Zé Celso e o Teatro Oficina

01 de dezembro de 2023

A última cena do mais irreverente ator, diretor, dramaturgo e encenador do teatro brasileiro foi de assombrar a plateia à semelhança de montagens antológicas, subversivas e escandalosas. Zé Celso, como um xamã envolto em chamas, morreu aos 86 anos no dia 6 de julho deste ano, em decorrência de um incêndio no apartamento onde vivia, no Paraíso, em São Paulo.

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“Não há morte que o morra”, proclamou o xará compositor e ensaísta José Wisnik, sintetizando o sentimento do público presente às despedidas no Oficina, o mesmo que ele plantou há mais de 60 anos no solo fértil do Bixiga, o mais artístico dos bairros paulistanos. A bandeira da Vai-Vai sobre o caixão deu o tom do velório embalado por música e dança, comidas e bebidas, saudando a “transmutação” de uma vida “que marcou a história das artes no Brasil e não será esquecida”, de acordo com a mensagem divulgada pelo presidente Lula.   

Quando começou a fazer teatro, o nome foi reduzido a Zé Celso. De nacionalidades brasileira, espanhola, italiana, portuguesa e indígena (como afirmava), nasceu no dia 30 de março de 1937, em Araraquara (SP) e cresceu em meio ao ambiente repressivo de uma família que tinha como meta torná-lo padre.

A via de fuga encontrada foi cursar a Faculdade de Direito de São Paulo, no Largo de São Francisco, onde se associou a Renato Borghi e outros futuros atores com quem fundaria o Teatro Oficina, que tinha como símbolo uma bigorna. Reconfigurando o espetáculo mítico, dependente de dom ou vocação, o grupo surgia para revolucionar a cena teatral brasileira na forma e no conteúdo, ao adicionar o componente político dissolvente da fronteira entre vida  arte.

Os destinos de Zé Celso e do Oficina se entrelaçam desde a primeira montagem de Vento forte para um papagaio subir, texto inaugural de sua autoria, encenado em 1958 num imóvel alugado na Rua Jaceguai, mesmo endereço que, décadas depois, abrigaria a famosa ousadia arquitetônica da ítalo-brasileira Lina Bo Bardi. A estreia na direção veio com A vida impressa em dólar, de Clifford Odets, montagem que lhe rendeu o prêmio de revelação como diretor pela APCA. A presença no elenco do ator de origem russa Eugênio Kusnet, profundo conhecedor do método Stanislavski, seria fundamental para o salto seguinte do Oficina: em 1962, a equipe encena Pequenos burgueses, de Máximo Gorki, peça que realça uma Rússia às vésperas da revolução e evidencia pontos de contato com a realidade anterior ao golpe militar. Ao fim de cada apresentação, tocava-se o hino socialista A Internacional.

Suspensa em abril de 1964 por ordem dos que acabavam de tomar o poder, a produção garantiu a Zé Celso todos os prêmios de melhor direção e críticas — como a do teatrólogo Sábato Magaldi: “A montagem do Teatro Oficina revela, no conjunto, o grau de perfeição realista que o método de  Stanislavski proporciona no preparo de ator”. Em 1966, um incêndio consome o teatro-sanduíche que até então fora o Oficina, com duas plateias de madeira frente a frente separadas pelo palco central, projeto do arquiteto Joaquim Guedes. Das cinzas, como fênix, o grupo renasce com a criação que projeta o seu nome pelo Brasil e pelo mundo: O rei da vela, de Oswald de Andrade, espetáculo-manifesto tornado emblema do movimento tropicalista. Magaldi, em crítica da época reproduzida no livro Amor ao teatro (Edições Sesc), resume o impacto causado pelo texto escrito em 1933 pelo escritor modernista, empenhado em flagrar a exploração capitalista, desde as transações de crédito pessoal até as imposições imperialistas aos países dependentes. “O diretor José Celso Martinez Corrêa manipulou a admirável peça de Oswald de Andrade com uma volúpia criadora irresistível e devolveu à plateia, como num espelho, a ‘chacriníssima’ imagem do País”, pontua o crítico, para acrescentar: “A generosa iniciativa do Oficina é um momento importante do teatro brasileiro, uma tomada de consciência em nível elevadíssimo e um desafio à capacidade de raciocínio do espectador”.

Ao longo da carreira, expandiu-se não só nos palcos, mas na espiritualidade e no engajamento político, características imortalizadas, assim como o talento de quem entendeu o valor da arte no seu significado mais genuíno.

Em 1968, o sucesso estrondoso de A vida de Galileu, de Brecht, completa o apogeu do Oficina antes que a tenebrosa noite do AI-5 caísse sobre o País. O grupo submerge e passa a viajar pelo interior. Após três semanas de prisão, em 1974, Zé Celso parte para o exílio em Portugal. Nos anos de 1980, o seu retorno é marcado pela mudança de eixo. O encenador dá lugar ao coletivo teatral, introduzindo alternativas de criação colaborativa que se tornarão predominantes. Rebatizado de Oficina Uzyna Uzona, o grupo emplaca dois espetáculos ousados: As bacantes, texto ancestral do teatro grego, e Cacilda!, sobre a grande Cacilda Becker. Empenhado agora no que chama de “cosmopolítica”, cujo conceito-base seria a “reexistência”, Zé Celso inicia o combate ao Grupo Silvio Santos, que adquire terrenos vizinhos ao teatro, tombado como referência cultural pelas instâncias federal, estadual e municipal.

O seu trunfo será o prédio projetado por Lina Bo Bardi nos anos de 1990, que aproxima a rua do espaço cênico, criando um efeito considerado único no mundo pelo jornal The Guardian. Uma característica que se perderia se o “Homem do Baú” tivesse obtido êxito no plano de construir, no terreno ao lado, torres com mais de 20 andares cada uma. É nesse contexto que, já no século 21, o diretor transpõe para o palco a saga de Os sertões, de Euclides da Cunha, em ciclo grandioso de cinco espetáculos, com cinco horas de duração cada um. A luta dos sertanejos contra o exército republicano se funde com a defesa do território urbano ameaçado pela especulação imobiliária.           

A morte do líder não abalou, nos integrantes do Oficina, o propósito de criar na área em disputa o Parque do Rio Bixiga, um espaço público com árvores e córrego a céu aberto em plena região central de São Paulo. Um sonho em consonância com o projeto que Zé Celso não teve tempo de concluir: a encenação de A queda do céu, testemunho do escritor ianomâmi Davi Kopenawa.

Herbert Carvalho Karime Xavier/Folhapress
Herbert Carvalho Karime Xavier/Folhapress
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