Inovação em escala

31 de março de 2022

Um Brasil mais diverso foi a temática da EuroLeads 2021, maior conferência para estudantes brasileiros na Europa realizada em Paris em novembro do ano passado. Promovido pela Brasa, rede de alunos espalhados pela América do Norte, Europa e Ásia, o evento teve palestras e workshops que buscaram conectar os próximos líderes do País.

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Em pauta, debates sobre tecnologia, política, economia, educação, inclusão, diversidade, entre outros assuntos da atualidade. A PB e o Canal UM BRASIL produziram uma série de entrevistas com os palestrantes convidados. Destacamos, aqui, os depoimentos de alguns destes líderes.

Despertar leitores

Danielle Brants foi reconhecida pelo MIT Tech Review como “Innovator under 35″ e pela Folha de São Paulo com o “Prêmio Empreendedor Social do Ano em resposta à COVID-19”. É cofundadora da Árvore Educação, edtech que democratiza a leitura por meio de um aplicativo que oferece um acervo de 30 mil livros e publicações a escolas públicas e privadas. Atualmente atende 3.500 unidades escolares atingindo cerca de 2 milhões de estudantes   

“A educação tem problemas em diversas dimensões. Quando falamos de levar uma ferramenta digital para as escolas, partimos da premissa que precisamos da conectividade que implica o jovem ter um dispositivo e acesso à internet. Em um país com tanta desigualdade como o Brasil, foi um empecilho superar o problema do acesso. Com inovação e parceria com secretarias de educação, conseguimos levar mais de 30 mil livros a comunidades ribeirinhas no Amazonas, por exemplo. Ao acessar a internet disponível na escola, o aluno baixa o livro e lê em casa sem precisar ter a conexão, sem gastar o próprio pacote de dados.

No ranking do Pisa [Programa Internacional de Avaliação de Estudantes] de 2018, entre 72 países, o Brasil está em 59 colocado em leitura.  Sem o ferramental básico da leitura, como as pessoas vão interpretar um texto? Como vão distinguir um fato de uma opinião? Como vão identificar fake news, como usar e demandar os seus direitos de cidadãos? Então queremos impactar os alunos brasileiros em escala. Quando começamos, há oito anos, a tecnologia estava em outro momento, as funcionalidades de um smartphone eram diferentes, muita coisa mudou. Temos uma equipe técnica constantemente refazendo e reconstruindo os produtos para evoluir os códigos que usamos. Nesse sentido estamos tentando utilizar mais a Inteligência Artificial (IA) para aumentar o engajamento dos jovens, trazendo título personalizados que aluno goste possa e superar desafios para a sua evolução.

A tecnologia também nos ajuda a dar mais apoio ao professor, que é um protagonista importante nesse processo. Auxiliamos os 80 mil professores atendidos a potencializar o seu trabalho. Nosso aplicativo tem camadas destinadas à sua capacitação e formação. Eu acredito muito nas instituições de ensino. A tecnologia está ajudando a escola a se transformar. Além do trabalho conjunto com as secretarias de educação, temos parceria com cerca de 500 editoras, remuneradas de acordo com a audiência dos livros. Com o aplicativo, levamos uma biblioteca à palma da mão dos alunos e em todas as regiões do Brasil. A nossa missão é fomentar uma nova geração de leitores para o País.”

“Quando falamos de levar uma ferramenta digital para as escolas, partimos da premissa que precisamos da conectividade que implica o jovem ter um dispositivo e acesso à internet. Em um país com tanta desigualdade como o Brasil, foi um empecilho superar o problema do acesso.” Danielle Brants, cofundadora da edtech Árvore Educação

Aprender rindo

Higor Cerqueira, criador do Vestibular da Depressão, portal de humor e informação com alcance de 15 milhões de vestibulandos por semana. Atualmente gerencia o perfil @estudeemportugal com orientações sobre universidades lusitanas

“Eu compartilhava o meu dia a dia, com “memes” para o estudante não entrar em depressão em época de vestibular. Foi uma necessidade que tinha de divulgar as minhas situações com as pessoas que passavam pela mesma experiência. Nosso objetivo era trazer conforto às pessoas, mostrando que elas não estavam sozinhas. Os comentários que eu comecei a receber era que a página parecia um oásis. Após longas horas de estudo, o aluno acessava para descontrair, com piadas e assuntos que ele deveria saber. Começamos a observar que havia muito apoio [à ideia].

