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Virá golpe com fraude nas urnas como desculpa?

Helga Almeida
é doutora em Ciência Política pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e professora da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf). Integra o grupo de especialistas que escrevem às quartas-feiras na coluna Ciência Política da PB.
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Helga Almeida
é doutora em Ciência Política pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e professora da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf). Integra o grupo de especialistas que escrevem às quartas-feiras na coluna Ciência Política da PB.

Dia 1º de julho de 2021: o presidente começa sua tradicional livede quinta-feira no Facebook. Mais uma vez, o começo é com música – tem sido assim há algum tempo. Um violeiro entra no enquadramento da câmera, chapéu de vaqueiro com bandeira do Brasil, camisa xadrez, negro, simples, a cara do Brasil. O presidente não o cumprimenta, só pergunta: “Qual é o seu nome de guerra?”. O violeiro responde baixinho, meio tímido, e o presidente não entende. Entretanto, isso não importa ao último. O presidente já emenda com a ordem “Começa a primeira! Toca a primeira aí”. O violeiro hesita, está um pouco desconfortável. E o presidente repete: “Toca aquela primeira que nós combinamos lá fora. Vai! Vai!”. O violeiro apresenta a sua canção, que se chama “Palavras do presidente”. Bolsonaro corta o homem, diz o dia e o horário da live, apresenta as pessoas ao redor, mas não o violeiro. Sobre este, diz: “Tem aqui um cantor que foi pego aqui fora, do cercadinho, nem sei quem este ‘cabra’ é. Ele quer cantar dois minutos”. O violeiro responde ansioso: “É para cantar?”. E o presidente: “Vai, vai!”. O violeiro começa a canção. Ainda na primeira estrofe da música, “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos…”, o presidente, os convidados e todo o estúdio caem numa gargalhada debochada.

Assim a live foi iniciada – e este nem seria o pior momento. O assunto “polêmico”, escolhido pelo presidente, é o que ele tem chamado de “voto auditável”. Bolsonaro narra que três ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) não querem o voto impresso e que estariam convencendo as lideranças partidárias do Congresso a pensar o mesmo. Continua a falar, assegurando que o STF diz que as urnas são confiáveis e que ele, o presidente, não tem prova de fraudes, mas que o Supremo, por sua vez, também não teria provas de que não haveria fraude e que assim, portanto, a questão estaria “empatada”. Aqui, ele dá um “duplo twist carpado” na lógica – digno das “Olimpíadas da Psicodelia Argumentativa” que vem se sagrando campeão – e define que quem é acusado tem de provar que não é culpado.

Para arrematar, incorpora o espírito da criança birrenta dona da bola quando está farejando uma possível derrota do seu time da quinta série “B” e ameaça: “Eu entrego a faixa presidencial para qualquer um que ganhar de mim na urna de forma limpa. Na fraude, não”.

Não é de hoje que o presidente faz alarde sobre supostas fraudes em urnas eletrônicas. Desde a campanha eleitoral de 2018, questionava recorrentemente o funcionamento das máquinas. A coisa foi aumentando o tom logo depois do primeiro turno daquele mesmo ano, no momento que ele gravou um vídeo dizendo haver a “possibilidade concreta” de perder as eleições para Fernando Haddad, seu rival, por fraude nas urnas. Então, ganhou aquelas eleições e, de repente, não mais que de repente, toda aquela certeza falaciosa acerca da “grande conspiração que estaria fraudando urnas” acabou.

Até que, em 2020, a narrativa esdrúxula é colocada de novo em campo, mas, agora, com outra roupagem: o presidente começa a dizer aos quatro ventos que poderia ter vencido as eleições de 2018 no primeiro turno se não tivesse ocorrido fraude nas urnas. Neste ponto, a primeira pergunta que qualquer observador mais atento seria: “Mas por que alguém fraudaria o primeiro turno e não fraudaria o segundo, fazendo, assim, todos os seus esforços de ‘grande fraudador’ irem por água abaixo e deixando outro ganhar?”.

Enfim, lógica não é o forte quando o argumento é baseado em desinformação…

O que é fácil perceber é que, quanto mais as eleições de 2022 se aproximam, quanto mais seus possíveis adversários avançam nas pesquisas, quanto mais sua popularidade cai, mais o argumento da fraude nas urnas é apontado pelo presidente e mais o tal do “voto impresso” entra no jogo.

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) tem dado respostas e tentado informar sobre a confiabilidade de nosso processo eleitoral. Contudo, nenhum argumento tem sido suficiente para fazer com que esta sandice pare. Nem com o TSE esclarecendo que há mais de 30 camadas de segurança que protegem os sistemas da urna de tentativas de invasão; nem com o mesmo TSE apresentando como são feitas as auditorias nas urnas; nem com observadores internacionais e autoridades nacionais afirmando que nunca houve confirmação de fraude em urnas nos 25 anos em que são usadas; nem com o presidente do TSE, Luís Roberto Barroso, afirmando que o risco maior está no voto impresso – já que este, sim, ofereceria perigo de violação do sigilo, vez que, ao imprimir o voto, estaria ali expressa a combinação dos candidatos em que o eleitor votou, o que poderia servir para identificá-lo, assim como era feito nos idos tempos que o voto de cabresto era comum no País.

A mais recente cartada do TSE para responder às acusações infundadas do presidente foi por meio do corregedor-geral da Justiça Eleitoral. Em 21 de junho, este último deu 15 dias para que o presidente apresentasse as provas sobre a suposta fraude no sistema eletrônico de votação nas eleições de 2018. E nem precisava ter bola de cristal para saber o que aconteceria, não é mesmo?! O presidente não apresentou absolutamente nada, nothing, niente.

Apesar disso, a narrativa da possível fraude continua. Assim, vai se introduzindo um cenário de desconfiança em relação às instituições democráticas, às eleições e às urnas eletrônicas na população. E por que isso? Qual seria o interesse neste argumento? Simples, de pouquinho em pouquinho vai se construindo na sociedade uma “justificativa” para dar legitimidade a um possível arroubo golpista do menino da quinta série “B” dono da bola, que tem chances de perder o jogo jogado no campo democrático.

Será que teremos em 2022 uma tentativa de ruptura à la Trump no Capitólio?

A ver. Oxalá já tenhamos superado nossa fase de “Republiqueta das Bananas”.

Os artigos aqui publicados são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião da PB. A sua publicação tem como objetivo privilegiar a pluralidade de ideias acerca de assuntos relevantes da atualidade.

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