entrevista

Desprezo ao passado sem noção do futuro

18 de outubro de 2022
A

Alguma coisa está fora da ordem. Esta percepção assustada, e um anúncio sobre o mundo, está na abertura do álbum Circuladô, do cantor e compositor baiano Caetano Veloso, lançado em novembro de 1991. É, antes de tudo, uma conclusão amparada no seu contexto – marcado ali pelo fim da Guerra Fria, o colapso da União Soviética (URSS), a reunificação alemã e a utopia mais concreta de uma globalização, de fato, global. No Brasil, a volta gradual da democracia em meio aos já primeiros ajustes no texto recém-escrito da nova Constituição era um misto de esperança e dúvida. Tudo isso fora marcado a ferro por uma afirmação categórica de um filósofo americano, Francis Fukuyama, em 1989: de que ali se vivia o “fim da história”, uma metáfora para enfatizar o triunfo do capitalismo (dos Estados Unidos) sobre o comunismo (da extinta URSS).

O que estava fora de ordem, há três décadas, não apenas permanece como agora se intensifica. Há mais inseguranças, turbulências, ameaças e crises no mundo do que Fukuyama e Caetano visualizaram. Entretanto, agora, há o desafio histórico de não existir alternativa para polarizar com o capitalismo em sua fase neoliberal. O resultado disso é o que o escritor Alex Hochuli chama de “fim de fim da história”, sobre o qual disse, em um artigo publicado no relevante American Affairs Journal, ter o aspecto de uma “brasilianização do mundo”. Em outras palavras, em qualquer lugar do planeta que se olhe – dos condomínios ricos das metrópoles de economias desenvolvidas à pobreza das megalópoles do Sul – há uma face inequívoca de Brasil. Para o mundo, isso significa conviver com a precariedade do trabalho, uma desigualdade social latente, a corrupção estrutural do Estado e uma elite que abandonou o povo à própria sorte. Tudo isso sem que haja saídas possíveis – e depois da miragem de um futuro promissor, moderno, cuja expressão definitiva é a própria utopia brasileira em ser o “país do futuro”.

Assim, se Caetano observava que, no Brasil, tudo parecia que era construção (e já era ruína), esta agora é uma característica do mundo. Hochuli alça o próprio posicionamento neste horizonte para escrever. “Sou brasileiro e estrangeiro ao mesmo tempo”, conta ele, antes de elencar nacionalidades: nascido no Brasil, filho de mãe chilena e pai suíço, com infância e adolescência na Bélgica e formação universitária na Inglaterra, onde estudou, como não poderia de deixar de ser, Relações Internacionais na renomada London School of Economics (LSE). Entre tantos países, ele se encontrou em São Paulo – que não deixa de ser uma síntese do mundo –, onde vive desde 2019.

A seguir, trechos da entrevista que concedeu a Problemas Brasileiros.

As características desta “brasilianização” do mundo não são exclusivamente brasileiras. Por que, então, o Brasil é o país que reflete melhor esta deterioração global?

É preciso pontuar, primeiro, o fim de um mundo moderno, de confrontação entre socialismo e capitalismo, que existiu entre 1848 e 1989. [O cientista político norte-americano] Francis Fukuyama chamou isso de “fim da história”. Até aquele momento, os países com alguma modernidade eram os que contavam com movimentos operários organizados, grupos socialistas e liberais, cujos conflitos entre si se materializavam em políticas universais e em disciplinamento das elites. O fim dela gerou uma modernidade peculiar.

Por quê?

Porque o capitalismo ficou só. É uma novidade histórica, que acabou com as pressões para que essas elites nacionais encabeçassem programas de modernização de suas sociedades. Ao contrário, o que aconteceu foi o aumento da desigualdade, como se vê nos Estados Unidos, por exemplo, onde não há mais investimentos de longo prazo. É uma economia estruturada só no curto prazo. Este “curtotermismo” define todo o mundo contemporâneo e é a raiz da “brasilianização” – uma condição de atraso que, agora, se alastrou pelo globo.

