Artigo

Uma nova e tensa relação com os EUA

Daniel Buarque
é pesquisador no programa  de doutorado em Relações Internacionais do Brazil Institute do King’s College London (KCL) e do IRI/USP. É jornalista, tem mestrado em Brazil in Global Perspective pelo KCL e é autor de “Brazil, um país do presente”. Escreve quinzenalmente, às terças-feiras, na PB.
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Daniel Buarque
é pesquisador no programa  de doutorado em Relações Internacionais do Brazil Institute do King’s College London (KCL) e do IRI/USP. É jornalista, tem mestrado em Brazil in Global Perspective pelo KCL e é autor de “Brazil, um país do presente”. Escreve quinzenalmente, às terças-feiras, na PB.

O democrata Joe Biden toma posse amanhã como novo presidente dos Estados Unidos, prometendo corrigir o rumo de uma série de crises que afetam o país, além de desfazer muito do controverso legado deixado pelos quatro anos de Donald Trump na presidência. A expectativa de analistas americanos é que Biden comece o governo com dezenas de ordens executivas e propostas de novas leis. Fala-se em ação rápida contra a pandemia e pela economia, medidas por uma volta ao Acordo de Paris e o fim da proibição de entrada nos Estados Unidos de cidadãos de países de maioria muçulmana, por exemplo.

Por mais que as medidas iniciais tenham um impacto mais direto na realidade dos próprios norte-americanos, muitas das mudanças na condução da política do país terão efeito também sobre os brasileiros. Após dois anos de relação mais próxima em virtude do alinhamento beirando à submissão do Brasil governado por Jair Bolsonaro ao governo de Trump, é de se esperar um esfriamento das relações entre os dois países. Pior do que isso, deve haver um aumento da pressão sobre o governo brasileiro em temas que vão do aquecimento global ao funcionamento da democracia.

Isso já era mencionado desde o início da campanha eleitoral e ficou mais claro na indicação, por Biden, de Juan Gonzalez para ser o diretor sênior para o hemisfério ocidental no Conselho de Segurança Nacional do novo presidente. Gonzalez será o responsável por assuntos ligados à América Latina. Antes disso, ele havia ganhado destaque por ser crítico do governo Bolsonaro. Antes da eleição, por exemplo, ele indicou que o aquecimento global estaria no topo da agenda internacional de Biden – e mencionou o Brasil especificamente.

Em outra ocasião, Gonzalez deixou claro o posicionamento crítico, mencionando o País e indicando que quem quiser promover um relacionamento ambicioso com os Estados Unidos não poderá ignorar questões importantes, como mudança climática, democracia e direitos humanos.

Além do que se vê como sinais problemáticos para o Brasil nas mudanças internas da política dos Estados Unidos, o próprio comportamento do governo brasileiro deve pesar sobre a nova e tensa relação.

Bolsonaro foi um dos últimos líderes estrangeiros a reconhecer a vitória de Biden nas eleições norte-americanas e continua propagando notícias falsas sobre fraudes contra Trump. A postura se tornou ainda mais problemática após a insurreição de apoiadores trumpistas que invadiram de forma violenta o Capitólio. Enquanto o mundo reagia preocupado com a saúde da democracia daquele país, Bolsonaro e o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, assumiram, mais uma vez, a defesa de Trump e dos seus aliados, propagando notícias falsas e repetindo a alegação de fraude nas eleições.

Com declarações assim, é difícil imaginar que o novo governo de Biden tenha qualquer tipo de simpatia por um governo estrangeiro que se colocou tão claramente contra o processo legítimo de transição de poder nos Estados Unidos. Assim como é difícil imaginar que esse país possa ter qualquer papel em apoio a uma tentativa de insurreição no Brasil após as eleições de 2022, como ameaçado por Bolsonaro após o caso norte-americano.

A história das relações entre as duas nações mostra que há uma importante parceria ao longo do tempo, mas que é frequente uma oscilação entre mais proximidade e distanciamento. Ter uma relação mais fria com o governo estadunidense não precisaria ser um problema para o Brasil, que tem interesses em diferentes partes do mundo. Entretanto, mais uma vez, as ações da diplomacia sob Bolsonaro fazem com que o caso atual seja diferente (e mais difícil) para o País.

Desde 2018, os Estados Unidos se tornaram prioridade nacional, com alinhamento às ideias de Trump e criação de problemas nas relações com outros importantes parceiros, como China, União Europeia e até Argentina. A nova e tensa relação se consolida enquanto o País não tem outras alternativas concretas de parcerias globais importantes. O Brasil de Bolsonaro perde o principal aliado no mundo, passa a sofrer pressões do novo governo norte-americano e se isola ainda mais nas relações internacionais.

Os artigos aqui publicados são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião da PB. A sua publicação tem como objetivo privilegiar a pluralidade de ideias acerca de assuntos relevantes da atualidade.

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