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Entre 98 governos, o pior do mundo

Daniel Buarque
é pesquisador no programa  de doutorado em Relações Internacionais do Brazil Institute do King’s College London (KCL) e do IRI/USP. É jornalista, tem mestrado em Brazil in Global Perspective pelo KCL e é autor de “Brazil, um país do presente”. Escreve quinzenalmente, às terças-feiras, na PB.
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Daniel Buarque
é pesquisador no programa  de doutorado em Relações Internacionais do Brazil Institute do King’s College London (KCL) e do IRI/USP. É jornalista, tem mestrado em Brazil in Global Perspective pelo KCL e é autor de “Brazil, um país do presente”. Escreve quinzenalmente, às terças-feiras, na PB.

Duas imagens marcaram o mês de janeiro na luta global contra a pandemia de covid-19. De um lado do mundo, na Austrália, 4 mil pessoas foram autorizadas a se aglomerar, sem máscara, para assistir a um torneio de tênis. No outro canto do planeta, no Brasil, famílias de Manaus se desesperaram ao ver faltar oxigênio nos hospitais em meio a uma onda ainda mais violenta e mortal de infecções pelo novo coronavírus. As duas imagens servem como um resumo das discrepâncias na competência e na forma como diferentes países atuaram no combate à pandemia.

A cidade de Adelaide, na Austrália, adotou uma política que permitiu que a cidade se veja virtualmente livre do novo coronavírus (sem nenhum caso registrado na última semana do mês). Manaus, por outro lado, é um símbolo do fracasso brasileiro e da falta de uma política coordenada do governo federal nos esforços contra a doença que já matou mais de 220 mil pessoas no País. A Austrália ficou em oitavo lugar em um estudo que avaliou as ações de 98 governos pelo mundo no combate à pandemia. O Brasil foi o último colocado.

A pesquisa Covid Performance Index foi realizada pelo Instituto Lowy, baseado na Austrália. O levantamento se propôs a desconstruir as respostas à pandemia, avaliando impactos geográficos, políticos, populacionais e econômicos na evolução das infecções por covid-19. Para isso, avaliou dados de casos confirmados da doença, número de mortes, total de casos e mortes em relação ao tamanho da população, bem como proporção de testes realizados e de casos confirmados nesses testes.

Nova Zelândia, Vietnã e Taiwan ficaram no topo do ranking de melhores respostas. São países que atuaram fortemente no controle de circulação de pessoas, testaram maciçamente a população e controlaram as fronteiras. O governo agiu de forma assertiva e com base na ciência, e a população cooperou respeitando os protocolos de saúde.  Assim, menos de um ano depois do início da pandemia, conseguiram chegar a uma situação que lembra a normalidade pré-covid-19. Não há mais mortes em quantidades assustadoras, a população se sente segura e a economia retoma a situação normal.

Brasil, México e Colômbia ficaram nos três últimos lugares do ranking. Nesses países, os governos não adotaram políticas competentes e com base na ciência, não houve uma política de defesa de isolamento social nem de testagem da população e as fronteiras permaneceram, a maior parte do tempo, abertas. Ações equivocadas que deixam o vírus livre para continuar a infectar e matar milhares, enquanto a vida se mantém longe da normalidade e a economia não vê perspectivas de recuperação.

Um dos pontos mais importantes do trabalho do Instituto Lowy foi mostrar que as políticas eficazes no combate à pandemia são conhecidas desde o começo da proliferação da doença: isolamento social, lockdowns e fechamento de fronteiras foram adotadas de uma forma ou de outra por quase todos os governos. A grande diferença está na forma como cada um agiu para convencer ou forçar a população a seguir estas recomendações.

No Brasil, por exemplo, o governo agiu contra os alertas, criticando o isolamento social e minimizando a ameaça do vírus – o que diminuiu a cooperação da população. Como se viu em Manaus, fracassou até mesmo na manutenção de uma estrutura hospitalar capaz de evitar mortes de quem já havia sido infectado.

Não houve ação coordenada do governo federal contra a proliferação do vírus, tampouco houve política com base em ciência, o presidente defendeu um tratamento precoce sem nenhuma base na medicina e a população, em sua maioria, ignorou as recomendações de epidemiologistas. Preocupado com os impactos imediatos da pandemia na economia, o governo de Jair Bolsonaro ignorou ações de longo prazo e boicotou políticas de combate à doença. Assim, o Brasil vive uma alta de número de casos e mortes, enquanto os países do topo do ranking retomam a normalidade.

O País começou 2021 com alta de casos e mortes e sem perspectiva de controlar a doença. Após quase um ano desde o primeiro caso em território nacional, o presidente parece finalmente ter entendido que a economia só vai se recuperar de verdade quando a pandemia for controlada e, enfim, aceitado a importância da vacina. Ainda assim, o processo vai ser lento e difícil em todo o mundo – e pode não trazer resultados, a não ser que o Brasil acelere a produção e a importação de imunizantes.

O resultado está claro. Países que aceitaram o sacrifício no início da pandemia estão começando a colher resultados. O Brasil e outras nações que ignoraram recomendações médicas estão afundando em uma mortalidade crescente, com fortes impactos também na economia, enquanto assistem a nações mais eficientes superarem a crise sanitária. Foi uma decisão política que terá efeitos nefastos na vida dos brasileiros e na economia nacional por muito tempo.

Acesse a pesquisa Covid Performance Index em:
https://interactives.lowyinstitute.org/features/covid-performance/.

Os artigos aqui publicados são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião da PB. A sua publicação tem como objetivo privilegiar a pluralidade de ideias acerca de assuntos relevantes da atualidade.

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