entrevista

A gente não quer só comida

18 de janeiro de 2024
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Onde a maioria das pessoas enxerga carências, violência e desumanidade, Gilson Rodrigues oferece e identifica oportunidades. Presidente do G10 Favelas – bloco de líderes e empreendedores sociais das dez maiores favelas do Brasil, que, juntas, movimentam R$ 7,9 bilhões por ano –, ele desafia as estruturas preexistentes, ajudando a transformar pessoas com raízes nas comunidades em empreendedores de sucesso.

Acostumado a lidar com adversidades desde a infância, Rodrigues fundou empresas em Paraisópolis – favela paulistana onde nasceu e que ostenta o título de quinta maior do Brasil – para levar serviços básicos aos moradores. Dentre as comodidades já oferecidas, estão: entrega de produtos comprados online, transporte por aplicativo e acesso ao crédito.

Antes de fundar o G10, você liderou a União dos Moradores e do Comércio de Paraisópolis. Como foi essa experiência de ser “prefeito de Paraisópolis”?

Foi incrível poder liderar Paraisópolis por meio da associação de moradores. Foram dez anos de resgate de um sonho de poder morar em um bairro, porque quando perguntavam de onde éramos, e respondíamos “do Morumbi”, as pessoas viam que nossas caras não eram de lá. Então, como “prefeito”, decidi que poderíamos fazer muito para transformar a realidade daquelas pessoas, trazendo empresas e investimentos públicos que pudessem impulsionar a nossa comunidade.
Em três anos, conseguimos atrair mais de R$ 1 bilhão em investimentos, construímos quatro unidades habitacionais, 15 escolas, aproximamos 63 organizações sociais que atuam no território, tivemos a construção do CEU [Centro Educacional Unificado] e da Etec [Escola Técnica Estadual Abdias do Nascimento], além de termos impulsionado o comércio. Neste mesmo período, houve o fenômeno da “nova classe média”, quando se descobriu que existia dinheiro na favela, e fomos atrás de grandes empresas. As Casas Bahia e o banco Santander se instalaram na comunidade, ajudando a impulsionar o empreendedorismo na região. Hoje, temos 14 mil pontos comerciais, que empregam 21% dos moradores e movimentam R$ 668 milhões por ano. A favela pode empreender, gerar emprego e renda, e pode se desenvolver como qualquer bairro ou cidade, onde você mora, estuda, trabalha e ama.

Como funciona o G10 Favelas, bloco de líderes de impacto social?

O G10 é a segunda fase do trabalho em Paraisópolis e nasceu da possibilidade de escalar tudo que foi feito na comunidade e transferir para a realidade de outras favelas. O bloco reúne empreendedores sociais das dez maiores favelas do Brasil e foi inspirado no G7 [grupo dos países mais industrializados do mundo] e no G20 [fórum que reúne os principais países industrializados e emergentes], para termos um bloco de favelas ricas.
Nosso bloco movimenta quase R$ 8 bilhões por ano e acredita que, por meio do investimento público e privado, da educação e do empreendedorismo, todos são capazes de ser agentes da transformação da sua própria realidade. A melhor forma de ajudar o Brasil e a população mais carente é estimular o empreendedorismo. O jovem que sonha em fazer uma faculdade, a mulher que sofre violência doméstica ou uma pessoa que quer transformar sua realidade. A melhor forma de fazer isso é colocando dinheiro no bolso.
Temos 18 iniciativas em Paraisópolis, que já estão levando o empreendedorismo para o Brasil inteiro, com pavilhões instalados nas favelas de Heliópolis (SP), Betim (MG), Complexo do Alemão (RJ) e Casa Amarela (PE). E estamos para inaugurar em Coroadinho (MA).

Qual é o alcance do trabalho do G10?

O G10 atua em 16 Estados, com 389 favelas, e somos a maior rede de moradores voluntários do Brasil, com 4.002 presidentes de rua, projeto em que, a cada 50 casas, temos um morador voluntário cuidando de 50 famílias. Esse trabalho ganhou muito destaque, principalmente na pandemia, sendo capa de diversas publicações jornalísticas, como o The Washington Post [jornal norte-americano], e fomos considerados o case de melhor gestão na pandemia, à frente da cidade de São Paulo.
Agora, com a sociedade voltando ao normal, imersa na fome e no desemprego, esses presidentes de rua viraram agentes de transformação econômica. Um exemplo é a criação do G10 Bank Participações, um banco que ajuda a dar crédito para quem quer empreender. E os presidentes das ruas atuam como avalistas informais para identificar a quem a instituição deve emprestar dinheiro.
Hoje, temos cerca de 33 milhões de pessoas passando fome no Brasil. Isso exige um trabalho emergencial, mas as pessoas não podem viver com o básico. Elas querem viver da própria renda, dos seus empregos, para não depender sempre de doação. Mas, para isso, é necessário que haja investimento em educação e qualificação.

Outro trabalho recente foi o desenvolvimento de um polo de tecnologia e inovação em Paraisópolis. Como foi esse trabalho de levar educação e tecnologia para uma região mais vulnerável e, ao mesmo tempo, priorizar a população de mulheres, negros e jovens?