Mas o que faz o Brasil ser um país tão particular no mundo?

O Brasil tem uma história particular. Primeiro, por ter sido a colônia que manteve a escravidão por mais tempo. Depois, por não ter tido a experiência de uma guerra revolucionária burguesa. No entanto, a particularidade é que este país sempre mirou o futuro sem jamais olhar para trás. O resultado disso é que, hoje, o Brasil despreza o seu passado sem ter uma noção do seu futuro. Isso é muito relevante se tratando da nação que sempre foi vista em termos das suas possibilidades de futuro. Desde o golpe militar, de 1964, pelo menos, o que há aqui é um presente eterno, em que se perde contato com o passado sem ter um horizonte pela frente. Esta sensação de ser moderno, mas não suficientemente moderno, tão brasileira, agora, é uma experiência do resto do mundo.

Mas isso também não é uma experiência de outros emergentes?

A Índia e a Turquia são exemplos interessantes. Em ambas as experiências, o que começou como modernização, lá atrás, terminou em frustração de boa parte das populações, excluídas dos projetos. Na verdade, em vez de incluir, partidos conservadores, nacionalistas e populistas capturaram as insatisfações cultural e política dos trabalhadores e dos pequenos burgueses para transformá-las no motor de suas guinadas políticas. O resultado destes processos é o mesmo: nada muda do ponto de vista da economia, mas estes movimentos conseguem transformar a percepção das pessoas sobre suas experiências sociais.

Foi o que aconteceu no Brasil?

Sim. O relevante é que, nestas sociedades, as esquerdas não têm mais horizonte de modernização, enquanto as direitas são simplesmente antimodernas.

O Brasil também se mundializa nesse processo de “brasilianizar” o mundo?

O Brasil recebeu muita influência norte-americana. A discussão atual sobre porte de armas, por exemplo, é totalmente importada dos Estados Unidos, assim como quando ouvimos aqui falar de “minoria racial” – que, no nosso caso, são justamente os brancos, não os negros.

Neste sentido, o bolsonarismo, como fenômeno social, é o Brasil se mundializando ou o Brasil “brasilianizando” o mundo?

Na eleição de 2018, eu enfatizava que Jair Bolsonaro não era um “Donald Trump brasileiro”. Meu argumento era que Trump e até, de alguma forma, a [candidata derrotada à presidência da França nas eleições deste ano] Marine Le Pen eram expressões de rebeldia contra o neoliberalismo que politizavam suas sociedades, enquanto Bolsonaro representava mais uma ligação com o passado, na sua recuperação da narrativa militar. Contudo, a falta de resistência ao seu governo acabou impedindo que ele tivesse matéria-prima para realizar uma tomada mais autoritária e violenta do poder. Foi por isso que ele se voltou para a criação de guerras culturais, parecendo-se, aí, sim, com a presidência de Trump. Mas todos estes movimentos à direita não tocam nos fundamentos econômicos. É por isso que a Hungria do [presidente húngaro] Viktor Orbán, ao mesmo tempo que é uma manifestação desse pensamento, segue sendo uma fábrica de automóveis da Alemanha.

Essa brasilianização é um fenômeno do sul global também?

É uma pergunta interessante. A resposta é não, porque muitos países do Sul estão em situação pior. Esta é uma crítica que fizeram ao meu artigo, apontando que sociedades caribenhas ficariam muito felizes em se assemelharem ao Brasil. O mesmo ocorre com Laos ou Bangladesh, países onde não se pode falar em uma “brasilianização”, justamente porque, ali, não há sequer o retrocesso que o fenômeno suscita. É que o fim de perspectivas de modernização e de desenvolvimento, a ambição de ter as mesmas condições de renda de um país rico, tudo isso é muito brasileiro. É um fato, porém, que não apenas o Brasil, mas o mundo não enfrentou: a questão do fim da modernização.

Há outras brasilianizações ocorrendo no mundo?

