Artigo

Diplomacia sem prestígio

Daniel Buarque
é pesquisador no programa  de doutorado em Relações Internacionais do Brazil Institute do King’s College London (KCL) e do IRI/USP. É jornalista, tem mestrado em Brazil in Global Perspective pelo KCL e é autor de “Brazil, um país do presente”. Escreve quinzenalmente, às terças-feiras, na PB.
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Daniel Buarque
é pesquisador no programa  de doutorado em Relações Internacionais do Brazil Institute do King’s College London (KCL) e do IRI/USP. É jornalista, tem mestrado em Brazil in Global Perspective pelo KCL e é autor de “Brazil, um país do presente”. Escreve quinzenalmente, às terças-feiras, na PB.

A política externa brasileira passou por muitas mudanças ao longo dos últimos dois anos. Desde que Jair Bolsonaro chegou à Presidência da República, mudou as prioridades e os alinhamentos da posição internacional do Brasil, comprou brigas com aliados históricos e ameaçou importantes relações econômicas. Isso tudo afetou a forma como o País é visto no resto do mundo.

Essas e outras transformações ganharam uma defesa, um documento que registra, do ponto de vista interno, tais mudanças de rumo – mas que, na verdade, deixa evidente que o Brasil se ilude em relação ao seu prestígio e não percebe que a própria presença global está encolhida. A transformação da diplomacia nacional é o tema do livro A nova política externa brasileira, que reúne discursos, artigos e entrevistas de Ernesto Araújo, ministro das Relações Exteriores. De forma genérica, Araújo argumenta que a nova política externa brasileira se baseia na democracia, na transformação econômica, no desenvolvimento, na soberania e nos valores da nação brasileira, bem como pelo conceito de liberdade.

Na prática, isso tem vários problemas. Em primeiro lugar, o foco em soberania e desenvolvimento são objetivos permanentes da diplomacia brasileira há décadas, então, não há nada de “novo” nessa conduta. A ideia de uma política pautada pela democracia esbarra no posicionamento político do presidente, que defende abertamente a ditadura militar e se alinha a líderes autocratas mundiais. A transformação econômica dependeria de uma política de mais abertura do País, que, apesar de existir no discurso, não se tornou realidade. Por último, a defesa de valores da Nação e da liberdade são conceitos vagos e sem uma relação clara com o Brasil.

Fica evidente no livro que o processo contínuo de perda de prestígio internacional do País é ignorado pelo governo. Mais do que isso, o Itamaraty de Araújo parece claramente iludido a respeito do nível de reconhecimento do Brasil no mundo.

A questão do status global do Brasil aparece em apenas um dos textos nas 500 páginas da publicação. Na “Mensagem de fim de ano” de 2019, Araújo reconhece que há um discurso sobre perda de prestígio nacional, mas nega que isso aconteça. “É exatamente o contrário. Todos os nossos interlocutores visivelmente transmitem, não só explicitamente, mas na sua atitude, uma nova atribuição de prestígio ao Brasil. (…) O Brasil hoje é visto como um ator muito mais importante do que era antes. É uma ideologia, aí, que realmente diz que nós perdemos prestígio. Não tem nenhum dado da realidade para provar. Todos os dados da realidade provam o contrário.”

O governo pode até acreditar de verdade nisso. Entretanto, status e prestígio não são o que um governo quer que seja, tenta projetar ou ouve de um ou outro interlocutor – mas, efetivamente, como é visto e reconhecido pela comunidade internacional. É um fenômeno difícil de medir de forma objetiva, mas, ao longo dos últimos anos, não faltam evidências de que o Brasil esteja perdendo status mundo afora. O próprio Araújo recentemente falou que seria aceitável o País virar um “pária internacional”. Nações com prestígio, como ele diz ser o Brasil, não são párias.

Todos os índices que medem a “marca” do País mostram quedas desde 2013 (e piorando ainda mais desde 2018). O principal deles, o Nation Brands Index, de 2020, mostrou o Brasil em 29º lugar no ranking global. Em meados de 2010, figurava frequentemente em 20º.

A mídia internacional é outra evidência. Há praticamente um consenso em uma abordagem crítica ao que acontece no Brasil e em sua política externa. Declarações de políticos e líderes estrangeiros completam bem a lista que mostra o declínio do prestígio nacional. O posicionamento europeu em relação ao acordo com o Mercosul, parado em decorrência das críticas à política ambiental do Brasil, se juntam a isso.

A pandemia deixou ainda mais evidentes estes problemas de imagem do Brasil, visto como epicentro da propagação de covid-19 e um dos países que mais negam a ciência. O governo Trump, nos Estados Unidos, talvez tivesse sido o único de uma nação importante, de fato, para o Brasil a dar realmente algum reconhecimento ao governo brasileiro. Entretanto, o mandato de Trump está acabando. Além disso, a falta de um posicionamento claro sobre a eleição de Biden no país norte-americano tem a tendência de tornar esse prestígio internacional brasileiro ainda menor.

Independentemente do que o governo diz acreditar, a verdade é que o Brasil perdeu, sim, prestígio internacional. A nova política externa finge que não, mas ela é uma das responsáveis por este encolhimento do status do País.

Os artigos aqui publicados são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião da PB. A sua publicação tem como objetivo privilegiar a pluralidade de ideias acerca de assuntos relevantes da atualidade.


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