Artigo

De volta, a velha conhecida

Daniel Buarque
é pesquisador no programa  de doutorado em relações internacionais do Brazil Institute do King’s College London (KCL) e do IRI/USP. É jornalista, tem mestrado em Brazil in Global Perspective pelo KCL e é autor de “Brazil, um país do presente”. Escreve quinzenalmente, às terças-feiras, na PB.
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Daniel Buarque
é pesquisador no programa  de doutorado em relações internacionais do Brazil Institute do King’s College London (KCL) e do IRI/USP. É jornalista, tem mestrado em Brazil in Global Perspective pelo KCL e é autor de “Brazil, um país do presente”. Escreve quinzenalmente, às terças-feiras, na PB.

A “morte” da Operação Lava Jato, anunciada em tom de brincadeira pelo presidente Jair Bolsonaro em outubro, não vai representar uma transformação positiva no conceito que o resto do mundo tem a respeito do Brasil. Em vez de representar a ausência de desvios e ilícitos no governo, como argumentou o presidente, o fim da maior ação contra a corrupção da história do País vai ser vista, do exterior, como a volta daquela imagem em que a impunidade domina.

O relatório “Brazil: Setbacks in the Legal and Institutional Frameworks(2020 update), publicado pela Organização Não Governamental (ONG) Transparência Internacional (TI) pouco após as declarações de Bolsonaro, deixa isso claro ao negar que a corrupção no País tenha acabado, além de criticar o que vê como esforços para solapar o combate a desvios em território nacional. Segundo a organização, em vez de estar livre do problema, o Brasil atualmente passa, na verdade, por uma “progressiva deterioração do arcabouço institucional anticorrupção” – e indica ainda que muitos em torno do presidente, incluindo seus filhos, são investigados por supostos desvios.

Não fosse uma resposta crítica forte o suficiente, o noticiário nos dias após a declaração do fim da Lava Jato pelo presidente também não ajudou na imagem que o governo tenta projetar. Mal Bolsonaro declarou que não havia corrupção em seu governo, e um novo escândalo apareceu. Chico Rodrigues, seu então vice-líder no Senado, foi pego com dinheiro escondido na cueca durante uma operação contra desvio de verbas públicas.

O escândalo, com pitadas de humor escatológico, logo virou notícia em outros países e teve grande repercussão internacional. Junto ao relatório da TI, mostrou ao mundo que a corrupção está bem viva no Brasil, mas os esforços para acabar com a impunidade é que aparentam estar desaparecendo.

Enquanto o discurso oficial fala em fim da corrupção no governo, a realidade que se vê é outra. Desde o início da década, há uma deterioração dos índices de corrupção no Brasil. O País ocupa apenas a 106ª posição no ranking de 180 países do Índice de Percepção da Corrupção, principal indicador de desvios no setor público do mundo. Marca apenas 35 pontos em uma escala que vai de 0 a 100 em termos de honestidade, índice melhor apenas do que o Paraguai, a Bolívia e a Venezuela, em toda a América do Sul. Nova Zelândia e Dinamarca aparecem empatados em primeiro lugar (menos corruptos), com 87 pontos, e a Somália é o 180º (mais corrupto), com nota 9.

A corrupção também é uma mancha na imagem do Brasil segundo dados do Nation Brands Index, que mede a percepção global das nações. A política do País, de forma geral, já tem uma imagem negativa, da qual o seu maior problema é a percepção sobre “competência e honestidade”: muito baixa.

A discussão não é simplesmente sobre política e moralidade. Estudos apontam que a corrupção atrapalha o posicionamento do País no mundo, tendo desdobramentos negativos sobre as finanças nacionais. “A corrupção continua sendo um dos grandes impedimentos ao desenvolvimento econômico do Brasil”, indica a TI.

É claro que a corrupção não surgiu agora no País. É um problema histórico que afetou diferentes governos e partidos. Ainda assim, a Lava Jato havia criado uma percepção de mudança no rumo desse comportamento problemático da política brasileira.

A operação teve uma imensa visibilidade internacional com efeitos negativos e positivos. Por um lado, revelou ao mundo a realidade de contaminação de toda a política nacional pela corrupção, indicando que o problema estava entranhado no sistema do País. Em compensação, ela criou a imagem de que os problemas estavam sendo corrigidos e que, pela primeira vez, o Brasil deixava de ser dominado pela impunidade, dando exemplo ao mundo ao prender políticos e empresários poderosos.

No balanço, é evidente que a Lava Jato impactou de forma positiva a imagem do Brasil – mesmo considerando que ela também tenha sido alvo de controvérsias por exageros em algumas ações, por reduzir a confiança da população na política tradicional e pelos vazamentos de mensagens entre procuradores e o juiz Sergio Moro, assim como pela entrada dele no governo de Bolsonaro.

O seu fim melancólico vai marcar uma mudança na percepção internacional do Brasil, que deixa de ser visto como um país empenhado em mudar a problemática realidade da política, dominada pela corrupção.

Os artigos aqui publicados são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião da PB. A sua publicação tem como objetivo privilegiar a pluralidade de ideias acerca de assuntos relevantes da atualidade.


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