Neste processo, percebemos que a tecnologia é fundamental, porque é a área que tem crescido mais e que vai gerar a maioria dos empregos nos próximos anos. Por isso, criamos o G10 Tec, para ajudar as pessoas da favela a se formarem, pois, quando se olha para a favela e para o empreendedor, por vezes, o profissional perde oportunidades pela falta de um CEP ou pela cor da pele. Mas, na internet, não existem essas barreiras. Você pode ter qualquer cor, morar em qualquer lugar. Um programador, por exemplo, não precisa passar por tudo isso, desde que entregue um trabalho de qualidade. Na minha juventude, fiz curso de informática, mas meu filho de dez anos nem precisou, já nasceu inserido nesta tecnologia. Temos o papel de mostrar para os jovens das favelas que a área da tecnologia também pode ser uma opção para empreender e conquistar seu espaço.

“A favela pode empreender, gerar emprego e renda, e pode se desenvolver como qualquer bairro ou cidade, onde você mora, estuda, trabalha e ama.”

Como você enxerga a Paraisópolis de 2010, quando você assumiu a União dos Moradores e do Comércio de Paraisópolis, e a de 2022?

O que mudou a partir de Paraisópolis é a constatação de que “nós podemos”, que a população da favela não é violenta, mas violentada pela falta de políticas públicas. As favelas perceberam que não adianta ficar olhando para seus problemas, mas que devem criar as próprias soluções, e que ninguém é predestinado a dar errado por ter nascido na favela, que todos podem construir o próprio futuro.
Minha história fala muito sobre isso. Fui um menino filho de uma mulher surda e muda, criado com uma tia nas mesmas condições, que era o único da casa que falava, e me expressava muito bem. Então, desde cedo, tive que conviver sendo vigiado pelas minhas atitudes. As crianças hiperativas da favela são marginalizadas, mas aquelas que nascem com as mesmas características em uma família rica são alçadas aos cargos de liderança nas empresas.
O meu sucesso serve como referência, para muitas crianças marginalizadas nas favelas, de que é possível dar certo, mesmo nascendo na favela. Existiram muitas outras pessoas que empreenderam e deram certo na favela, mas a história que se conta é da violência, da marginalização, da carência. O que define a favela ainda é a falta, mas estamos do outro lado da história, em que dizemos às empresas que, se elas não investem na favela, estão perdendo dinheiro. Nós pegamos carros de aplicativos, mas vocês nos bloqueiam; compramos no e-commerce, mas não entregam nos nossos endereços, porque não temos CEP. Vamos rompendo essas barreiras, mostrando dados e fatos de que a favela é capaz de produzir serviços e atender ao consumidor local. O maior exemplo disso é o Favela Brasil Express [empresa de logística criada por Gilson], que está presente em sete favelas, completou um milhão de entregas feitas, com uma carga de R$ 15 milhões, e pretende chegar ao final deste ano com dez milhões de pacotes entregues, 3.500 funcionários e faturamento de R$ 102 milhões, em 57 favelas.

Qual é o papel do comércio no desenvolvimento da comunidade?

É fundamental, pois, antes, os moradores tinham que pagar condução para consumir em outros polos comerciais, e a favela continuava atrasada. Percebemos que, desenvolvendo o comércio local, gera-se emprego e renda na comunidade. Recentemente, fiz uma viagem a Zurique, na Suíça, e vi que as favelas de lá continuam de pé, porém, foram melhoradas pelo empreendedorismo. Quem sabe também conseguimos transformar nossas favelas em lugares melhores para se viver e empreender, porque é muito difícil que as comunidades acabem, mas é possível transformá-las.

Que recado passaria para as empresas que ainda não enxergam o potencial do público consumidor das favelas?

Se a empresa ainda não investe nas favelas, está perdendo muito dinheiro. Existem 17 milhões de brasileiros favelados, com R$ 180 bilhões disponíveis para consumo. Se o empresário ainda não enxerga este potencial, está completamente equivocado sobre o que é o Brasil e sua potência. Não acredite no País dividido por CEPs, pois meus R$ 10 não valem menos do que os R$ 10 das pessoas que moram em Alphaville [bairro rico na Grande São Paulo]. Nós movimentamos R$ 180 bilhões sem estímulos, e geramos riquezas. Quando tivermos acesso a crédito e a formação, mudaremos de fato este País. Os empreendedores do futuro estão nas favelas. Nascemos em um ambiente adverso, sem estímulos, mas quando recebemos a oportunidade para trabalhar e empreender, transformamos a nossa realidade e a vida da comunidade. Empreender é de favela.

A ÍNTEGRA DESTE CONTEÚDO FAZ PARTE DA EDIÇÃO #471 IMPRESSA DA REVISTA PB. PARA CONTINUAR LENDO, ACESSE A VERSÃO DIGITAL, DISPONÍVEL NAS PLATAFORMAS BANCAH E REVISTARIAS.

Filipe Lopes e Lucas Mota Divulgação
Filipe Lopes e Lucas Mota Divulgação
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