Artigo

Presidente e “influencer”

Daniel Buarque
é pesquisador no programa  de doutorado em Relações Internacionais do Brazil Institute do King’s College London (KCL) e do IRI/USP. É jornalista, tem mestrado em Brazil in Global Perspective pelo KCL e é autor de “Brazil, um país do presente”. Escreve quinzenalmente, às terças-feiras, na PB.
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Daniel Buarque
é pesquisador no programa  de doutorado em Relações Internacionais do Brazil Institute do King’s College London (KCL) e do IRI/USP. É jornalista, tem mestrado em Brazil in Global Perspective pelo KCL e é autor de “Brazil, um país do presente”. Escreve quinzenalmente, às terças-feiras, na PB.

O retorno do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva à cena política brasileira – após ter os direitos políticos restaurados pela decisão monocrática de Edson Fachin, ministro do Superior Tribunal Federal (STF) – desenhou um novo cenário na disputa pelo poder no País. Em um longo discurso, Lula formalizou o seu papel de principal nome da oposição ao presidente Jair Bolsonaro, levou a reações do atual mandatário e deu início ao que pode ser visto como a principal disputa nas eleições presidenciais de 2022.

Para além da cena doméstica, a volta de Lula alimenta um forte contraste nas interpretações internacionais a respeito do Brasil. Por mais que a reputação do ex-presidente tenha sido abalada por escândalos de corrupção envolvendo o próprio nome e o do PT, a sua imagem ainda é muito associada a um período dourado de crescimento nacional.

Quando o País decolava impulsionado por um avanço na economia e pela valorização global das commodities na primeira década do século 21, era a Lula que o avanço brasileiro costumava ser conectado. O ex-presidente adotou uma política externa baseada no multilateralismo e na projeção do Brasil, na aposta em uma agenda de defesas do meio ambiente, da democracia e do papel do País como mediador. E colheu frutos de uma popularidade crescente no mundo. O símbolo mais claro do quanto esta postura foi bem-sucedida foi a declaração do então presidente norte-americano Barack Obama de que Lula era “o cara”. Por mais erros e problemas que se possam apontar em relação ao governo do petista, é inegável que a sua imagem está profundamente ligada à nação que era a “bola da vez” no mundo.

Esse período tão positivo da imagem brasileira no exterior ganha destaque novamente agora, em razão do contraste a respeito da reputação nacional no mundo desde que Bolsonaro chegou ao poder. Com uma política externa oposta à de Lula, isolacionista, alinhado aos Estados Unidos de Donald Trump e apostando em confrontos, o atual presidente da República deixou de lado a liderança ambiental e a postura multilateral do País, o qual vê o seu prestígio internacional encolher rapidamente, além de ser considerado como ameaça à saúde global, em decorrência dos erros na condução do combate à pandemia de covid-19.

Estudos sobre imagens internacionais de países tradicionalmente indicam que questões efêmeras do país, como governos, não costumam ter efeito drástico sobre a forma como o resto do mundo vê uma determinada nação. Qualquer que seja a sua política, um único presidente dificilmente consegue mudar a imagem do Brasil como paraíso tropical, país do futebol e do carnaval, por exemplo.

Ainda assim, as pesquisas que medem opiniões globais mostram efeitos bem claros de governos e líderes na interpretação de estrangeiros. A eleição de Obama em 2008, por exemplo, gerou uma grande boa vontade global com os Estados Unidos; enquanto a ascensão de Trump, em seguida, teve efeito contrário, com piora da imagem norte-americana no mundo.

Lideranças políticas funcionam como influencers, “garotos-propaganda” de seus países em um mercado global – podendo ajudar ou dificultar as ações da nação no mundo.

No caso do Brasil, esta oscilação ligada a líderes é evidente. Até mesmo enquanto Lula era julgado e preso por corrupção, muitos representantes da comunidade e política externa dos países mais poderosos do mundo continuavam associando seu nome à emergência do País na década de 2000. O ex-presidente era chamado de “cheerleader do Brasil” no momento de ascensão global. Bolsonaro, por outro lado, se vê ligado a um país que caminha para se tornar um pária mundial. O governo deste último criou uma das piores imagens que o Brasil já teve no planeta, ao passo que a sua política externa tem nos deixado cada vez mais isolados.

No momento em que o “animador de torcidas” volta à cena, o contraste com a perda de prestígio nacional atual se torna mais evidente. Independentemente de políticas e ideologias de fato adotadas pelos dois governos, da popularidade de um ou outro entre cidadãos e eleitores brasileiros, ou da avaliação que o mercado internacional faz da movimentação política nacional, o fundamental é perceber o papel de influenciador de um presidente sobre o prestígio do País no mundo. Além dos seguidores que conquista, o presidente também precisa atuar para que a sua imagem ajude a promover o prestígio do Brasil.

Os artigos aqui publicados são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião da PB. A sua publicação tem como objetivo privilegiar a pluralidade de ideias acerca de assuntos relevantes da atualidade.

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