Artigo

Diplomacia de combate

Daniel Buarque
é pesquisador no programa  de doutorado em Relações Internacionais do Brazil Institute do King’s College London (KCL) e do IRI/USP. É jornalista, tem mestrado em Brazil in Global Perspective pelo KCL e é autor de “Brazil, um país do presente”. Escreve quinzenalmente, às terças-feiras, na PB.
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Daniel Buarque
é pesquisador no programa  de doutorado em Relações Internacionais do Brazil Institute do King’s College London (KCL) e do IRI/USP. É jornalista, tem mestrado em Brazil in Global Perspective pelo KCL e é autor de “Brazil, um país do presente”. Escreve quinzenalmente, às terças-feiras, na PB.

O Brasil vem sofrendo erosão do seu prestígio global desde 2013. Todos os principais indicadores de percepção externa indicam que as crises econômica, social e política, pelas quais passa, desde então tiveram forte impacto sobre a sua reputação no mundo. Mesmo com a Copa e as Olimpíadas, o País tem perdido a influência do seu soft power – a principal ferramenta usada para reforçar a sua inserção internacional. E a situação piorou com a chegada de Jair Bolsonaro ao poder, com cobertura muito crítica na mídia estrangeira.

Depois de anos de perdas de influência e soft power, o novo governo parece ter mudado a estratégia histórica das relações exteriores. Em vez de tentar retomar a força do “poder brando” e melhorar a reputação internacional, a política externa assumiu postura mais belicosa ao flertar com o hard power, conceito usado para descrever a força militar e a capacidade de se impor
globalmente por ela.

Isso ficou claro desde 2019, na postura de rompimento diplomático com a ditadura de Nicolás Maduro na Venezuela, discursos críticos à comunidade internacional na ONU, críticas à China, declarações sobre supostos interesses escusos na Amazônia, ataques a governos europeus e até ofensas à primeira-dama da França.

Só os Estados Unidos parecem ser poupados de qualquer crítica em razão da admiração declarada de Bolsonaro por Donald Trump. E Brasil chegou a receber a visita do secretário de Estado norte-americano, Mike Pompeo, às instalações da Operação Acolhida, em Roraima, na fronteira com a Venezuela.

A tentativa de projeção de poder bruto possivelmente teve o seu auge em setembro, quando o Exército realizou a Operação Amazônia, exercício militar sem precedentes, que custou R$ 8,9 milhões aos cofres públicos e mobilizou cerca de 3,6 mil militares contra um fictício “exército vermelho”.

Em nome de uma suposta defesa da soberania nacional e contra o que vê como “globalismo”, o governo mudou a chave da sua tradição diplomática, deixando de lado os princípios históricos de cooperação e postura de pacifismo global.

O Itamaraty se transformou para assumir uma “diplomacia de combate”, como batizou o ex-chanceler Celso Lafer. A estratégia pode até fazer sentido numa avaliação da teoria realista de relações internacionais, em que a força bruta é o que conta como medida de poder e segurança de um país. A postura de combate e o alinhamento aos Estados Unidos passariam a determinar a nova posição brasileira na geopolítica global.

No entanto, a mudança de postura não se dá sem turbulências e tem gerado críticas. Ex-ministros das Relações Exteriores acusaram esta nova diplomacia de contrariar os princípios da Constituição. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, chamou a visita de Pompeo de “afronta às tradições de autonomia e altivez”.

Embora o governo argumente que a eleição democrática forneça mandato para determinar a política externa, a transformação deixa para trás mais de um século de tradição diplomática formada no Itamaraty, desde os tempos do Barão do Rio Branco. Para Lafer, os princípios da diplomacia brasileira estão esquecidos, uma vez que são favoráveis à cooperação, não ao combate.

Ao deixar de lado a busca por consenso e equilíbrio (e tentar assumir uma posição de força), o País corre grande risco e pode acabar sem nenhuma forma de projeção. O Brasil arrisca perder o apelo histórico do seu soft power sem conseguir acumular hard power suficiente para ganhar relevância mundial – sem chegar perto de potências como Estados Unidos e Rússia. Assim, pode passar a ter uma influência ainda mais encolhida na política global.

Os artigos aqui publicados são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião da PB. A sua publicação tem como objetivo privilegiar a pluralidade de ideias acerca de assuntos relevantes da atualidade.

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