ArtigoBrasil no mundo

O custo do negacionismo ambiental

Daniel Buarque
é pesquisador no programa  de doutorado em Relações Internacionais do Brazil Institute do King’s College London (KCL) e do IRI/USP. É jornalista, tem mestrado em Brazil in Global Perspective pelo KCL e é autor de “Brazil, um país do presente”. Escreve quinzenalmente, às terças-feiras, na PB.
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Daniel Buarque
é pesquisador no programa  de doutorado em Relações Internacionais do Brazil Institute do King’s College London (KCL) e do IRI/USP. É jornalista, tem mestrado em Brazil in Global Perspective pelo KCL e é autor de “Brazil, um país do presente”. Escreve quinzenalmente, às terças-feiras, na PB.

O verão de 2021 no Hemisfério Norte acionou um alarme no mundo desenvolvido em razão dos efeitos cada, vez mais visíveis e assustadores, do aquecimento global. Temperaturas recorde nos Estados Unidos e no Canadá deixaram centenas de mortos num já reconhecido desastre natural, criando ambiente para incêndios que tornam a situação ainda mais catastrófica. Na Europa, Alemanha e Bélgica foram inundadas por chuvas históricas, também com mais de uma centena de vítimas.

A preocupação já leva a um avanço cada vez mais rápido de propostas para combater as mudanças climáticas, com corte de emissões de carbono, desenvolvimento de tecnologias baseadas em energia limpa e uma postura claramente voltada à proteção do ambiente global. Além de governos, empresas têm se comprometido com práticas cada vez mais sustentáveis, preocupadas com a redução dos efeitos das mudanças climáticas. A mobilização transcende fronteiras nacionais – e se consolida em uma pressão para que o mundo todo se junte a esses esforços.

Enquanto isso, no Brasil, uma seca ameaça o fornecimento nacional de energia, mas a notícia que mais chama a atenção, no mesmo período, é que partes da Amazônia chegaram a um nível de destruição tão marcante que a floresta já emite mais dióxido de carbono do que absorve.

A política negacionista e permissiva do governo de Jair Bolsonaro tem levado a um aumento constante do desmatamento, voltando a tentar esconder a destruição com mudanças nos métodos de medição das queimadas na floresta. O País, que já foi líder global na luta contra o aquecimento global, virou um problema e está perdendo até mesmo a sua imagem simpática (ainda que simplista) de “pulmão do mundo”.

O resultado destas duas tendências é a decadência crescente da reputação internacional do Brasil, com riscos crescentes para o status do País, cada vez mais parecido com um pária ambiental.

O noticiário internacional evidencia o paralelismo entre a preocupação dos países desenvolvidos com o aquecimento global e o negacionismo brasileiro. No jornal britânico The Guardian, acadêmicos e ativistas alertaram que a Amazônia vai entrar em colapso se Bolsonaro continuar sendo presidente do Brasil. O portal de divulgação científica The Conversation ampliou o coro, alertando que o País se aproxima de um nível do qual vai ser difícil retornar, mesmo se Bolsonaro deixar o poder.

A escalada do tom crítico com que o Brasil é tratado no exterior ganhou destaque especialmente em um editorial publicado pelo jornal de economia Financial Times. O Brasil, diz o periódico, precisa pagar o preço pelo seu negacionismo, e investidores estrangeiros, que possuem US$ 7 trilhões em ativos, devem deixar o País, caso não haja ações claras para mudar a política e assumir uma postura de real proteção ambiental. O texto cobra um ultimato de investidores e governos que há um ano pedem que o Brasil mude a política e atue de forma responsável em relação ao ambiente;contudo, assistem a um discurso falso do governo, enquanto o desmatamento só cresce.

Os efeitos visíveis do aquecimento global nos países desenvolvidos estão elevando a discussão ambiental a uma das prioridades dos governos e de empresas da Europa e da América do Norte, enquanto o pragmatismo chinês, de olho em mercados, também tem incentivado uma política mais voltada à responsabilidade com o ecossistema.

A atuação do Brasil na contramão desta tendência está levando o País a uma situação complicada. O negacionismo, em um momento crítico, está transformando o Brasil em uma marca tóxica, rejeitada por consumidores e empresas estrangeiros. O País corre risco de perder investidores, cada vez mais preocupados com a responsabilidade ambiental. A pressão por governos também ameaça a capacidade de fazer acordos internacionais, como a negociação entre Mercosul e União Europeia, travada em razão da política ambiental brasileira.

O preço começa a se apresentar. O País já sofre com a ameaça de perda de negócios e investimentos, o que terá efeitos graves sobre a economia nacional, criando instabilidade e afastando ainda mais negócios internacionais. Do ponto de vista político, ainda pode acabar virando alvo de uma diplomacia coercitiva, com sanções, não muito diferente da que há décadas afeta a realidade cubana e serve como justificativa para a manutenção de uma ditadura, enquanto a população fica esmagada por todos os lados.

Ainda dá tempo de mudar isso. Mesmo com a frustração pela manutenção do rumo após a saída de Ricardo Salles do Ministério do Meio Ambiente, cabe à população e às empresas brasileiras ecoar o reconhecimento da devastação das mudanças climáticas visto no mundo desenvolvido e pressionar internamente para uma nova política ambiental. O Brasil pode se antecipar à pressão externa, passar a atuar de forma responsável e coibir o desmatamento, assim, evitando os impactos de qualquer coerção internacional e se posicionando de forma alinhada com o resto do mundo. Já passou da hora de abandonarmos o negacionismo climático.

Os artigos aqui publicados são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião da PB. A sua publicação tem como objetivo privilegiar a pluralidade de ideias acerca de assuntos relevantes da atualidade.

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