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É o fim do projeto liberal?

Antonio Lanzana
é professor da USP e da Fundação Dom Cabral e copresidente do Conselho de Economia Empresarial e Política da
FecomercioSP
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Antonio Lanzana
é professor da USP e da Fundação Dom Cabral e copresidente do Conselho de Economia Empresarial e Política da
FecomercioSP

Uma neblina de incerteza pende sobre a economia brasileira. Testemunhamos novas cepas e o crescimento do número de casos e mortes por covid‑19, enquanto a vacinação ocorre em ritmo inferior às necessidades do País. A consequência é o endurecimento das medidas de isolamento, com reflexos no nível de atividade, principalmente no setor de serviços. Em janeiro deste ano, em comparação com o mesmo mês de 2020, o setor registrou queda de 4,7%, e redução de 3,1% na comparação com dezembro do ano passado. Os efeitos mais fortes do isolamento devem ocorrer a partir de março.

A incerteza ressoa na dinâmica fiscal, em decorrência da necessidade de retomada do auxílio emergencial e das indefinições sobre o funding (origem dos recursos) para o programa.

Este cenário foi ampliado com a intenção do presidente de interferir na formação dos preços dos combustíveis. Os argumentos para justificar a saída do presidente da Petrobras foram vários: a discordância do trabalho em home office (ao mesmo tempo que a estatal exibia elevada rentabilidade no quarto trimestre de 2020); sua remuneração era muito elevada (o que já ocorria desde o início da gestão) e privilegiava pequenos grupos (quais?). Justificativas que não convenceram os agentes econômicos, até porque as declarações tornavam cristalina a real intenção de interferência. Bolsonaro afirmou que o aumento do diesel era uma “covardia”, “o petróleo é do povo”, e que empresas estatais devem ter papel social (então não deveriam ter capital aberto).

Na realidade, os agentes econômicos interpretaram tudo isso como uma atitude populista com interferência na política econômica. A partir daí, duas questões podem ser analisadas: quais serão as consequências? Será o fim do projeto liberal?

Em relação à primeira, a reação foi imediata, em especial no mercado financeiro: desde então, até o fim de fevereiro, a Bolsa caiu 7,1%; a entrada de capitais estrangeiros na Bolsa, que era positiva nos três meses anteriores (R$ 28,3 bilhões de média mensal) reverteu a tendência, com saída de R$ 9,2 bilhões nos três dias seguintes; a taxa de câmbio passou para um patamar mais elevado; e o risco Brasil saltou de 274 para 304 no início de março.

Os impactos superam o mercado financeiro, com diminuição do investimento e desaceleração da retomada do crescimento; redução do valor das estatais à medida que os riscos de intervenção ficam mais latentes; diminuição do interesse de multinacionais investirem no País; e deterioração do ambiente de negócios no Brasil. Além disso, a perspectiva de elevação dos juros nos Estados Unidos deve fazer cair o fluxo de capitais para países emergentes.

São visíveis as divergências entre os posicionamentos do presidente e o projeto liberal. Basta lembrar do pronunciamento contrário à privatização da Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp) e das críticas à decisão do presidente do Banco do Brasil de reduzir o número de agências para aumentar a produtividade da instituição, medida adotada por vários bancos privados em função da evolução tecnológica.

O programa de privatizações não avançou. As recentes medidas para privatização da Eletrobras e dos Correios dificilmente evoluirão, assim como as promessas de maior abertura da economia pouco evoluíram. Reduziu‑se o imposto de importação de bicicletas, mas restringiu‑se a importação de bananas do Equador e elevou‑se o imposto de importação de leite em pó.

O que se pode esperar da equipe econômica é a contraposição a qualquer pressão para políticas fiscais irresponsáveis. Em meio à crescente preocupação com a pandemia, a última coisa que os agentes econômicos esperariam é uma deterioração ainda maior das expectativas graças a medidas populistas.

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