Artigo

Liderança ambiental do Brasil vira cinzas

Daniel Buarque
é pesquisador no programa  de doutorado em relações internacionais do Brazil Institute do King’s College London (KCL) e do IRI/USP. É jornalista, tem mestrado em Brazil in Global Perspective pelo KCL e é autor de “Brazil, um país do presente”. Escreve quinzenalmente, às terças-feiras, na PB.
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Daniel Buarque
é pesquisador no programa  de doutorado em relações internacionais do Brazil Institute do King’s College London (KCL) e do IRI/USP. É jornalista, tem mestrado em Brazil in Global Perspective pelo KCL e é autor de “Brazil, um país do presente”. Escreve quinzenalmente, às terças-feiras, na PB.

O Brasil, que um dia foi uma das principais lideranças internacionais em políticas ambientais e ações contra o aquecimento global, se tornou um pária. Em menos de dez anos, passou de negociador-chave em acordos multilaterais e sede da conferência Rio+20 – um dos eventos mais importantes para as negociações de proteção da natureza mundial – a símbolo de descuido ambiental.

As notícias das últimas semanas aceleraram um processo que ganha força desde a eleição de Jair Bolsonaro, em 2018. Primeiro, foram os incêndios recordes no Pantanal – que se juntaram às imagens do fogo que destrói a Amazônia de forma acelerada – desde 2019. Em seguida, vieram as decisões do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), que tiraram a proteção de manguezais e restingas.

A resposta mundial não demorou. No debate entre os candidatos a presidente dos Estados Unidos, na semana passada, o democrata Joe Biden disse que, caso vença as eleições de novembro, o governo brasileiro precisa controlar e evitar a destruição da floresta sob pena de sofrer sanções internacionais.

Com tom igualmente duro, líderes da Europa têm rejeitado a aprovação do acordo União Europeia-Mercosul, alegando que o Brasil não parece comprometido com a proteção ambiental. Governos e empresas discutem boicote a produtos brasileiros associados à destruição da floresta, pela qual o País pode pagar um preço alto por suas escolhas em relação ao ambiente.

O governo de Jair Bolsonaro, enquanto isso, assume postura negacionista. O presidente mentiu durante o seu discurso na abertura da Conferência anual da Organização das Nações Unidas (ONU), negou a gravidade dos incêndios e distribuiu acusações a Organizações Não Governamentais (ONGs) e populações indígenas, além de fugir da responsabilidade pela ruptura do papel que o País tinha na política ambiental mundial. No discurso oficial, o Brasil protege sua natureza, já aquele que critica é porque tem “interesses escusos”.

O resto do mundo parece nem mesmo prestar muita atenção às declarações de Bolsonaro. Sua fala teve pouquíssima repercussão internacional e quase toda foi negativa. A atenção está voltada não ao que ele fala, mas aos dados sobre a destruição, que são publicados com regularidade, e às imagens que mostram o fogo devastando o Pantanal, como ocorreu antes na Amazônia.

A narrativa pode até ter apelo para os partidários do mandatário, porém, “não cola” com a comunidade internacional. Enquanto crescem os consensos científico e político sobre a importância de políticas de proteção ambiental, a preocupação dos outros países vai muito além dos “interesses” conspiratórios apontados pelo governo. O mundo assumiu, nas últimas décadas, uma agenda que dá prioridade ao combate ao aquecimento global. Alinhado a isso, há uma percepção muito negativa sobre o papel do Brasil na questão ambiental.

A riqueza natural do País e as políticas que evidenciaram um crescente compromisso com a proteção dela, desde o fim da década de 1980, ajudaram a elevar nosso status internacional. A demonstração de que seria possível impulsionar o crescimento da economia sem ampliar o desmatamento rendeu muito reconhecimento no início do século 21. A Nação se consolidava nos anos 2010 como uma referência global, tornando-se uma voz essencial em toda e qualquer conversa sobre políticas internacionais nesta área.

Grandes potências, como os Estados Unidos e a União Europeia, reconheciam publicamente esse papel proeminente nacional. E o protagonismo assumido na questão ambiental era frequentemente apontado como sendo um dos caminhos mais rápidos pelos quais poderia ganhar status internacional – e se aproximar de ser, também, uma potência.

Mas o País mudou de rumo. Junto com a pior recessão da história, ainda durante o governo de Dilma Rousseff, perdeu-se muito do ímpeto de proteger o meio ambiente e buscar um papel de liderança. Com a crise política, o impeachment, assim como a continuação da crise econômica, as coisas começaram a piorar. E, então, veio a crescente desregulamentação da proteção ambiental.

Desde que Bolsonaro chegou ao poder, o governo tem trabalhado para permitir mais exploração da Amazônia – como o próprio governante disse ao ex-vice-presidente dos Estados Unidos Al Gore, durante encontro tornado público por um vídeo. Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente,  que deveria liderar a proteção ambiental, defendeu “passar a boiada” de desregulamentações, tendo, de fato, levado adiante este projeto. Assim, o País perde protagonismo, a sua voz deixa de ter relevância. A liderança do Brasil virou cinzas junto com muito de sua fauna e de sua flora.

Os artigos aqui publicados são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião da PB. A sua publicação tem como objetivo privilegiar a pluralidade de ideias acerca de assuntos relevantes da atualidade.


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