Artigo

Saudade de ser grande; cansada de ser pária

Helga Almeida
é doutora em Ciência Política pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e professora da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf). Integra o grupo de especialistas que escrevem às quartas-feiras na coluna Ciência Política da PB.
A
Helga Almeida
é doutora em Ciência Política pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e professora da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf). Integra o grupo de especialistas que escrevem às quartas-feiras na coluna Ciência Política da PB.

Araújo Castro, chanceler brasileiro em 1963, disse, à época, que nenhum país escaparia a seu destino, e (feliz ou infelizmente) que o Brasil estaria condenado à grandeza. De fato, as elites políticas e intelectuais brasileiras, logo em sua formação, acreditaram que o País estivesse destinado a ocupar lugar significativo na cena internacional, muito por causa de suas dimensões continentais, de suas riquezas nativas e da “liderança natural” entre os vizinhos. Este imaginário político resultou em ações de busca de afirmação no plano externo. O nacionalismo brasileiro constituiu, assim, uma diretiva não de isolamento ou hostilidade, mas de reforço da vontade de ter um lugar reconhecido no concerto das Nações.

Com características marcantes na sua diplomacia, como o não confrontacionismo – surgido após a lamentável guerra contra o Paraguai –, pacifismo, juridicismo e realismo, que se reconfigurou como pragmatismo político, o Brasil teve sua diplomacia reconhecida e respeitada em todo o mundo. Uma diplomacia “ativa e altiva”, como descreveu o ex-chanceler brasileiro Celso Amorim, que foi sendo costurada marcadamente desde o notório Barão de Rio Branco, chanceler brasileiro entre 1902 e 1912, responsável pelo estabelecimento de um modelo para a política externa sob égide de uma moderação construtiva, que lidava com o conflito a partir da premissa da prevalência  aa cooperação como base de legitimação de acordos entre países.

Foi assim que o Brasil, desde a segunda metade do século 19, por via de uma política deliberada de participação em fóruns multilaterais, se fez presente em conferências, tratados e organizações internacionais. Já no século 20, foi o único da América do Sul presente na Conferência de Paz de 1919, que regulamentou a ordem mundial, após o término da Primeira Guerra. O País também esteve presente na Conferência de Bretton Woods, de 1944, após a Segunda Guerra, que criou o sistema de organizações que deu o formato da ordem internacional do pós-guerra. Desde 1955, o Brasil é o país que faz a primeira fala na Assembleia da Organização das Nações Unidas (ONU), exatamente por ser considerado um mediador. Desde a sua constituição como república, participa de inúmeros fóruns importantes, tanto com os países do Norte Global, – reunião do G8, em 2003, no Fórum Econômico Mundial, etc. -, quanto em fóruns com seus pares em desenvolvimento e do Sul Global -Brics, Mercosul, etc.

 Até 2018, a política externa era tradicionalmente considerada uma questão de Estado no Brasil, e não de governo, era, assim, desvinculada de conflitos e facções inerentes à política doméstica, sendo formulada independentemente dela. Então, chegamos a 2021, e se o nosso saudoso Barão de Rio Branco pudesse ver o que está acontecendo, certamente mergulharia em grande tristeza. São mais de cem anos de respeito internacional jogados na lata de lixo da história no espaço de três anos. O Brasil, hoje, é persona non grata nos mais altos círculos internacionais, completamente isolado tanto degeograficamente, dado o fechamento das fronteiras por terseconvertido no epicentro descontrolado da Pandemia de Covid-19, como politicamente, pelos caminhos de não amistosidade, não cooperação, belicismo e ideologia aos quais a gestão do Executivo federal levou o país.

Deixamos o nosso respeitado jeito brasileiro de fazer política externa, por meio do soft power, ou seja, da boa argumentação, do pragmatismo, do diálogo e da mediação, para nos colocarmos como nação que, agora, faz ameaças raivosas e chacotas xenofóbicas, além de se posicionar ideologicamente. Nos fóruns internacionais, nos expressamos contra os direitos humanos, nos alinhando aos piores governos do mundo, como foi nosso voto pela eliminação da educação sexual, proposta na ONU pelo Paquistão. A justificativa brasileira para este voto? A “promoção da família”. Além disso, desdenhamos do cuidado com as nossas florestas, correndo o risco de destruirmos tratados internacionais importantes, como entre o Mercosul e a União Europeia.

Deixamos, ainda, a nossa capacidade de articulação multilateral, escolhemos o alinhamento unilateral aos Estados Unidos, que também já desandou e fez com que o próprio presidente da república do Brasil dissesse que resolveria as questões com o “Tio Sam” na base da pólvora. Agora, nos encontramos sozinhos e sem a solidariedade de tantos países que anteriormente eram amigos. O Brasil se tornou um país marginalizado, um pária internacional “com muito orgulho”.

Que tragédia!

Os artigos aqui publicados são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião da PB. A sua publicação tem como objetivo privilegiar a pluralidade de ideias acerca de assuntos relevantes da atualidade.

receba a nossa newsletter
seta