Artigo

Mentiras e crise de identidade

Daniel Buarque
é pesquisador no programa  de doutorado em Relações Internacionais do Brazil Institute do King’s College London (KCL) e do IRI/USP. É jornalista, tem mestrado em Brazil in Global Perspective pelo KCL e é autor de “Brazil, um país do presente”. Escreve quinzenalmente, às terças-feiras, na PB.
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Daniel Buarque
é pesquisador no programa  de doutorado em Relações Internacionais do Brazil Institute do King’s College London (KCL) e do IRI/USP. É jornalista, tem mestrado em Brazil in Global Perspective pelo KCL e é autor de “Brazil, um país do presente”. Escreve quinzenalmente, às terças-feiras, na PB.

De volta aos holofotes da política nacional durante depoimento à CPI do Covid, que investiga ações e omissões do governo na pandemia, o ex-ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, negou a realidade e expôs uma crise na identidade internacional do País. A falta de conexão entre o que o Brasil imagina que seja o seu papel no mundo e a forma como é percebido externamente é um problema histórico, que parece ter ganhado ainda mais força desde que Jair Bolsonaro chegou à presidência.

Após atuar de forma problemática por um longo período de evidente tensão nas relações do Brasil com a China (maior parceiro comercial e origem de grande parcela das vacinas usadas em território nacional), Araújo disse não ter nada contra o país e não o ofendeu. A declaração, claramente falsa, ecoa outros momentos em que o ex-chanceler pareceu assumir uma narrativa fantasiosa sobre a projeção do País no mundo. Em um discurso de 2019, quando o Brasil via sua imagem encolher rapidamente, Araújo disse que não havia perda de prestígio do País, e que o Brasil era visto, então, como um ator muito mais importante do que era antes.

O que se vê, na realidade, é bem distante do quadro pintado pelo ex-chanceler. O Brasil historicamente já desenvolvia uma projeção internacional mais modesta e sem a relevância que o País gostaria de ter. Acreditando na sua grandeza e na capacidade de se tornar uma das maiores potências mundiais, o Brasil é, há décadas, candidato a se tornar membro permanente do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU). Por mais que tenha havido uma euforia com a ascensão econômica nacional no começo do século 21, o Brasil nunca foi visto no exterior como mais do que uma potência emergente de capacidade média. Bem longe do que gostaria. E mesmo essa projeção limitada só piorou desde os protestos nacionais de 2013, além da crise econômica, do impeachment e da eleição de Bolsonaro. Aos olhos do mundo, o prestígio brasileiro tem se reduzido e se tornado menos relevante.

Esta falta de conexão entre o que o País acredita ser a própria identidade, o que tenta projetar para o mundo e como de fato é visto no exterior costuma ser tratada em relações internacionais com conceitos da psicologia social. Um dos principais deles é a segurança ontológica. A ideia é que as nações, assim como as pessoas, precisam experimentar suas identidades de forma completa e rotineira ao longo dos tempos, sem mudanças radicais que possam gerar insegurança na consciência de si mesmo.

Um dos pontos centrais desta análise da identidade (inter)nacional é que esta não é apenas construída e projetada, mas dependente de como é recebida de fora. A rotinização da noção que um país tem de si mesmo se constrói de formas social, relacional e intersubjetiva. A segurança dessa identidade depende de como é refletida no exterior, o que torna a visão do outro fundamental para a sua consolidação e segurança.

Em uma obra fundamental para a aplicação deste conceito sobre a identidade internacional, a professora Jennifer Mitzen, da Ohio State University, nos Estados Unidos, propôs uma explicação: “Pense no aspirante a ator que trabalha como garçom. Ele pode se ver como um ator e ter aulas, fazer testes e falar constantemente sobre teatro. No entanto, até que ele consiga um papel relevante como ator, não pode ‘ser’ um ator. Simplesmente não há como reconhecê-lo como tal. Para a sociedade, ele é um garçom”.

A analogia se encaixa bem na análise da projeção internacional do Brasil, especialmente nos últimos anos. O País pode se ver como destinado à grandeza e como um importante ator na política global. Pode negar a realidade e acreditar que o seu prestígio está em alta. No entanto, a sua reputação no resto do mundo está piorando, o seu prestígio encolhe e a sua imagem real é cada vez pior. O Brasil não é reconhecido como o governo Bolsonaro, especialmente o ex-chanceler, quer que seja. Até que consiga melhorar esta imagem e voltar a se projetar positivamente –como o fez até o início da década passada –, ele pode continuar a ser um “garçom”, um país sem relevância e com baixo prestígio.

Os artigos aqui publicados são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião da PB. A sua publicação tem como objetivo privilegiar a pluralidade de ideias acerca de assuntos relevantes da atualidade.

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