entrevista

Bolsonarismo e antipetismo em análise

17 de dezembro de 2021
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Embora chegue ao penúltimo ano do mandato reprovado por metade do país (53%), segundo pesquisa do Datafolha de setembro deste ano, e corra o risco de não alcançar a reeleição, o estilo de fazer política inaugurado por Jair Bolsonaro não sairá tão cedo da vida pública brasileira. O fenômeno ao qual ele empresta seu sobrenome permanecerá relevante no Congresso, nas Assembleias e Câmaras estaduais e municipais. É o que aponta o economista Maurício Moura, presidente do instituto IDEIA e professor convidado da George Washington University (EUA). “Mas não será tão forte quanto com ele sentado na cadeira presidencial”, explica.

Para o economista, o cenário ainda é muito incerto: o resultado do pleito dependerá da popularidade de Bolsonaro e dos rumos econômicos do País, mas também de uma pergunta que ele considera presente no horizonte brasileiro desde os anos 1980: o PT deve ser governo?

Moura participou de reunião do Conselho de Economia Empresarial e Política (CEEP) da FecomercioSP, no dia 6 de dezembro, para debater o cenário eleitoral do País.

A seguir, algumas de suas impressões compartilhadas com a Problemas Brasileiros.

“Independentemente dos nomes em jogo, quanto mais candidatos de ‘terceira via’ houver, maior a probabilidade de acontecer um embate entre Lula e Bolsonaro.”

Considerando o contexto de agora, de pré-campanha eleitoral, como você vê o cenário do pleito do ano que vem?

O mais importante em uma eleição presidencial é saber qual pergunta-chave estará colocada ao eleitor. Hoje, temos duas variáveis para descobri-la. A primeira é que o governo Bolsonaro não tem uma boa avaliação —apenas 25% de aprovação e metade do País considerando o trabalho do presidente ruim ou péssimo. Em um contexto de governo mais bem avaliado, a pergunta-chave seria: “Ele merece continuar ou não?”. Porém, em um contexto de governo mal avaliado, como o de agora, a pergunta deverá ser a mesma que o Brasil tem respondido desde 1989: “Queremos o PT no governo ou não?”. É dizer, então, que o foco mental da opinião pública está ao redor desse possível retorno de um governo petista.

Em 2018, você apostava que o antipetismo seria um sentimento enterrado em 2022. A prisão e posterior soltura de Lula, tempos depois, mudou esse cenário. Qual é o peso do antipetismo agora?

Continua altíssimo. Pelo menos 40% das pessoas dizem que nunca votariam no PT e, mais do que isso, metade do país (50%) tem uma avaliação negativa do Lula. Ele é uma figura histórica, um nome relevante em eleições presidenciais desde 1989, mas também é um polarizador. Para o PT, esta eleição será difícil, principalmente porque o Lula terá de lidar com um nível alto de rejeição, mas também porque só ganhou pleito exercendo o papel de oposição uma vez, em 2002. É por isso que, para Lula ser competitivo, ele precisa de um adversário com uma carga de rejeição maior do que a dele. Neste momento, essa pessoa é o presidente Bolsonaro. Mas é importante dizer também que Lula é maior do que o PT, o que significa dizer que nenhum outro candidato do partido teria a mesma penetração nas camadas mais baixas de renda e na região Nordeste. Ele é um fenômeno do campo popular, o que é bastante relevante para uma eleição. Ali, ele reina sozinho.

As pesquisas o apontam como favorito. Como você vê essa perspectiva?

Se a popularidade de Bolsonaro não melhorar, Lula certamente será o favorito diante desse adversário “ideal”. No entanto, ele não será o favorito se brigar com outro candidato no segundo turno. Neste caso, a situação será bem mais complexa para o PT.

Até agora, esta candidatura — chamada de “terceira via” — não vingou. Por quê?

