Artigo Ciência Política

O mau perdedor é o pior competidor

Humberto Dantas
é cientista político, doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (USP) e pesquisador da Fundação Getulio Vargas (FGV). Integra o grupo de especialistas que escrevem às quartas-feiras na coluna “Ciência Política” da PB.
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Humberto Dantas
é cientista político, doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (USP) e pesquisador da Fundação Getulio Vargas (FGV). Integra o grupo de especialistas que escrevem às quartas-feiras na coluna “Ciência Política” da PB.

A disputa vai além das fronteiras, em razão do seu peso e do que Trump simboliza. O atual mandatário é a incorporação de tudo o que utilizamos para desafiar uma democracia. Trump é um teste de estresse. Tão nocivo que, no calor de uma iminente derrota, enquanto vociferava contra o mesmo sistema que o elegeu em 2016, assistia a políticos republicanos contendo sua verborragia. O sistema daquele país é questionável? Sim, bem como todos os das demais nações deste tipo.

É do cientista político Adam Przeworski a mais clara noção, em tempos atuais, de que a democracia exige como condição essencial que os perdedores aceitem derrotas eleitorais. Quando adversários entram numa disputa, legitimam suas regras e formatos. Quando saem dela, precisam fazer o mesmo: o derrotado deve reconhecer que perdeu. Se tal fenômeno fosse menos importante, a mídia não cobriria com ênfase a mensagem dos derrotados, e os vitoriosos não esperariam seus adversários para falarem do sucesso. Assim, o desafio acontece  quando o perdedor diz: “Não aceito”. Trump foi além: antes da eleição, disse que não aceitaria a derrota.

Outros países já nos deram o ar desta desgraça. Na Venezuela, em 2013, Henrique Capriles se recusou a reconhecer a vitória de Maduro, colocando a Venezuela em guerra. Por pior que fosse o cenário, por que aceitou disputar? No Brasil, não é diferente. Em 2018, Bolsonaro atacou a urna e afirmou que não aceitaria perder. Já em 2020, afirmou ter provas (nunca apresentadas) de que venceu o pleito em primeiro turno. No entanto, isso não é novo.

Em 2014, mal orientado por um privilegiado irresponsável que assistia à apuração antes da sua divulgação, Aécio Neves comemorou intimamente a vitória. Quando percebeu que Dilma Rousseff estava reeleita, cumprimentou a adversária, porém, não tardou a pedir recontagem dos votos. Se não fosse o primeiro gesto, a realidade talvez fosse mais intensa. Poucos anos depois, numa deprimente gravação feita por um empresário corrupto, admitiu que tumultuou o pleito para “encher o saco do PT”.

Trump, Capriles, Bolsonaro e Aécio têm algo em comum: são irresponsáveis. Obviamente que podem utilizar a Justiça para questionar práticas eleitorais, mas não é sobre isso que falamos. Os pontos centrais são a forma, a intensidade e o instante. A baixa vocação para o exercício da democracia é um desafio ao sistema. Trump e Bolsonaro governam um país, a outra dupla governou Estados. Todos foram ungidos por partidos ou grupos, sendo reconhecidos como lideranças para o enfrentamento de uma realidade. E o que fazem? Transformam adversários em inimigos e desqualificam a democracia em nome de suas frustrações. Bolsonaro ainda mastiga a vitória, voltando seus olhos para 2018. Por quê?

Definitivamente, quando um ser humano encara o desafio de se tornar uma pessoa pública desta dimensão, a primeira pergunta que precisa ser feita é: tenho estrutura emocional para isso? Muitos acham que sim, parte guiada pelo torpor que causam o poder e a chance real de acessá-lo. Assim, nós também devemos repetir esta pergunta: este sujeito tem condições para algo deste tamanho? Contudo, nós também somos ludibriados por avaliações que nos inebriam. Aqui está mais um perigo da democracia: o “engano”, bem relatado por Stuart Mill, no século 19. Os Estados Unidos parecem se despedir de seu erro. A Venezuela afunda na inconsequência, inclusive, dos vencedores. E o Brasil? Nós seguimos governados por um mau perdedor, que, incapaz de qualquer autoanálise, arrastou quem democraticamente o escolheu.

Os artigos aqui publicados são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião da PB. A sua publicação tem como objetivo privilegiar a pluralidade de ideias acerca de assuntos relevantes da atualidade.


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