Artigo

Quem acredita no Brasil?

Daniel Buarque
é pesquisador no programa  de doutorado em Relações Internacionais do Brazil Institute do King’s College London (KCL) e do IRI/USP. É jornalista, tem mestrado em Brazil in Global Perspective pelo KCL e é autor de “Brazil, um país do presente”. Escreve quinzenalmente, às terças-feiras, na PB.
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Daniel Buarque
é pesquisador no programa  de doutorado em Relações Internacionais do Brazil Institute do King’s College London (KCL) e do IRI/USP. É jornalista, tem mestrado em Brazil in Global Perspective pelo KCL e é autor de “Brazil, um país do presente”. Escreve quinzenalmente, às terças-feiras, na PB.

O Brasil apresentou uma postura surpreendentemente sóbria e equilibrada durante os primeiros dias da Conferência das Nações Unidas para Mudanças Climáticas, a COP26, em Glasgow, na Escócia. Destoando do discurso negacionista e arrogante apresentado em outros encontros de líderes globais, o presidente Jair Bolsonaro declarou, por vídeo, que o Brasil seria parte da solução para superar este desafio global. De forma ainda mais marcante, o governo brasileiro assinou um acordo para limitar e reverter o desmatamento de florestas nas próximas décadas, além do compromisso de reduzir 30% das emissões globais de metano até 2030.

Na teoria, foi uma apresentação importante do País no principal fórum global de discussão de questões ambientais. A nova postura acena para o reconhecimento da seriedade do problema do aquecimento global e para políticas que possam ajudar a mitigar as mudanças climáticas. Poderia ser um primeiro passo para o País retomar um lugar na liderança global em questões ambientais.

Na prática, entretanto, o novo discurso gerou mais dúvidas do que celebrações. Para muitos observadores brasileiros e estrangeiros, há muito do que suspeitar na tentativa de projetar esta nova postura brasileira para o resto do mundo. O que se vê na realidade é a continuação de uma política que vem incentivando, desde 2019, o aumento da destruição ambiental no País.

“A retórica verde do governo em Glasgow se choca com a inação em casa”, diz uma análise da revista inglesa The Economist sobre a participação brasileira na COP26. “Não confie nas promessas do Brasil”, defendia o título de uma reportagem do jornal britânico The Guardian, citando ativistas do clima. Para eles, “o mundo deveria prestar mais atenção às políticas destrutivas do passado recente do que às vagas promessas sobre o futuro”. De acordo com a rede norte-americana de televisão CNN, há uma dúvida sobre a possibilidade de se acreditar no governo brasileiro. Bolsonaro, diz, “ganhou pouca credibilidade entre os defensores ambientais locais após desmantelar a legislação federal e as agências ambientais, destinadas a combater o desmatamento, e promover o aumento da mineração e extração de petróleo em territórios indígenas e terras protegidas publicamente”.

O mundo está de olho em ações, não em palavras e promessas. Segundo dois pesquisadores da Universidade de Cardiff, no Reino Unido, “ver como o governo do Brasil – e de Bolsonaro em particular – reverteu o progresso no combate ao desmatamento no passado nos deixa menos do que otimistas sobre sua sinceridade neste momento”, escreveram George Ferns e Marcus Gomes em um artigo.

Vê-se que a imagem internacional do País passa por um momento de baixa credibilidade. A perda de prestígio se dá pela mudança de postura do Brasil nas suas relações com outras nações desde a chegada de Bolsonaro ao poder. Mais do que a retórica, entretanto, são as ações do governo que afetam a possibilidade de confiança externa no que é prometido por Bolsonaro. O Brasil dos últimos anos sempre tenta se projetar como um grande protetor do ambiente, mas a realidade evidente é que houve um aumento gritante da destruição das florestas e de outros biomas desde 2019.

À questão ambiental se soma outro fator da política brasileira que tem potencial de gerar dúvidas e preocupação no exterior. Enquanto faz uma promessa de peso para a proteção das florestas, o País está discutindo voltar atrás de outro grande compromisso feito ao mundo há poucos anos. O governo Michel Temer defendeu o teto de gastos como um sinal ao mundo de que o Brasil passaria a adotar uma postura mais séria em relação às suas finanças e não permitiria uma piora de seu controle fiscal. E, menos de cinco anos depois, sob a batuta de Bolsonaro, o Brasil discute “flexibilizar” o teto de gastos, aumentando as suspeitas globais em relação à seriedade e aos compromissos assumidos pela política brasileira.

A reação crítica do mercado internacional em relação ao teto de gastos e o ceticismo do mundo em relação às promessas ambientais de Bolsonaro mostram que não há mais tanta gente que acredite no Brasil. Se quiser reconstruir sua credibilidade e voltar a ser, de fato, um ator relevante em questões globais, o País precisa mostrar mais ações do que palavras, e atuar como se fosse realmente sério.

Os artigos aqui publicados são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião da PB. A sua publicação tem como objetivo privilegiar a pluralidade de ideias acerca de assuntos relevantes da atualidade.

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