Em primeiro lugar, porque as pessoas não estão tão conectadas à eleição como a gente imagina. Quando perguntamos, espontaneamente, em quem elas vão votar em 2022, metade não consegue dizer um nome sequer. O pleito ainda está muito longe do horizonte das pessoas. Quem tem voto espontâneo hoje são, basicamente, Lula e Bolsonaro. Em segundo lugar, há uma dispersão muito grande de nomes que podem assumir essa “terceira via”. Para uma opinião pública desengajada, ainda é muito complexo saber quem são essas alternativas, o que torna o cenário todo muito confuso.

Há algum nome mais próximo de assumir a dianteira dessa posição?

Independentemente dos nomes em jogo, quanto mais candidatos de “terceira via” houver, maior a probabilidade de acontecer um embate entre Lula e Bolsonaro. Uma das premissas de competitividade desse campo é que deve reunir o menor número possível de candidaturas. Dos três nomes que podem assumir esse papel hoje, João Doria, Sergio Moro e Ciro Gomes, os dois últimos estão em um patamar de cerca de cinco pontos porcentuais acima nas nossas pesquisas estimuladas. Nas espontâneas, ao contrário, os três contabilizam pouquíssimos votos. Logo, se a política conseguir coordenar uma aliança desses grupos em torno de uma candidatura única, ela passa a ser muito mais forte. A questão é saber se isso é possível.

A chapa Lula-Alckmin, que vem sendo ventilada há algumas semanas, já é uma tentativa desse tipo?

Ela não traz muitos votos em termos eleitorais. Pela ótica política, no entanto, só a existência dessa possibilidade já é boa para Lula, que sinaliza moderação, e para Alckmin, que ganha projeção nacional novamente. Faz sentido no curto prazo, mas a eleição ainda está muito longe para sabermos se vai se materializar e, da mesma forma, se terá resultados práticos.

Muitas análises apontam para uma desidratação de Bolsonaro em razão da crise econômica atual — mesmo que ele já tenha conseguido tirar parte de sua culpa por outros problemas do País, como pela pandemia, por exemplo. Ele não conseguirá repetir essa dinâmica na eleição?

Isso é verdade — e não à toa os seus 25% de aprovação. No entanto, em uma eleição majoritária, esse volume de eleitores não é suficiente para conduzi-lo a um segundo mandato. Temos vários exemplos recentes disso: Donald Trump [ex-presidente dos Estados Unidos], por exemplo, tinha 40% de aprovação e, ainda assim, não foi reeleito. Na Argentina, Mauricio Macri tinha até pouco mais do que isso, e não venceu novamente. São exemplos que mostram que a base bolsonarista, que certamente é resiliente e representa um quarto do País, não reelegerá o presidente sozinha. Ele só passará a ser competitivo se aumentar o seu índice de aprovação até a campanha.

“O auxílio, por si só, não é suficiente para melhorar a popularidade de Bolsonaro, de uma forma que ele volte a ser competitivo em uma eleição.”

O que deve pesar com mais força contra o projeto de reeleição de Bolsonaro?

A economia. O contexto é muito desfavorável hoje — e, para um presidente da República, que é o principal responsável pelos rumos econômicos de um país, isso é muito ruim. Vivemos um tripé de aumento de desemprego, perda de renda e inflação, que reflete nos índices de pobreza. Se não houver melhora significativa, que atinja amplas camadas da sociedade, será difícil obter uma recuperação da popularidade suficiente para a reeleição.

Bolsonaro tem apostado em aumentar o Auxílio Brasil para chegar a esse objetivo. Ele terá êxito?

Tem potencial, mas a grande questão, na verdade, é saber até que ponto o Auxílio Brasil será efetivo para converter a percepção daqueles que, hoje, avaliam o governo como regular para uma boa ou ótima. É um grupo de cerca de 25% do eleitorado. Essa é uma resposta que ainda não temos, muito porque não sabemos como será a distribuição do benefício, nem qual será o seu impacto. Ainda assim, o auxílio, por si só, não é suficiente para melhorar a popularidade de Bolsonaro de uma forma que ele volte a ser competitivo em uma eleição.

