Artigo

Negacionismo e corrupção

Daniel Buarque
é pesquisador no programa  de doutorado em Relações Internacionais do Brazil Institute do King’s College London (KCL) e do IRI/USP. É jornalista, tem mestrado em Brazil in Global Perspective pelo KCL e é autor de “Brazil, um país do presente”. Escreve quinzenalmente, às terças-feiras, na PB.
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Daniel Buarque
é pesquisador no programa  de doutorado em Relações Internacionais do Brazil Institute do King’s College London (KCL) e do IRI/USP. É jornalista, tem mestrado em Brazil in Global Perspective pelo KCL e é autor de “Brazil, um país do presente”. Escreve quinzenalmente, às terças-feiras, na PB.

Imagens e relatos sobre protestos contra o governo de Jair Bolsonaro, no primeiro fim de semana de julho, estamparam páginas dos principais veículos de imprensa estrangeiros. A cobertura da mídia internacional, que já tinha um tom de forte crítica à política ineficiente no combate à pandemia, passou a dar uma nova cara à interpretação sobre o que acontece no Brasil. Além de condenar o que é apontado como negacionismo do governo, a visão externa passou a ver como ainda mais graves as denúncias de corrupção no processo de compra de vacinas no País.

A exposição internacional dos escândalos no Brasil é tão grande que uma busca, no início de julho, pelas palavras “vacina” e “corrupção” em inglês no Google levava a imagens do presidente Jair Bolsonaro e a reportagens sobre os escândalos nacionais entre os primeiros resultados.

“Os brasileiros ficaram irritados com a lentidão com que seu governo se moveu para adquirir vacinas contra o coronavírus. Agora, eles estão indignados com um escândalo de corrupção envolvendo compras de vacinas”, resumiu o jornal americano The New York Times. “Cresce a pressão sobre Bolsonaro em meio à crescente raiva por escândalo de corrupção das vacinas”, dizia o título da reportagem do britânico The Guardian.

Há décadas, a corrupção é uma das mais fortes marcas da imagem internacional do Brasil. Por algum tempo, a Operação Lava Jato chegou a criar uma percepção externa de uma tentativa de mudar a cultura de impunidade nacional, mas o fim da operação e os posicionamentos do governo Bolsonaro levaram a uma nova piora da reputação brasileira.

O Índice de Combate à Corrupção, produzido pelos Think Tanks Americas Society/Council of the Americas e Control Risks, mostra que o Brasil registrou os maiores retrocessos da América Latina na luta contra a corrupção desde a chegada de Bolsonaro ao poder. O País também aparece em 94º lugar no ranking de percepção de corrupção no mundo pela Organização Não Governamental (ONG) Transparência Internacional, e sua nota de percepção de corrupção registrou piora nos últimos anos.

É verdade que a corrupção durante a pandemia não é um problema exclusivo do Brasil. Ela se alimenta de momentos de crise, como se vê na América Latina e em países de vários continentes – da África à Europa –, onde se registra aumento de casos de desvios ligados à pandemia.

A urgência na produção de vacinas em todo o mundo levou a Organização das Nações Unidas (ONU) a publicar um relatório alertando para os riscos de casos de corrupção que poderiam ameaçar a saúde pública. Segundo o trabalho, o risco tem várias facetas e pode ir desde pessoas que furam fila de vacinação e roubos e desvios de vacinas, até falsificação de imunizantes, vazamentos no financiamento de emergência designado para o desenvolvimento e distribuição de vacinas – ou mesmo desvios no processo de compra dos imunizantes por governos. Um artigo publicado no site de divulgação científica SciDev vai além e aponta como corrupção não só desvios de dinheiro, como também manipulação de dados para diminuir a visibilidade do impacto da pandemia, campanhas para diminuir a confiança na ciência e nos sistemas de saúde e, até, mesmo iniciativas negacionistas que questionam vacinas.

O Brasil que se destaca, agora, pelas denúncias de corrupção nas compras de vacinas é o mesmo que registrou vários outros tipos de corrupção durante a pandemia. O País viu furadores de filas de vacinação, roubos de vacinas e até mesmo pessoas burlando o sistema para tomar uma terceira dose de imunizantes. Além disso, o governo tentou esconder dados de mortos pelo coronavírus (levando a imprensa a criar um consórcio para dar mais transparência à contagem de vítimas) e rejeitou a ciência em sua abordagem da pandemia.

O caso brasileiro se torna mais grave por causa da situação vivida pela Nação desde o início da crise global de saúde. O Brasil é o segundo país com maior número de mortos pela doença. Além disso, o governo rejeitou medidas de isolamento que poderiam ter evitado contaminação e mortes, defendeu medicamentos ineficazes, desvalorizou a imunização e atrasou de forma injustificável a compra desses imunizantes. Em um contexto assim, as denúncias de desvios tornam mais grave a situação do combate ao covid-19 no Brasil. O País, que se destacou entre os maiores negacionistas, agora, também se torna sinônimo de corrupção.

Os artigos aqui publicados são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião da PB. A sua publicação tem como objetivo privilegiar a pluralidade de ideias acerca de assuntos relevantes da atualidade.

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