entrevista

ESG: um assunto estratégico

10 de novembro de 2021
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Ficou no passado o entendimento de que dar importância à sustentabilidade é apenas apostar na reciclagem do lixo ou na redução do consumo de energia. Companhias de diferentes portes sabem bem que elas têm um papel fundamental na sociedade, que vai muito além de gerar emprego e renda.

Ao longo de duas décadas, o executivo Fábio Colletti Barbosa, de 65 anos, dedica o seu trabalho ao que hoje evoluiu para o conceito de ESG, ou seja, um índice que avalia as operações das empresas de acordo com três eixos da sustentabilidade: o meio ambiente, o social e a governança.

Ele, que já presidiu o extinto Banco Real, o Santander, a Federação Brasileira dos Bancos (Febraban) e o Grupo Abril, é um dos principais nomes do setor no Brasil. Barbosa defende que é possível ter resultados financeiros e, ao mesmo tempo, olhar para o futuro: “É crescente o número de companhias que veem isso como estratégia”.

“As empresas e os bancos se uniram – ou até individualmente estão fazendo ações em prol da Amazônia. Elas fazem, e o governo vem atrás. O protagonismo deve sempre ser da sociedade.”

Qual é o cenário que temos atualmente no Brasil e no mundo em relação às ações e aos projetos das empresas focados em ESG?

O ESG vive um dos momentos mais importantes, com maior visibilidade. Na verdade, é uma construção de décadas que vem se consolidando, mas sempre evito que as pessoas tentem associar este momento bom do ESG à questão da pandemia. Seja no Business Roundtable Principles of Corporate Governance, seja em Davos, em 2019, seja na carta de Larry Fink aos CEOs, de 2018, já se falou muito em ESG. Eu vejo as empresas bastante preocupadas, algumas correndo atrás, outras se consolidando no que vinham fazendo e outras tentando aprender. Este é um tema que não dá mais para ser ignorado.

Tivemos avanços significativos?

Tivemos enormes avanços. Se voltarmos 20 ou 30 anos, nada existia. Comecei a trabalhar com isso no ano 2000, e o nome era responsabilidade social, que muitas vezes era confundida, como o próprio tema sugere, com filantropia. Como costumo dizer, não se trata de passar a caneta no cheque e a borracha na consciência. É preciso dizer que doação é muito bem-vinda, necessária e importante para um país e um mundo com tantas necessidades, como o nosso. Entretanto, quero saber o que a empresa faz no dia a dia. Aí que começou a crescer essa responsabilidade social, que virou o tema de sustentabilidade e que, por fim, foi equacionado em três pilares, o que nada mais é do que uma ordenação daquilo que se falava lá atrás. Então, cresceu muito, e isso se deu também porque há uma questão geracional. Sempre digo que se minha geração não deixou um Brasil melhor para os nossos filhos, ela deixou filhos melhores para o nosso Brasil. Os jovens têm consciências ambiental, social, ética e cidadã. Portanto, estão mudando os padrões de consumo e de investimento, a perspectiva de carreira e tantas outras coisas. Mudou muito? Mudou barbaramente, e a boa notícia é que vai continuar mudando e ainda vai acelerar muito.

Ainda é comum empresas acharem que ações como reciclagem de lixo, economia de energia e compensação da emissão de carbono já são suficientes quando se fala em ESG?

Acho que é um processo de aprendizado, que começa com essas coisas, como não desperdiçar água, não usar o copinho plástico (mas de de papelão) ou trazer a garrafinha. Só que, agora, evoluiu muito para deixar de ser uma série de iniciativas importantes, mas paralelas e não centrais no negócio, para ser estratégica. Como observo e constato isso? Deixou de ficar embaixo do RH para ter cara própria, deixou de ficar em uma diretoria secundária para sentar-se no comitê executivo de muitas empresas. Tem uma tese de que o assunto tem de ser estratégico – e não mais periférico.

As empresas estão realmente enxergando o ESG como estratégico?

Não podemos generalizar dizendo “as empresas”. É crescente o número de companhias que veem isso como estratégico e, portanto, trazem um planejamento estratégico. Isso significa falar em produtos, em canais de distribuição, em benefícios para os funcionários, em transparência e em metas. Tem outras que acham que é modismo, mas acredito que elas estão erradas, porque a questão é geracional. Seja por convicção, o primeiro grupo, seja por conveniência, o segundo grupo – que acha que é modismo –, ou seja por constrangimento, porque não dá para seguir não falando sobre isso, o fato é que tem muita gente vindo nesta direção. Contudo, ainda existe um processo, pois faltam profissionais, formação e literatura. Uma empresa que produz papel versus uma que vende álcool em gel, ou uma empresa que tem um restaurante ou uma federação do comércio, em cada caso específico é preciso ver o que pode ser feito. Eu acho que isso tem de ser conversado. Dentro das empresas, esta conscientização está crescendo, porque cada dia chegam mais jovens que vão integrando o processo. O jovem não gosta de desperdício. Ele consome de forma diferente.

