Desafios de ensinar a ler o mundo

28 de setembro de 2020

Em 1920, 64,9% dos brasileiros, com 15 anos ou mais, não sabiam ler nem escrever. Em 2018, esse total despencou para 6,8%, segundo levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Apesar dos números expressivos, pouco se conquistou.

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Segundo o estudo Indicador de Analfabetismo Funcional (Inaf), divulgado em 2018 pelo Instituto Paulo Montenegro e pela Organização Não Governamental (ONG) Ação Educativa – com contribuição da Rede Conhecimento Social e parceria com o Ibope Inteligência – 30% dos brasileiros, com idade entre 15 e 64 anos, são analfabetos funcionais, ou seja, leem frases simples, conhecem números e assinam o nome, mas não conseguem entender uma receita de bolo ou a bula de um remédio, tampouco calcular o valor de prestações sem juros. Na prática, a falta dessas habilidades compromete a autonomia e o exercício da cidadania crítica.

Já em 2018, o Inaf apontava que o combate ao analfabetismo funcional não avançava há nove anos e que o indicador estacionara na faixa de 30% da população há quatro anos.

A Avaliação Nacional de Alfabetização (ANA) revelou que 54,73% dos estudantes acima de oito anos de idade (90% dos 2,2 milhões avaliados) do terceiro ano do ensino fundamental têm níveis insuficientes de leitura, 33,95% deixam a desejar em habilidades de escrita e 54,4% não alcançam desempenho satisfatório em matemática. Esses dados são de 2016.

O cenário do analfabetismo funcional é preocupante, analisa Thaiane Pereira, coordenadora de projetos da ONG Todos Pela Educação. “Sabendo-se que o processo de alfabetização é contínuo, quando a criança não aprende o básico em seus primeiros anos, não vai aprender o restante mais adiante”, analisa ela, que já atuou como consultora no Ministério da Educação e nas secretarias de Educação de São Paulo e do Mato Grosso.

Thaiane afirma que, para reverter essa situação, é preciso adotar estratégias que passem pela colaboração entre Estados e municípios, já que a educação básica está a cargo destes entes federativos, conforme a Constituição.

“É necessário realizar o planejamento para garantir que haja recursos e que os programas de educação sejam viáveis”, diz Thaiane. Ela acrescenta a necessidade de fortalecer as ações pedagógicas, como a formação contínua dos professores e o acompanhamento das atividades em sala, além do fornecimento de material pedagógico adequado. Na parceria entre Estado e município, a especialista sugere medidas como o direcionamento privilegiado do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) para cidades com melhor desempenho escolar, garantindo instalações adequadas, transporte e merenda para os alunos.

“Sabendo-se que o processo de alfabetização é contínuo, quando a criança não aprende o básico em seus primeiros anos, não vai aprender o restante mais adiante.” Thaiane Pereira, coordenadora de projetos da ONG Todos Pela Educação

Estrela solitária

No desolador cenário da alfabetização nacional, destaca-se o município cearense de Sobral, por bons motivos. Entre 2007 e 2017, o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) da cidade subiu 86%. A nota dos alunos dos anos iniciais do ensino fundamental saltou de 4,9 para 9,1. É a mais alta de todas as cidades do País. Ganha, inclusive, da média das escolas particulares de São Paulo. Nos anos finais do ensino fundamental, o padrão sobralense se mantém elevado, com nota média de 7,2. Em 2018, o Ideb da rede pública local foi de 8,8, contra 5,3 da média nacional.

Segundo os analistas, o sucesso do município – que tem pouco mais de 200 mil habitantes (IBGE, 2019) – é multifatorial e inclui decisões como priorizar a alfabetização na idade certa, preparar os  professores para utilizar da melhor forma o material didático, bônus financeiro para docentes e escolas com bom desempenho, além de dar liberdade para os diretores escolherem como alcançar as metas, que precisam ser claras e mensuráveis.

Entre as iniciativas consensuais, está a qualificação dos professores. Lá, os docentes se reúnem mensalmente na Escola de Formação Estratégica do Professor para discutir experiências e atualizar conhecimentos.

Érica Xavier Guimarães Turcato é alfabetizadora em Sobral. Ela iniciou a carreira há 18 anos, quando o município adotou o Programa de Alfabetização na Idade Certa (Paic), que tem como meta alfabetizar todas as crianças até sete anos de idade (a meta nacional é oito anos). “Todo mês, saíamos da sala de aula para o dia de formação (de professores), com troca de experiências”, conta.

O Paic foi se aperfeiçoando em avaliações mensais das escolas (junho e novembro) e dos professores (bimestral). Com o tempo, verificou-se que o método metafônico funciona melhor – e, há dez anos, todas as escolas do município o adotam. Esse método foca em educar, primeiro, o ouvido para os sons e, depois, ensinar os fonemas.

Muitos alunos de Érica hoje estão na faculdade, alguns no exterior. Ela acredita que o trabalho de alfabetização começa no primeiro ano e se consolida nas segunda e terceira séries, quando as crianças já adquiriram habilidade de leitura fluente com capacidade para escrever minitextos.