O modelo de integração que o Brasil representa é uma resposta possível. Depois de uma geração, todo mundo é brasileiro. Não tem esta coisa de “ítalo-brasileiro” ou “franco-brasileiro”. A ideia de um brasileiro universal não só deve ser mantida como precisa se espalhar pelo mundo. Isto é, que um tunisiano vá para a França e seja respeitado e aceito como um francês, e que a sua geração seguinte já seja apenas francesa. Ao fazer isso, muda-se o sentido do que é ser francês. Isso não acontece lá, mas acontece aqui.

Vanguardas culturais brasileiras, como o tropicalismo, anunciaram uma brasilianização em que o Brasil salvaria o mundo. Qual é sua percepção sobre isso?

Se o fim da história foi também o fim das utopias, eu acho que o que ainda existe deve ser alimentado. O Brasil sempre foi uma usina de utopias diferentes das europeias. Vejo, por outro lado, que algumas delas se materializaram em outros termos, como a construção de Brasília, que foi um símbolo para o mundo, mas se tornou exemplo de uma modernização autoritária. O País sempre teve certa sensibilidade à questão da inclusão popular em seu modernismo. Quando visitei o Masp, fiz esta reflexão: se o museu fosse construído hoje, jamais teria aquele vão aberto. Ao contrário, seria um prédio cercado, fazendo jus ao pensamento atual da elite brasileira. Esta ideia de encontros diversos e aleatórios, possíveis quando há espaços compartilhados, é o que faz o Brasil ser um lugar ainda gostoso para se viver no mundo – mesmo com a explosão da violência nas cidades, que tirou muita gente do espaço público.

“Esta sensação de ser moderno, mas não suficientemente moderno, tão brasileira, agora, é uma experiência do resto do mundo.”

A base da brasilianização é a ideia de que vivemos o “fim do fim da história”. O que isso significa?

Fukuyama foi mal interpretado. Ele não disse que as histórias acabariam, no sentido de que não teríamos mais narrativas diferentes, mas observou que estava surgindo um mundo que não criaria alternativas à democracia liberal. Não era um argumento eufórico. Na verdade, Fukuyama até lamentava, porque via que, a partir dali, não haveria mais grandes transformações. Mesmo defendendo a democracia, percebia que nos acostumaríamos a um mundo condenado a este futuro “confortável”. O que aconteceu, porém, é que não há mais conforto, mas muitas turbulências. A própria democracia liberal não representa mais o futuro, também envolta em retrocessos.

E por que é o fim do fim da história, e não o recomeço de uma nova história?

Porque esse fim da história não foi derrotado por um outro momento, em que uma nova força social fosse capaz de carregar essa história nas costas. Antigamente, o comunismo era a representação desta ideia, isto é, de que havia uma outra forma de tentar fazer o mundo melhor além do capitalismo. O que emergiu até aqui foram reacionarismos, que não serve de exemplo para o mundo. É tudo só dissolução, fracasso de um mundo estático e preso em um presente eterno. O dilema é que momento turbulento também abre uma brecha, e é importante se abrir a ela, de forma a não tentar voltar a um passado supostamente confortável.

Qual é o lugar do Brasil no fim do fim da história?

O fim do fim da história é uma tendência universal que convive com manifestações modificadas dependendo do lugar. No Brasil, é uma brecha que se expressa nas contradições da Nova República. A Constituição de 1988 trouxe avanços, mas, ao mesmo tempo, sustenta velhas formas de poder – dos militares, principalmente. Estas contradições são mais nítidas hoje. Se deve ser defendida nestas eleições, é importante que, depois, se pense em uma “nova Nova República”, porque essa não funciona mais.

ESTE CONTEÚDO FAZ PARTE DA EDIÇÃO #472 IMPRESSA DA REVISTA PB. ACESSE A ÍNTEGRA DA VERSÃO DIGITAL, DISPONÍVEL NAS PLATAFORMAS BANCAH E REVISTARIAS.

Vinícius Mendes Divulgação
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