Além das faltas de profissionais e formação específica, quais são os outros gaps que existem nas companhias de diferentes portes para estruturar esta frente?

Primeiro, gostaria de destacar que nós estamos remando a favor da correnteza. O processo está andando, mas pode ser mais rápido. Entre os gaps, estão as dicotomias entre as pessoas mais velhas, que acham que isso é uma bobagem, e as mais jovens, que defendem que as coisas devem feitas de uma maneira diferente – e percebem isso porque são consumidores. Quero fazer um parêntese: é muito fácil fazer uma projeção sobre demografia. A cada dia entra um novo consumidor, um novo investidor, um novo talento que busca coisas diferentes do que aqueles que estão saindo do mercado por aposentadoria, tempo ou qualquer outra razão. É óbvio que o que está acontecendo não é modismo. Analisando cinco gerações, estou no meio e vejo que são totalmente diferentes. Você acha que o meu avô é a referência de como hoje se consome? O segundo ponto é em relação a métricas. É preciso medir o impacto, mas há muitas dúvidas de como fazer. Hoje, isso está sendo trabalhado. Um investidor que queira investir em uma empresa adequada à metodologia ESG não vai lá para saber isso. Como exemplos temos a Natura e a Suzano, que colocam metas claras, como atingir uma redução no consumo de água ou fazer uma inclusão social na região onde atuam, mas, caso não façam isso, a taxa de juros no seu empréstimo irá subir. É um benefício claro, com uma meta clara a ser atingida, na qual todos saem ganhando. Isso mostra a relevância da métrica e também a importância que o novo investidor está atribuindo a isso. Além de números, tem uma nova compreensão de que a empresa que não estiver conectada ao seu tempo, não estará lá daqui a cinco ou dez anos para pagar as dívidas. Então, é melhor recuar um pouco e entrar no trilho certo, porque isso dá mais segurança de que ela poderá pagar o investidor.

Sobre a frente social, principalmente com a pandemia, muitas empresas fizeram doações e mostraram isso. Como fazer ações e abraçar causas de forma correta?

Estas causas filantrópicas devem vir no guarda-chuva de tudo. Ninguém é contra que se faça doação de alimentos, de remédios ou de vacina. Elas são bem-vindas, e a sociedade precisa mesmo de mais solidariedade, mas o social do ESG não é isso. Não é esse o foco do “S”. O social que falamos aqui é incorporação de negros, inclusão social, cuidar da comunidade com a qual você interage, cuidar da integração de gênero, aceitação de orientação sexual, política ou religiosa de qualquer natureza… É disso que estamos falando: de planos estratégicos da empresa. E o “G” da governança que estamos falando é a transparência, o que significa que você tem de dizer exatamente o que está fazendo. O investidor, para escolher sua ação, quer saber como você está atuando nas questões social e ambiental e como está sua perspectiva em termos de crescimento. Governança é olhar para o compliance, para a lavagem de dinheiro. O investidor quer saber se a empresa está fazendo tudo certo, porque se ela não estiver fazendo alguma dessas coisas, o valor dela vai cair, por isso a necessidade de transparência. É preciso olhar para tudo isso como uma maneira de fazer negócio.

Práticas como greenwashing, o que significa promover discurso ecologicamente correto, têm crescido por aqui. O que o senhor pensa sobre isso?

Não sei por que as pessoas criticam tanto o greenwashing. Eu até prefiro, pois neste mundo onde tem on e off, depois se falou (e parece greenwashing), você terá que fazer. Porque, se não fizer, o estrago vai ser ainda maior na empresa. O que vale é o que se faz no dia a dia. A sua doação, inclusive, só tem valor se o dinheiro for limpo. Estou vendo empresas que fazem coisas importantes e não comunicam adequadamente. Então, tem ogreenwashing, mas também tem as empresas que naturalmente incorporaram práticas sem perceber que o consumidor lá na ponta está questionando isso.

Também é comum vermos empresas que comunicam adequadamente o público externo, mas não fazem o mesmo com o público interno.

Isso é normal. Na verdade, deve ser o contrário. Primeiro, é preciso engajar o público interno para, depois, focar em quem está fora. A comunicação deve ser uma externalização do que você faz. Por isso, acho que o greenwashing tem vida curta.