Docente há dez anos, Samyla Nascimento de Souza se dedica a alfabetizar há cinco. “O ensino das primeiras letras é repetitivo e, por isso, deve-se dinamizar as aulas com atividades mais lúdicas. O processo começa com a apresentação do som das letras e a formação das palavras. Depois, vem o ditado, para desenvolver a escrita.”

Entre as brincadeiras, uma das campeãs (de uso) é a “chuva de leitura”, na qual papéis com palavras escritas, para que as crianças as leiam, são colocados em um guarda-chuva. Outra frequente é a tradicional corrida de saco, em que o vencedor lê uma palavra. “Temos atividades todo dia para não cansar as crianças”, diz Samyla. Só em fase posterior, os alunos têm leituras individuais com o professor.

Ela conta que é oferecido acompanhamento individual – com professor, coordenador e/ou psicólogo – para crianças com  dificuldade de aprendizagem, em horários diferentes das aulas.

Fatores do aprendizado

O processo de aprendizado é complexo, envolvendo fatores culturais, sociais, neurobiológicos, genéticos e, ainda, uma série de aspectos particulares locais, dada a heterogeneidade de métodos pedagógicos, explica o neuropediatra Clay Brites. Ele diz que é necessário considerar todos esses aspectos ao se buscar a causa para as dificuldades de aprendizagem, que vão resultar em uma alfabetização incompleta.

Brites observa que as áreas do cérebro que atuam na leitura estão em formação nos cinco primeiros anos de vida, sendo nesta fase que as crianças desenvolvem habilidades de linguagem, como o reconhecimento fonético e a articulação, essenciais para a alfabetização mais adiante. Um problema nessa fase pode gerar atrasos cognitivos.

Há ainda fatores genéticos que podem influir, como a dislexia, transtorno caracterizado pela dificuldade de leitura que ocorre em pessoas com inteligência normal, discalculia, que se traduz pela dificuldade em matemática ou TDAH [transtorno de déficit de atenção e hiperatividade].

Contudo, o que prejudica uma grande parte das crianças brasileiras em sua alfabetização é a inadequação pedagógica, afirma o neuropediatra. “Ensina-se a ler como se a criança fosse uma máquina de impressão para reproduzir o que está escrito, e não para processar o conteúdo.”

“Temos um modelo de aula muito centrado na oratória, sem se relacionar com o texto. Os alunos não veem como vão usar o conhecimento, apresentado em sala, em suas vidas.” Janaína Barros, ganhadora do prêmio Educador Nota 10 em 2013

Caminho para a liberdade

Janaína Barros é educadora há cerca de 20 anos. Começou lecionando em comunidade quilombola no município baiano de Seabra. Foi ali que um momento marcou profundamente seu trabalho com alfabetização. Em uma reunião de pais e mestres, um líder da comunidade perguntou por que seus filhos ficavam nove anos na escola e, quando saíam, não eram capazes de escrever a única coisa que os libertaria: uma carta endereçada aos órgãos competentes para requerer a condição de quilombolas, o que lhes garantiria direitos específicos. “Por isso, para mim, a alfabetização nada mais é do que um caminho para a liberdade”, diz Janaína.

Ganhadora do prêmio Educador Nota 10, da Fundação Victor Civita, em 2013, ela representou o Brasil no encontro da Rede Latino-Americana pela Educação (Reduca). “A escola precisa escutar mais os alunos e prestar atenção em suas necessidades. Ao ver como o outro aprende, como ele constrói a própria aprendizagem, aprendemos mais”, diz, ao relembrar a experiência que vivenciou ao coordenar o Plano de Apoio Pedagógico (PAP) de Seabra, em 2011, que fez a taxa de reprovação despencar de 40% para 3%.

Na ocasião, Janaína levou os professores a refletir sobre o que os alunos escreviam nos trabalhos, nos cadernos, nas paredes das salas, nas carteiras e até nos banheiros. Este material contava o que eles pensavam sobre os diferentes aspectos da escola, ajudando os professores a entender o que era importante para eles e, assim, motivá-los.

“A escola de hoje tem dificuldade de reconhecer o que acontece fora de seus muros e trazer situações reais para a sala de aula. O resultado é que não há motivação, nem para alunos, nem para professores.”

A educadora também critica a falta de conexão entre a atuação do professor, o material pedagógico e a avaliação. “Temos um modelo de aula centrado na oratória, sem se relacionar com o texto. Os alunos não veem como vão usar o conhecimento, apresentado em sala, em suas vidas. Isso desmotiva alunos e professores, sendo assim, o processo de alfabetização não avança da forma como deveria.” Janaína acredita que é preciso organizar a escola de modo que esta acolha as experiências dos alunos. Em vez de fazer apenas a leitura dos textos didáticos, por exemplo, por que não fazer com que os alunos escrevam sobre as suas vidas e os seus sonhos?

Silvia Kochen Paula Seco
Silvia Kochen Paula Seco
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