Então comecei a movimentar soluções para atender a estas pessoas e me conectei com muitos professores de todo o Brasil. A partir disso, demos início à divulgação de conteúdos animados, alegres, que traziam informações para quem estava passando por aquele período. Depois passamos a fazer grandes ações, com aulas presenciais, gratuitas, em shoppings de todo Brasil, e trouxemos os professores para o projeto, com o objetivo de ensinar de uma forma diferente, descontraída. Foi assim que começamos a lotar salas de cinema e praças de alimentação, atingindo cada vez mais pessoas. Esta ação mostrou nossa força no presencial, mas não deixamos de fazer conexões on-line. Muitas atividades que desenvolvemos vieram do meu olhar para as necessidades que as pessoas tinham e como poderíamos trazer uma solução para elas.”

Tecnologia para salvar vidas

Mariane Melo é uma das personalidades influentes da Forbes Under 30 de 2021. É chief medical officer da DemDex, healthtech inglesa que ajuda profissionais de saúde na tomada de decisões clínicas

“A pandemia transformou a forma como a população enxerga a saúde. Provavelmente, este processo aconteceria com o tempo, mas, nestes últimos dois anos, foi muito acelerado e mudou completamente como o paciente se relaciona com a área da saúde. Na Inglaterra, agora, a maioria das consultas é feita de forma remota, por meio de diversos tipos de tecnologia e plataformas para filtrar os clientes – até porque existe uma lista de 13 milhões de pessoas esperando por um atendimento médico [em novembro de 2021]. Então, acelerou-se a adoção de tecnologias para que os profissionais de saúde aceitassem experimentar novos recursos. A resistência, que antes atrasava a área pelo conservadorismo dos profissionais, foi superada para dar lugar à inovação.

A Inglaterra tem o objetivo de ser o líder de Inteligência Artificial na saúde e tem um apoio forte do governo. O resultado é a evolução constante, pois as pessoas enxergam que a tecnologia está facilitando o acesso, de empresas privadas, a dados de pacientes de forma facilitada e bem mais segura. Com este novo cenário, há uma busca pela tecnologia, ao contrário de antigamente, quando era necessário bater de porta em porta para oferecer o nosso serviço. Agora, existe um incentivo dos próprios pacientes na adaptação de novos recursos. Então, está sendo muito mais fácil conversar e falar do projeto. Com isso, vimos o aumento da autonomia das enfermeiras, que solicitam mais exames do que antes, diminuímos o tempo de espera do paciente em 10%, e o tempo para tratamento em 30%.

Entretanto, mesmo com todos estes avanços na Europa e em outros países do mundo, no Brasil, a realidade é um pouco diferente. A primeira barreira encontrada no Sistema Único de Saúde (SUS) é a tecnológica: a digitalização dos protocolos médicos, por meio de um sistema facilitador que possa fazer a ponte de comunicação de um hospital ao outro para unificar os dados do paciente, independentemente do local de tratamento. Acredito que estamos avançando, mas temos um caminho longo pela frente, pois existe a falta de estrutura básica em muitos lugares, além da barreira cultural.”

“A primeira barreira encontrada no Sistema Único de Saúde (SUS) é a tecnológica: a digitalização dos protocolos médicos, por meio de um sistema facilitador que possa fazer a ponte de comunicação de um hospital ao outro para unificar os dados do paciente, independentemente do local de tratamento.” Mariane Melo, chief medical officer da healthtech DemDex

Produtividade nas indústrias

Igor Marinelli, fundador da TRACTIAN, startup de manutenção industrial preventiva

“Manutenção preventiva nada mais é do que você antecipar uma falha que possa acontecer no seu maquinário. As indústrias separam o software do hardware, pois são coisas diferentes. A TRACTIAN é uma das startups que mais crescem no ramo empresarial do Brasil, e isso se dá por meio do conceito de que não devemos separar estes dois sistemas. Começamos a trabalhar com empresas de todos os portes, justamente antecipando falhas que possam acontecer no maquinário. Foi surpreendente o nosso crescimento durante a pandemia. Fomos procurados por muitas empresas. Os técnicos, que não podiam mais acessar as plantas pessoalmente, demandavam uma tecnologia que permitisse conectar-se às máquinas a distância. As indústrias procuram nossos serviços porque somos o único servidor que consegue oferece esse acesso ao maquinário de forma remota.

No Brasil, existem mais de 50 mil fábricas. As indústrias de pequeno e médio portes são responsáveis por movimentar o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil, então a nossa missão é educar. As grandes também nos procuram, mas, em geral, treinamos e capacitamos as menores. Hoje, temos mais de 5 mil certificados de técnicos formados. A tecnologia é adaptável a qualquer tipo de planta industrial. Temos a responsabilidade e o desejo de devolver conhecimento à comunidade. Por isso, criamos conteúdos e cursos para disseminar informação. Queremos que técnicos e profissionais se tornem independentes.”

