nos trazer um futuro menos desigual.

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