Artigo

O luto de um pária

Daniel Buarque
é pesquisador no programa  de doutorado em relações internacionais do Brazil Institute do King’s College London (KCL) e do IRI/USP. É jornalista, tem mestrado em Brazil in Global Perspective pelo KCL e é autor de “Brazil, um país do presente”. Escreve quinzenalmente, às terças-feiras, na PB.
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Daniel Buarque
é pesquisador no programa  de doutorado em relações internacionais do Brazil Institute do King’s College London (KCL) e do IRI/USP. É jornalista, tem mestrado em Brazil in Global Perspective pelo KCL e é autor de “Brazil, um país do presente”. Escreve quinzenalmente, às terças-feiras, na PB.

O governo de Jair Bolsonaro sofreu um revés político tão violento com a vitória de Joe Biden na eleição presidencial dos Estados Unidos, que parece estar de luto.

O silêncio brasileiro após o anúncio da derrota de Donald Trump – um dos raros países do mundo que não reconheceram publicamente o resultado legítimo e democrático da decisão norte-americana – indica o estado de negação do governo. Este é tradicionalmente apontado como o primeiro estágio do sofrimento, seguido por raiva, barganha, depressão e aceitação.

Este longo processo até que a atual administração consiga entender as mudanças na geopolítica e agir de forma apropriada, vai isolar o Brasil cada vez mais. Ao mesmo tempo, tem o potencial de consolidar o caminho previsto pelo próprio chanceler, transformando o Brasil em um pária. Ao contrário do que Ernesto Araújo pode argumentar, entretanto, esta marginalização na política internacional vai diminuir o País, o que pode afetar sua economia negativamente.

A perda do maior parceiro internacional da “nova política externa brasileira”, inventada por Araújo, deixou o País desnorteado na sua relação com o mundo. Dependente do apoio norte-americano e de olho até mesmo em 2022, o governo agiu como fã do presidente dos Estados Unidos, colocando os interesses dele acima do que seria bom para os brasileiros. Tentou ajudar a impulsionar a reeleição de Trump. Bolsonaro chegou a declarar em público sua torcida por ele. O governo brasileiro claramente não se preparou para o resultado, por mais que fosse indicado como provável pelas pesquisas eleitorais e, agora, age como se nada tivesse acontecido.

Na terça-feira (10), o presidente brasileiro fez uma menção velada à pressão de Biden em relação à Amazônia e ameaçou reagir com “pólvora”. Bolsonaro pode ficar com raiva e evitar se posicionar oficialmente, mas Biden já começou o processo de transição e estrutura os planos para o governo democrata que começa em 20 de janeiro. O Itamaraty, por sua vez, ignora os 5 milhões de votos a mais e a vitória dele no Colégio Eleitoral, quebrando uma tradição diplomática ao tratar a disputa como indefinida.

“Na hora certa”. Foi a declaração do vice-presidente, Hamilton Mourão, sobre a razão do não reconhecimento do Brasil em relação à vitória de Biden. Esta demora para aceitar o resultado faz com que o Brasil esteja perdendo tempo. A hora certa pode já ter passado, e quando o governo decidir agir para corrigir o desconforto criado com o presidente eleito dos Estados Unidos, pode ser tarde demais.

Ainda que seja difícil para o governo aceitar, e que Bolsonaro possa tentar barganhar, Trump foi derrotado nas urnas. Mesmo que o republicano pretenda brigar na Justiça para tentar reverter o resultado eleitoral, especialistas veem como pequenas as chances de mudar o que foi decidido pelos eleitores. Além disso, qualquer resultado diferente do anunciado no último sábado vai jogar os Estados Unidos em uma crise constitucional – e uma eventual manutenção do republicano no poder vai ser vista como um “tapetão jurídico”.

Apostar neste processo é perigoso, pois mostra uma lealdade de Bolsonaro com Trump que vai além da relação institucional saudável entre os dois países e do que interessa ao Brasil. A ligação diplomática do governo parece ser com a pessoa de Trump, não com a nação Estados Unidos. Isso tende a ter um efeito negativo grave para o Brasil quando Biden tomar posse. A depressão (tanto no luto quanto na geopolítica e na economia) vai ocorrer quando os Estados Unidos passarem a tratar o Brasil não mais como um aliado, mas como um rival, como a China ou a Rússia (outros dois países que também não reconheceram o resultado das eleições).

O erro estratégico da diplomacia brasileira ao apostar na relação com Trump como única base da relação do País com o resto do mundo é evidente desde que Bolsonaro chegou ao poder. O Brasil se afastou de espaços de construção de políticas multilaterais, criou tensão na relação com outros parceiros importantes (como China e União Europeia), alinhou-se a governos populistas, extremistas e autocráticos e, com isso tudo, viu sua imagem internacional ruir. O Nation Brands Index, pesquisa global que avalia imagens internacionais de 50 países do mundo, classificou o Brasil em 29º lugar em 2020. No início da década, o País ocupava a 20º posição. Ao longo dos últimos dois anos, o laço com o presidente dos Estados Unidos serviu como um salvo-conduto para este comportamento que rompia com a tradição histórica da diplomacia brasileira e assumia postura de confronto. Sem Trump, o governo perde esta âncora e vai ficar praticamente sozinho em sua postura antiglobalista e de negação da ciência – perdendo também o que via como apoio fundamental para a campanha de reeleição de Bolsonaro. O problema não é apenas que o governo errou, mas que continua persistindo no erro ao ficar em silêncio e não construir pontes com o próximo governo norte-americano. Quanto mais cedo o governo entender que isso aconteceu e aceitar a perda do seu ídolo político, mais rapidamente poderá encerrar o processo de luto, aceitar e começar uma relação diferente – de preferência, mais séria ou institucionalizada – com os Estados Unidos.

Os artigos aqui publicados são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião da PB. A sua publicação tem como objetivo privilegiar a pluralidade de ideias acerca de assuntos relevantes da atualidade.


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