Artigo

Uma fotografia para o mundo

Daniel Buarque
é pesquisador no programa  de doutorado em Relações Internacionais do Brazil Institute do King’s College London (KCL) e do IRI/USP. É jornalista, tem mestrado em Brazil in Global Perspective pelo KCL e é autor de “Brazil, um país do presente”. Escreve quinzenalmente, às terças-feiras, na PB.
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Daniel Buarque
é pesquisador no programa  de doutorado em Relações Internacionais do Brazil Institute do King’s College London (KCL) e do IRI/USP. É jornalista, tem mestrado em Brazil in Global Perspective pelo KCL e é autor de “Brazil, um país do presente”. Escreve quinzenalmente, às terças-feiras, na PB.

A imagem do Brasil estará em jogo durante o próximo 7 de Setembro. Em uma das convocações para os protestos a seu favor, marcados para o Dia da Independência do Brasil, o presidente Jair Bolsonaro declarou que queria que as manifestações servissem para “mostrar uma fotografia para o mundo”. O governante quer usar a mobilização dos seus apoiadores para rejeitar as evidências de perda de popularidade indicadas nas pesquisas de opinião pública. E planeja usar a minoria barulhenta de seus partidários para levar adiante as ameaças constantes que tem feito à democracia brasileira. 

O efeito dessa fotografia que o presidente quer mostrar ao mundo pode ser bem diferente do que ele espera, entretanto. O que tem sido visto, no olhar externo sobre a situação brasileira, é uma escalada de autoritarismo e uma crescente pressão sobre a democracia, em uma piora constante da reputação nacional. Em um artigo que ajuda a entender esta percepção global, o jornal de economia Financial Times declarou que o presidente está adotando uma estratégia semelhante à usada pelo americano Donald Trump para tentar se manter no poder.

A manifestação a favor de Bolsonaro no dia 7 de setembro tem, portanto, o potencial de projetar imagens do Brasil equivalentes às que o mundo viu nos Estados Unidos em janeiro. Naquele mês, manifestantes a favor do presidente invadiram o Capitólio, em uma insurreição violenta que deixou cinco mortos e manchou profundamente a imagem da maior potência mundial.

A fotografia que o movimento liderado por Trump mostrou ao mundo foi muito ruim para a reputação norte-americana. Uma pesquisa de opinião pública global realizada antes e depois da insurreição de 6 de janeiro mostrou uma degradação marcante na imagem internacional dos Estados Unidos. Segundo levantamento do índice Best Countries, o país caiu: da 25ª para a 38ª posição internacional em termos de estabilidade política; da 19ª para a 26ª no ranking de transparência governamental; e da 45ª para a 53ª posição no índice que mostra os países mais felizes do mundo.

Este último dado é particularmente importante para entender possíveis impactos da escalada autoritária e do movimento golpista liderado pelo presidente no Brasil. A informação mostra que eventos da política afetam mesmo a percepção da vida fora dessa política, como a questão da felicidade da população.

No caso do País, isso pode ser um problema, porque a imagem internacional da política brasileira já não costuma ser muito positiva – e poderia não sofrer um baque tão grande por causa do movimento golpista. Contudo, a felicidade, por outro lado, é um dos itens em que o Brasil costuma ser mais bem avaliado no resto do mundo. Temos uma reputação de ser uma nação alegre, de pessoas simpáticas e amigáveis, e este estereótipo (positivo) pode ser afetado por manifestações semelhantes à insurreição liderada por Trump ao Capitólio.

A imagem internacional do Brasil já vem passando por uma degradação constante desde 2013, com piora acelerada a partir da chegada de Bolsonaro ao poder. O País nem aparece mais em muitos dos rankings de reputação global que contam os 30 países mais bem avaliados (quando costumava aparecer em torno da 20ª colocação em índices como o Nation Brands Index ou o Best Countries). A visível degradação da democracia sob Bolsonaro ameaça ainda mais esta percepção externa.

O lado positivo disso tudo é ver como se comportou a opinião pública global em relação aos Estados Unidos após o fim do governo Trump. Por mais que a imagem norte-americana tenha piorado bastante após a insurreição no Capitólio, ela já tinha caído durante toda a gestão do ex-presidente. O que se viu após a sua saída do governo, entretanto, foi uma melhora rápida e marcante da reputação estadunidense.

Seguindo este modelo, se o Brasil sobreviver como uma democracia às ameaças deste 7 de Setembro, aos meses seguintes, e se optar democraticamente por uma mudança no governo nas próximas eleições, pode ver sua imagem melhorar a índices mais positivos também de forma rápida.

Os artigos aqui publicados são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião da PB. A sua publicação tem como objetivo privilegiar a pluralidade de ideias acerca de assuntos relevantes da atualidade.

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