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Uma nova chance para o Brasil

Rubens Medrano
é vice-presidente da FecomercioSP e do Centro do Comércio do Estado de São Paulo (Cecomercio)
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Rubens Medrano
é vice-presidente da FecomercioSP e do Centro do Comércio do Estado de São Paulo (Cecomercio)

Dados da United Nations Conference on Trade and Development (UNCTAD) revelam que a participação do Brasil na corrente de comércio mundial ainda é tímida, flutuando em torno de 1,5% nos últimos 50 anos e revelando algumas distorções. O País tem a oitava maior economia do mundo, mas é apenas o 27º no ranking de maiores exportadores e o 28º no de maiores importadores, de acordo com a Organização Mundial do Comércio (OMC). Uma breve revisão histórica das transformações do comércio internacional ao longo das últimas décadas nos ajuda a entender este cenário.

Até o fim da década de 1980, os países em desenvolvimento, principalmente, utilizavam o modelo de substituição de importações e de escalada tarifária, que consiste no aumento das tarifas de importação conforme se avança no estágio de produção. Esta política protecionista provocava o chamado “adensamento das cadeias domésticas”, ou seja, o produto era inteiramente produzido dentro do País. Os avanços tecnológicos, principalmente nos setores de Tecnologia da Informação (TI) e de telecomunicações, permitiram o gerenciamento da produção a distância e reduziram os custos de transporte.

Como consequência, houve uma acelerada fragmentação internacional da produção ao longo da década de 1990, com grande parte dos países abandonando o modelo de escalada tarifária e reduzindo as tarifas sobre bens de capital e bens intermediários. Isso permitiu o surgimento das cadeias globais de valor. Para se ter uma ideia, em 2014, os produtos intermediários correspondiam a dois terços das exportações mundiais. UMA NOVA CHANCE PARA O BRASIL Deve-se reconhecer, também, os benefícios ocasionados pelos acordos estabelecidos no âmbito da OMC, que provocaram uma redução nas tarifas em todo o mundo, com destaque para os países desenvolvidos.

E como o Brasil se inseriu neste contexto? O Brasil foi no sentido contrário e seguiu adotando o modelo de escalada tarifária, protegendo todas as etapas da produção sob uma visão mercantilista de que exportar é bom e importar, ruim. Como bem avaliou o economista Edmar Bacha, o País passa por um processo de “crescimento empobrecedor” motivado por esta contradição: ao mesmo tempo que é aberto ao capital estrangeiro, é fechado em relação ao comércio, de modo que as multinacionais vêm para o Brasil para se beneficiarem de um mercado grande e protegido, e não para inserir as suas subsidiárias nas cadeias globais de produção.

Com a pandemia causada pelo coronavírus, uma nova chance surge para o País. Isso porque a imposição de medidas restritivas ao deslocamento de pessoas e ao funcionamento das atividades, para evitar o contágio da doença, provocou desabastecimento em alguns setores ao redor do mundo e evidenciou o elevado grau de concentração da cadeia mundial de produção na China.

No Brasil, por exemplo, a indústria eletroeletrônica relata falta de componentes importados. Neste cenário, é esperada uma desconcentração das cadeias de produção, de modo que cadeias locais e regionais surjam nos próximos anos – e o Brasil possa se beneficiar deste movimento. Entretanto, para que isso aconteça, o País precisa continuar avançando na agenda de reformas estruturais, de melhoria do ambiente de negócios e, principalmente, de abertura comercial. Para ser um grande exportador, um país também deve ser um grande importador. A integração às cadeias de produção proporcionará ao Brasil ganhos de produtividade e acesso à matéria-prima mais barata e de melhor qualidade, aumentando a competitividade de nossas exportações e beneficiando o mercado consumidor interno.

ESTE TEXTO FOI PUBLICADO NA EDIÇÃO ESPECIAL DA PB EM PARCERIA COM O CANAL UM BRASIL. AO LONGO DO MÊS DE JANEIRO, O CONTEÚDO COMPLETO DA REVISTA SERÁ OFERECIDO NO SITE DA PB.

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