Artigo

Democracia racial

Daniel Buarque
é pesquisador no programa  de doutorado em Relações Internacionais do Brazil Institute do King’s College London (KCL) e do IRI/USP. É jornalista, tem mestrado em Brazil in Global Perspective pelo KCL e é autor de “Brazil, um país do presente”. Escreve quinzenalmente, às terças-feiras, na PB.
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Daniel Buarque
é pesquisador no programa  de doutorado em Relações Internacionais do Brazil Institute do King’s College London (KCL) e do IRI/USP. É jornalista, tem mestrado em Brazil in Global Perspective pelo KCL e é autor de “Brazil, um país do presente”. Escreve quinzenalmente, às terças-feiras, na PB.

O assassinato brutal do soldador João Alberto Freitas por seguranças de um supermercado Carrefour em Porto Alegre pôs em xeque uma das imagens mais controversas e problemáticas entre as projetadas pelo Brasil no resto do mundo, desde o século passado. As cenas da violência fatal contra um homem negro de 40 anos e as mobilizações antirracistas pelo País mostraram o quanto ultrapassada é a ideia de que o Brasil é uma democracia racial.

As notícias sobre o caso rodam o mundo desde o fim de semana [artigo publicado em 24 de novembro de 2020]. Primeiramente, tiveram destaque mais em veículos de imprensa franceses (sede do Carrefour) e europeus, mas se espalharam também na mídia de países de língua inglesa, com reportagens no britânico The Guardian, na rádio pública norte-americana NPR e em agências de notícias.

Em quase todas as publicações, a comparação imediata é com a violência e racismo expostos na sociedade norte-americana, como no assassinato de George Floyd, um homem negro morto por um policial branco nos Estados Unidos. O caso norte-americano desencadeou uma onda nacional de protestos em defesa do valor da vida dos negros – como na reação imediata registrada também no País no fim de semana.

A comparação entre os dois casos é fundamental para entender questões de identidade racial e de imagem na relação entre o Brasil e os Estados Unidos. O contraste entre as relações de raça nos dois países ajudou a construir em âmbitos nacional e internacional  a ideia ultrapassada, mas ainda viva, de que enquanto os norte-americanos são racistas, os brasileiros não têm preconceito de cor e raça.

O próprio presidente Jair Bolsonaro afirmou, em discurso na reunião de cúpula do G20, que “há tentativas de importar” para o Brasil “tensões” raciais que são “alheias à nossa história.” Enquanto o vice-presidente Hamilton Mourão disse que não existe racismo aqui no País.

Inúmeras pesquisas acadêmicas mostram que essa interpretação está errada, e que pessoas de pele mais escura sofrem cotidianamente o racismo estrutural, têm menos oportunidades sociais e são mais frequentemente vítimas de violência, o que comprova a existência do racismo.

O discurso do governo é associado ao que era pregado durante a ditadura militar, servindo para a “acomodação dos conflitos internos” e por ”interesses econômicos”, explicou a professora de sociologia, Flavia Rios, da Universidade Federal Fluminense (UFF), em entrevista à Folha de S. Paulo.

Mas o mito da democracia racial brasileira em contraste com a segregação dos Estados Unidos vem de ainda mais longe. Ele foi propagado tanto no Brasil quanto na imagem projetada ao resto do mundo nos anos 1940, segundo o brasilianista Marshall Eakin. Entre os norte-americanos, ele ganhou força com a publicação em inglês de Casa grande e senzala, de Gilberto Freyre, que deu aulas no País, o que ajudou a reforçar esta imagem.

Freyre propagou uma versão limpa da longa história brasileira de colonização e escravidão, sendo que o Brasil se apoiou nisso para se projetar como um país superior por ser miscigenado, enquanto os Estados Unidos da época eram segregados. A imagem acabou se fixando. Até hoje, muitos norte-americanos ainda acreditam na ideia de que a miscigenação dá uma flexibilidade à questão de raça no Brasil, reduzindo tensões que são evidentes nos Estados Unidos. Muitos brasileiros se acreditam superiores por não terem as “tensões do norte”.

Entretanto, acadêmicos dos dois países têm demonstrado o quanto essa interpretação é equivocada, e mostram, até mesmo, que este mito sobre a identidade brasileira tem atrapalhado movimentos contrários ao racismo. Segundo o historiador Jerry Dávila, por exemplo, é muito fácil perceber no Brasil uma hierarquia estampada na cor das pessoas, mas a falta de uma institucionalização da segregação tornou mais difícil derrubar legalmente essas barreiras raciais. Essa fluidez gera declarações que até agora negam o racismo por trás de casos de violência como o registrado no Rio Grande do Sul. A ideia de que o Brasil é uma democracia racial não passa de um mito que precisa ser deixado para trás para permitir a correção das injustiças no País.

O que fica evidente depois dos assassinatos de Freitas e Floyd é que tanto Brasil quanto Estados Unidos têm muito racismo. Ainda que as questões de identidade racial e as relações sociais geradas por elas sejam diferentes nos dois países, isso não reduz a violência e o preconceito registrados em ambas as nações.

Os artigos aqui publicados são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião da PB. A sua publicação tem como objetivo privilegiar a pluralidade de ideias acerca de assuntos relevantes da atualidade.


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