Nos últimos anos, muito se falou dos “bolsonaristas arrependidos”: pessoas que votaram em Bolsonaro em 2018 e se arrependeram. O que as pesquisas apontam sobre isso para a próxima eleição?

Ao mesmo tempo que é fácil encontrar os bolsonaristas arrependidos, é muito difícil. Bolsonaro começou o mandato com 50% de aprovação, o que significa que ele perdeu 25% das pessoas que aprovavam seu trabalho de lá para cá. Isso representa, em termos políticos, um grau de desconfiança muito alto. Mas tem outro dado que é mais importante: o Sudeste foi o pilar da eleição de Bolsonaro em 2018 — tanto que, levando em conta só os votos dessa região, ele teria vencido no primeiro turno, somando 53% dos votos válidos. No segundo turno, então, ele teve 66% dos votos válidos. Hoje, ao contrário, 62% das pessoas do Sudeste acham que ele não merece continuar sendo presidente. Isso significa que ele inverteu a curva na região mais populosa do País, e onde ele foi bem em 2018. São dados emblemáticos da perda de popularidade que ele sofreu.

A campanha eleitoral ainda muda significativamente o contexto de uma eleição, como se via no passado?

A campanha costuma ser um ponto de convergência mental dos eleitores, porque é quando eles realmente prestam atenção na política. Nesse aspecto, a campanha ainda tem esse peso. Antes dela, as pessoas não estão tão empenhadas em tomar uma decisão. No entanto, a situação de 2022 será bastante ímpar: em primeiro lugar, porque se trata de uma reeleição — cujo pilar central é o governo em exercício —, e, assim, será uma campanha de referendo do atual governo. Em segundo lugar, complicando ainda mais o cenário, está a própria presença do ex-presidente Lula, uma figura amplamente conhecida e com uma musculatura política só comparável à de Getúlio Vargas. É uma campanha diferente, pelos atores que envolverá.

Alguns dos dados que você tem apresentado mostram um dilema da candidatura de Sergio Moro: apesar de ser conhecido, não consegue crescer nas intenções de voto. Por quê?

O argumento de que as pessoas não estão engajadas na campanha também vale para este caso. Isso faz com que elas ainda não tenham tomado uma decisão. Além disso, Moro tem reconhecimento positivo nas camadas mais altas de renda e escolaridade, mas não é uma figura popular — o que explica o motivo pelo qual ele não sobe nas pesquisas. Se isso acontecer, será apenas no momento da campanha eleitoral, quando as pessoas estarão mais expostas às alternativas concretas.

“Moro tem um reconhecimento positivo nas camadas mais altas de renda e escolaridade, mas não é uma figura popular — o que explica o motivo pelo qual ele não sobe nas pesquisas. Se isso acontecer, será apenas no momento da campanha eleitoral, quando as pessoas estarão mais expostas às alternativas concretas.”

As fake news ainda darão a tônica desta eleição, como aconteceu em 2018?

A escala e o volume de fake news são crescentes, e isso consumirá energia, recursos e tempo das campanhas, dos eleitores e da imprensa, ao longo de todo o processo. No entanto, elas não são decisivas, porque reverberam apenas nas próprias bolhas. Na verdade, é muito difícil que uma notícia falsa saia dos grupos em que as pessoas já estão dispostas a acreditar nela. As fake news são produzidas para corroborar o argumento preestabelecido na cabeça dos eleitores — de um lado e de outro. É o chamado viés cognitivo. Será um período de aumento exponencial de produção desse tipo de informação, mas sem consequências concretas em termos eleitorais.

Mesmo considerando o alto número de eleitores indecisos fora dessas bolhas?

