Artigo

Marca da violência

Daniel Buarque
é pesquisador no programa  de doutorado em Relações Internacionais do Brazil Institute do King’s College London (KCL) e do IRI/USP. É jornalista, tem mestrado em Brazil in Global Perspective pelo KCL e é autor de “Brazil, um país do presente”. Escreve quinzenalmente, às terças-feiras, na PB.
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Daniel Buarque
é pesquisador no programa  de doutorado em Relações Internacionais do Brazil Institute do King’s College London (KCL) e do IRI/USP. É jornalista, tem mestrado em Brazil in Global Perspective pelo KCL e é autor de “Brazil, um país do presente”. Escreve quinzenalmente, às terças-feiras, na PB.

“Banho de sangue”, “carnificina”, “extermínio”. A ação policial que deixou 29 mortos no Jacarezinho, no Rio de Janeiro, teve ampla repercussão na imprensa estrangeira, expondo ao mundo uma imagem negativa e consolidada do Brasil como um país profundamente marcado pela violência policial. Em cada descrição, palavras como as apresentadas no início deste texto davam o tom da interpretação crítica que se teve no exterior sobre o que aconteceu.

A violência policial é quase um clichê da imagem internacional do Brasil. Ela aparece com destaque na imprensa estrangeira que acompanha notícias sobre ações das forças de segurança do país e, de tempos em tempos, se torna a principal marca nacional no exterior. Quase todas as semanas é possível ler relatos na mídia internacional a respeito das violações aos direitos humanos e da brutalidade dos agentes de segurança, que, em contrapartida, são vistos como incapazes de diminuir a enorme onda de violência urbana que assusta a sociedade.

O Brasil é visto como “um país onde a polícia mata com frequência e impunimente”, como descreveu o jornal americano The New York Times logo após a ação ocorrida no bairro da zona norte do Rio.

Muito além do caso mais recente, na imprensa de outros países, a violência policial já foi tratada como “epidemia” pela revista norte-americana Foreign Policy. Os policiais já foram associados a “assassinos em série” pela revista britânica The Economist. Já foi dito que é uma força policial “rápida no gatilho”, com o costume de atirar primeiro e perguntar depois. Já se comparou a polícia a ações de terror, e não são raras as definições como “fora de controle” para essa violência. A crítica chegou até mesmo a usar o termo “genocídio” para se referir a ações das forças de segurança brasileiras.

A expressão mais assustadora do País, segundo o jornal Washington Post, está ligada a este tipo de ação violenta. “A palavra ‘chacina’ veio a se referir ao massacre de pessoas após a morte de um policial. A implicação é clara: chacinas são assassinatos em represália pela polícia em uma escala assustadora”, explicava uma reportagem publicada em 2016.

O relatório de 2018, que marcou os 57 anos da Organização Não Governamental (ONG) Anistia Internacional, destacou que esse tipo de ação indica que a polícia brasileira e autoridades ligadas ao governo usam a ideia de legítima defesa como “cortina de fumaça” para encobrir execuções extrajudiciais praticadas por agentes de segurança pública.

“Todos os anos, a polícia do Brasil é responsável por pelo menos 2 mil mortes. As vítimas são registradas como tendo sido ‘mortas ao resistir a prisão’ “, explica uma reportagem, de 2014, da Economist.

A repercussão internacional negativa da operação em Jacarezinho não se limitou à imprensa estrangeira. A Organização das Nações Unidas (ONU) se pronunciou para cobrar uma investigação independente sobre o caso e criticou o fato de a polícia brasileira ter um histórico de uso desproporcional e desnecessário da força. A Comissão Interamericana de Direitos Humanos condenou a ação, as ONGs internacionais Anistia Internacional e Humans Right Watch (HRW) também criticaram a ação e defenderam que esta seja investigada de forma independente pelo Ministério Público.

Além da forte imagem de violência, o mundo vê o Brasil como uma nação que tolera a ação brutal da polícia, como se isso fosse capaz de tornar a sociedade mais segura — o que a imagem externa deixa claro que não é verdade.

O que torna a situação ainda mais desalentadora é a frequência com que ações assim se repetem. Isso não apenas fortalece a imagem negativa que se formou a respeito do País, como também indica a ausência de uma política que mude esta situação. Sem uma solução, o Brasil segue associado à falta de respeito aos direitos humanos oferecidos a seus cidadãos, tão esperados de uma nação moderna e civilizada.

Os artigos aqui publicados são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião da PB. A sua publicação tem como objetivo privilegiar a pluralidade de ideias acerca de assuntos relevantes da atualidade.

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