Artigo

O ano da vacina

Daniel Buarque
é pesquisador no programa  de doutorado em Relações Internacionais do Brazil Institute do King’s College London (KCL) e do IRI/USP. É jornalista, tem mestrado em Brazil in Global Perspective pelo KCL e é autor de “Brazil, um país do presente”. Escreve quinzenalmente, às terças-feiras, na PB.
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Daniel Buarque
é pesquisador no programa  de doutorado em Relações Internacionais do Brazil Institute do King’s College London (KCL) e do IRI/USP. É jornalista, tem mestrado em Brazil in Global Perspective pelo KCL e é autor de “Brazil, um país do presente”. Escreve quinzenalmente, às terças-feiras, na PB.

A virada de ano foi marcada por um importante avanço científico internacional que oferece alguma esperança na luta contra a pandemia de covid-19. Desde o começo de dezembro, vários países começaram a vacinar suas populações contra o novo coronavírus, em um processo que tende a ser lento e cheio de desafios, mas que tem o potencial de ajudar a superar a crise sanitária global.

Em todo o mundo, mais de 12 milhões de doses de algum tipo de vacina já foram aplicadas até os primeiros dias de 2021, segundo levantamento do Our World in Data. A China e os Estados Unidos lideram o ranking do total de doses aplicadas, enquanto Israel, Bahrein e Reino Unido se destacam no porcentual da população já imunizada. Na América Latina, Argentina, Chile, Costa Rica e México saíram na frente.

Enquanto 2021 começa com a promessa de superar a pandemia que abalou o mundo nos últimos meses e deixou quase 2 milhões de mortos, o Brasil vai ficando para trás. O País começa o ano sem um plano claro de imunização, tampouco aprovação de nenhuma das vacinas desenvolvidas internacionalmente e, até mesmo, sem seringas para aplicar o imunizante na população.

O cenário já seria desolador o suficiente, mas se torna ainda pior pelas imagens vistas durante as festas de fim de ano. Muitos brasileiros ignoraram recomendações de distanciamento social em aglomerações por todo o País – boa parte incentivadas pelo próprio presidente Jair Bolsonaro. Isso quando se registram aumentos de casos e de mortes bem semelhantes aos que foram vistos no Hemisfério Norte nos últimos meses de 2020, com alta no total de óbitos em países como Estados Unidos, Reino Unido e, até mesmo, na Alemanha.

O contraste entre a esperança mundial e o enorme risco enfrentado pelo Brasil neste início de 2021 é um resultado dos grandes erros na conduta do governo no combate à pandemia. Por mais que o presidente tenha declarado, no fim de dezembro, que “acertou tudo” na atuação, o que se vê é um País que registra aumento do número de casos e mortes, enquanto reduz o cuidado com a propagação da doença e tem cada vez menos pessoas interessadas em uma vacina. O registro de quase 200 mil mortes no ano aumentou o total de óbitos anual nacional – o que jamais poderia ser visto como um sucesso da política adotada nacionalmente.

Mais do que isso, o sucesso que o mundo começa a colher no uso da vacina para combater a pandemia é resultado de uma aposta em abordagens internacional e científica opostas às que o Brasil tem adotado. Trata-se de uma defesa da pesquisa científica com colaboração de diferentes países, financiadores e empresas multinacionais, sob incentivo da Organização Mundial da Saúde (OMS) – enquanto a diplomacia brasileira rejeita o que chama de “globalismo”, o País corta verbas destinadas a universidades, e o presidente assume postura crítica ao que recomendam médicos e cientistas. Até mesmo o Ministério da Saúde ficou sob a responsabilidade de um militar sem conhecimento na área.

Apesar de ter sido palco de muitas das pesquisas que levam ao desenvolvimento de vacinas, como a de Oxford e a chinesa, o País não avançou com estudos próprios para desenvolver imunizantes e acabou se prendendo a poucas alternativas entre as desenvolvidas no mundo.

O Brasil erra o rumo e vê o ano da esperança começar longe da própria realidade. Sem vacina, além de continuarmos sob ameaças à saúde e à vida da população, a economia vai demorar muito mais tempo para se recuperar, a circulação de pessoas será dificultada (uma vez que muitos países devem usar a vacinação como “passaporte”), os contatos internacionais vão ser limitados e o País ainda ficará isolado. Nem tudo está perdido, entretanto, e ainda há tempo de corrigir esta situação e fazer com que o Brasil também seja incluído no ano da vacina. Para isso, é preciso perceber os equívocos do passado e trabalhar para corrigir o rumo e colocar o País dentro do contexto mundial de imunização, e a caminho de superar a pandemia. Vai ser difícil, mas é o único caminho a seguir.

Os artigos aqui publicados são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião da PB. A sua publicação tem como objetivo privilegiar a pluralidade de ideias acerca de assuntos relevantes da atualidade.


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