Até hoje, com exceção do Brexit, em que o argumento feito pela campanha a favor do projeto foi uma fake news, ainda não há comprovações empíricas de que elas impactem o voto dos indecisos. Sem contar que estamos falando de duas figuras amplamente conhecidas, Lula e Bolsonaro, com seus atributos positivos e negativos. Será difícil que mesmo um acúmulo de fake news seja capaz de mudar o resultado da eleição.

O bolsonarismo, enquanto fenômeno social, permanecerá mesmo que Bolsonaro deixe o cargo?

Certamente. A figura de Bolsonaro ainda conseguirá carregar, inclusive, muitos políticos eleitos: deputados e senadores escolhidos pelo jeito de fazer política bolsonarista. Isso significa dizer que, mesmo sem ser reeleito, no Parlamento, nas Assembleias e, eventualmente, até mesmo nos governos estaduais, nós continuaremos vendo representantes desse estilo de política. O próprio Bolsonaro é um fenômeno muito particular, já que nunca foi um ator relevante no Congresso em três décadas como deputado. Sua chegada à presidência aconteceu apenas em um momento de sentimento antipolítica muito forte do País. Ainda que seja difícil imaginar o dia seguinte à sua saída, certamente o bolsonarismo permanecerá — embora não tão forte quanto com ele sentado na cadeira presidencial.

E do ponto de vista institucional, a presença de bolsonaristas nos cargos do governo será um desafio a um possível próximo governo?

No Brasil, essa é uma questão sempre difícil de resolver, independentemente do grupo político no poder. O aparelhamento do Estado não é uma invenção bolsonarista e, nesse sentido, trata-se de um desafio muito mais amplo de quem ganha a eleição. No entanto, no governo Bolsonaro, houve um acirramento da perda de poder do Executivo para o Congresso, que já vinha desde a época de Dilma Rousseff. Assim, o que haverá, de fato, será um Parlamento muito mais empoderado, até mesmo em termos orçamentários, não somente políticos, em relação ao Executivo. Esse é um desafio ao qual precisamos nos atentar.

Como chegam os partidos políticos para as eleições em outros níveis, principalmente nos governos estaduais?

A eleição mais importante para eles é a da Câmara, por meio da qual eles acessam o fundo partidário e as comissões, onde, hoje, circulam os recursos e o poder do contexto político brasileiro. Nesse aspecto, há uma grande possibilidade de aumento de representatividade dos partidos do Centrão. Estou falando de PP, PL, PSD, União Brasil, MDB etc. Esses partidos vão sair maiores, assim como já saíram das eleições municipais, em 2020. Até em função da cláusula de barreira, por exemplo, teremos menos partidos no Parlamento e, assim, maior concentração desse grupo. Será uma disputa muito forte, por consequência, pelo cargo de presidente da Câmara. Parafraseando Ulysses Guimarães, “pior do que o parlamento atual só o próximo”. 

A eleição de Joe Biden, nos EUA, está muito distante ou ainda causará impactos sobre o nosso pleito?

Impacta pouco, mas entrega lições. Uma delas é a de que Trump não foi reeleito por não conseguir fazer a maioria do país aprovar a sua gestão. De uma maneira muito objetiva, se Bolsonaro não se reeleger, será muito mais pela falta de entregas da sua gestão do que por qualquer outro movimento global, populista e autoritário de direita. Biden foi eleito, principalmente, pela má gestão de Trump, não por outra coisa. Isso é uma lição ao Brasil.

Caso Bolsonaro repita a tentativa golpista de Trump, o Brasil tem condições de reagir da mesma maneira que as instituições americanas fizeram?

Eu espero que tenha, porque seria muito ruim para o processo democrático brasileiro, que é mais frágil do que o americano. Mas não tenho resposta para essa pergunta. Fico apenas na torcida para que não aconteça.

Vinícius Mendes Maurício José Moura
Vinícius Mendes Maurício José Moura
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