Ensino profissionalizante rompe fronteiras

Camila Achutti lançou em 2010 o blog “Mulheres na Computação”, que fala da relação entre mulheres e computação. É CEO da Mastertech, escola de educação em tecnologia e transformação digital. Atende profissionais em geral, empresas, governos e terceiro setor

“Hoje, no Brasil, valorizamos muito o diploma. Como consequência, esvaziamos o ensino técnico e sua mão de obra profissionalizante. Entretanto, acredito que as áreas de Programação e Tecnologia estejam fazendo um bom serviço neste sentido, uma vez que há uma demanda altíssima por profissionais dessas áreas. Antes da universidade, precisamos resgatar a educação profissionalizante como alternativa.

A falta de incentivo leva a uma alternativa: os serviços por aplicativo, que mostram que ganhar dinheiro é mais importante do que as educações profissional e tecnológica, por exemplo. Deveríamos investir em educação técnica, não só a formal, mas a informal também.  A primeira versão de modelo de negócio da Mastertech, como escola, é justamente este modelo, uma alternativa mais “enxuta” para adquirir uma nova profissão.

Precisamos, também, dar espaço às mulheres neste mercado de trabalho, porque ainda existe muito o estereótipo do profissional da matemática, da física e das ciências exatas na figura masculina. Então, não desmotivar a entrada feminina no mercado já é um bom caminho, porque as meninas estão cada vez mais conscientes dos seus papéis econômico e social. Óbvio que precisamos melhorar, mas acho que já avançamos muito. Agora, elas precisam se reconhecer como criadoras, cientistas e programadoras. E precisamos levar esta oportunidade a elas.

O fato é que não podemos achar que só a Inteligência Artificial pode ajudar na inclusão. Contratando sempre as mesmas pessoas e fazendo tudo do mesmo jeito, enxergamos a estagnação diante de uma sociedade mais avançada e exigente, daí a necessidade de se promover a inovação. Então, acredito que estamos avançando mais na diversidade e ajustando a dosagem de talento.”

“Estamos na era do Low Touch Economy, ou a ‘Era da Economia de Baixo Contato’, mas nada substitui as relações humanas. O varejo não vai morrer, mas evoluir. Então, o que podemos extrair disso tudo é que este processo leva mais comodidade, conveniência e eficiência aos clientes.” Camila Farani, empreendedora, investidora e educadora

Investimento e risco

Camila Farani é empreendedora, investidora e educadora. Foi eleita uma das 500 pessoas mais influentes da América Latina segundo lista da Bloomberg Línea 2021. É presidente da G2 Capital e Investment Partner e uma das maiores investidoras anjo do Brasil. Investe há seis anos no Shark Tank, o maior reality de empreendedorismo do mundo, é membro do conselho do PicPay e da startup Laura, e sócia do Banco Modal

“O risco é inerente ao investirmos em uma startup, assim como é inerente ao abrir um negócio. Um exemplo disso é a pandemia. Fora isso, existem diversas outras questões – como má gestão e falta de planejamento – quando se abre um negócio e quando se investe. No fim, o investidor-anjo não está vivendo o dia a dia da empresa. Por ser nascente, o empreendimento aglomera todos os riscos de não dar certo, principalmente nos dois e três primeiros anos, então, o risco é óbvio.

O mercado de investimento-anjo segue um movimento anticíclico. Isso quer dizer que não acompanha a evolução do PIB de um país. Quando investimos, queremos um caixa de longo prazo. É óbvio que vários setores foram crucificados com a crise sanitária, mas há recuperação. Eu, como investidora numa empresa de risco, tenho de olhar o cenário macroeconômico, então, faço investimento de longo prazo. Resistir à frustração ajuda a superar períodos de crise – afinal de contas, eles são cíclicos.

Se o empreendedor é ‘de raiz’, ciente de que sempre vai passar por estes momentos, profundos ou não, ficará menos suscetível aos efeitos financeiros e sentimentais. Afeta, mas não de forma excessiva. Um exemplo é a covid-19, que coincidiu com um movimento que já estava acontecendo, o qual deu saltos quânticos para o mundo, mas com muita dor. Isso quer dizer que as pessoas aprenderam a usar, cada vez mais, o digital, e isso é uma mudança irreversível. Demoraria dez anos para que o Brasil pudesse fazer isso, mas aconteceu tudo em um ano, um ano e meio. Um outro ponto importante é: estamos na era do Low Touch Economy, ou a ‘Era da Economia de Baixo Contato’, mas nada substitui as relações humanas. O varejo não vai morrer, mas evoluir. Então, o que podemos extrair disso tudo é que este processo leva mais comodidade, conveniência e eficiência aos clientes. O papel das empresas é pensar como conseguir fazer isso pelos consumidores em qualquer lugar do planeta.”

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Redação PB Divulgação Yana Parente
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