Artigo

Jornalismo e democracia

Carlos Eduardo Lins da Silva
é jornalista e professor do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper)
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Carlos Eduardo Lins da Silva
é jornalista e professor do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper)

Nos Estados Unidos, desde o início da colonização europeia, jornais passaram a circular em pequenas comunidades. Como dizia Alberto Dines, um dos mais importantes jornalistas da história da profissão no Brasil, em quase todas as cidades, por menores que fossem, havia ao menos três instituições: o bar, o xerife e o jornal.

Isso fez com que o jornalismo se enraizasse no cotidiano da cidadania naquele país, o que não ocorreu entre os brasileiros. Dines também creditava a essa onipresença de jornais o bom funcionamento e a força da democracia americana.

No Brasil, por diversas razões, as coisas não se passaram da mesma forma. A imprensa demorou para chegar aqui porque as atividades econômicas na então colônia não justificavam sua instalação. Os colonizadores também não tinham aspirações culturais que os fizessem desejar a impressão de livros. Seguramente, Lisboa tampouco desejava incentivar que os residentes no Brasil se animassem a produzir jornais ou panfletos que pudessem contradizer ou enfraquecer as diretrizes da Coroa.

De fato, o jornalismo só se estabeleceu como atividade econômica no País em meados do século 20. Antes disso, ele foi exercido em geral apenas por iniciativa política ou ideológica. Não se tratava de uma atividade lucrativa. Quando se firmou, concentrou-se nas grandes cidades, onde havia negócios capazes de sustentá-lo. Alguns municípios de porte médio também conseguiram estabelecer periódicos importantes. Mas isso não durou muito.

As oportunidades econômicas para o crescimento do jornalismo independente, em cidades e regiões que até então nunca o haviam experimentado, só começou a ocorrer nas décadas de 1990 e 2000, quando o País viveu o período de maior prosperidade, melhor distribuição de renda, ampliação do mercado consumidor e maior possibilidade de acesso à cultura. Infelizmente, esse também foi o período em que o aparecimento e posterior espraiamento quase universal da internet colocou em xeque o modelo de negócios do jornalismo baseado no anúncio para grandes públicos leitores.

Além disso, a segunda década do século 21 foi a pior em termos econômicos da história do País, o que fez com que muitos dos veículos de municípios menores, alguns com histórias longas de vida, se vissem obrigados a encerrar atividades ou diminuí-las drasticamente.

Hoje, segundo levantamento feito pelo Atlas da Notícia, elaborado pelo Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo (Projor), 62% dos municípios brasileiros não têm cobertura jornalística, e 18% da população carecem de acesso a jornalismo local.

Evidentemente, isso enfraquece dramaticamente a construção da democracia no Brasil. O jornalismo independente é agora mais importante do que nunca para a cidadania. A desinformação que grassa nas plataformas das redes sociais só pode ser combatida com o trabalho responsável da imprensa, como se comprova na crise da pandemia do novo coronavírus.

No entanto, embora o consumo de jornalismo tenha batido todos os recordes neste ano, a situação econômica das empresas responsáveis por ele nunca foi tão ruim devido à recessão profunda que a crise da saúde ocasiona. Isso ocorre em todo o mundo. Nos Estados Unidos, a imprensa local está sendo obrigada a demitir e cortar despesas básicas, e muitos veículos deixaram de operar em definitivo.

No Brasil, essa situação é ainda mais lastimável porque o papel da imprensa independente nas eleições municipais de 2020 é essencial para o eleitor fazer suas escolhas.

A situação não é promissora. Mas o jornalismo deve continuar tentando cumprir o seu dever de bem informar.  

Os artigos aqui publicados são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião da PB. A sua publicação tem como objetivo privilegiar a pluralidade de ideias acerca de assuntos relevantes da atualidade.

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