“Sempre digo que se minha geração não deixou um Brasil melhor para nossos filhos, ela deixou filhos melhores para o nosso Brasil. Os jovens têm consciências ambiental, social, ética e cidadã.”

Quais os caminhos efetivos que as companhias de diferentes portes têm para engajar colaboradores e a sociedade em geral?

Antes de tudo, é preciso entender que o consumidor, o investidor e o talento estão mudando de comportamento. O consumidor quer saber de onde vem a carne, o investidor quer saber se a loja de varejo emprega mulheres e negros, se cuida do lado social, o que faz com o seu lixo, tudo com transparência. É importante ter a noção clara de que é preciso estar conectado com a tendência de padrão de consumo, que, por sua vez, está conectada ao padrão de investimento, porque o investidor não vai injetar dinheiro na empresa que está produzindo energia a carvão, aumentando a fabricação de plástico PET, que resolveu adicionar mais açúcar no refrigerante ou que vai desmatar uma nova área da Amazônia para criar mais gado, porque o preço da carne está bom. Já está acontecendo isso, de não se investir nessas empresas. Não é modismo, é o seu negócio que vai desaparecer caso não se conecte a esta tendência.

Mas como atingir os funcionários com mais tempo de empresa?

É começar dentro de casa, com ações mais tangíveis, desde uma campanha para economizar água. Estes colaboradores mais velhos têm filhos em casa que já falam sobre o assunto. Além disso, é algo estratégico para a empresa, e, no fim, é clareando as metas, explicando quais são elas, como redução no consumo de água, novos produtos mais saudáveis com menos sódio, menos desperdício de embalagem, maior facilidade de os consumidores devolverem o produto com defeito, enfim, cada um tem de pensar no que fazer de acordo com o seu negócio. Percebi que existe um número enorme de pessoas que acredita nisso e quer fazer isso. O que acontece é que de acordo com a cultura da corporação, nos negócios, não se fala deste assunto. Isso está mudando. Na hora que você começa a falar, aparece um monte de gente que diz que é exatamente o que ela pensa e deseja.

A agenda ESG realmente está muito atrasada no Brasil? O que seria necessário fazer para caminhar com mais celeridade?

Acho que o Brasil foi sempre adiantado no debate ambiental. Foi líder em vários momentos, embora agora não seja mais. No certame social, tem uma legislação para as pessoas com deficiência. Contudo, agora, o Brasil está ficando para trás, especialmente por causa da questão ambiental e da imagem que está criando mundo afora de como o País lida com o tema. A legislação ambiental brasileira é super-rígida, a legislação ambiental do Estado de São Paulo é espetacular, inclusive, há mais mata preservada neste ano do que no ano passado. Acredito que estejamos perdendo espaço, o qual não podemos perder, porque é justamente no momento que o mundo está dando atenção para isso.

As empresas precisam ter alguma conexão com o governo para avançar neste tema?

Qual é o papel do governo na sociedade? Ele tem de dirigir ou representar a sociedade? Quero que as empresas façam isso, e não que o governo venha com determinações, porque certamente estas serão amplas e totalmente descabidas para vários setores. Então, cada um deve fazer a sua parte, como está acontecendo na questão ambiental, independentemente da orientação do governo. As empresas e os bancos se uniram – ou até individualmente estão fazendo ações em prol da Amazônia. Elas fazem, e o governo vem atrás. O protagonismo deve sempre ser da sociedade.

Como os conselhos de sustentabilidade de entidades e das grandes companhias têm atuado? Isso tem impulsionado a agenda ESG no País?

Eu, que faço parte de pelo menos seis deles, acho fundamental, já que o conselho faz duas coisas: primeiro, estipula uma disciplina, com periodicidade de reuniões para as quais é preciso ter material para apresentar e discutir, porque há cobrança – afinal, ninguém entra em um conselho de sustentabilidade porque está sem ter o que fazer. Ele entra porque existe uma crença de que aquilo vai dar visibilidade e vai ser bom para a empresa. E o segundo é pela densidade de pessoas que têm experiências que agregam. É uma troca. Gosto de uma frase de Antonio Machado que diz: “Caminhante, não há o caminho, o caminho se faz ao caminhar”. É isso o que está acontecendo neste setor.

Como as pequenas empresas ganham corpo neste sentido?

Elas devem ficar espertas, porque as grandes vão comprar delas. Serão fornecedores ou consumidoras das maiores companhias. O que fazer, então? É por meio de associações, como a Federação do Comércio, que elas ganham formas. Se a empresa não tem uma estrutura própria e não pode ter o próprio comitê, deve participar do setor, ouvir e se educar. Se não fizer isso, não vai perder o seu mercado daqui a um ou dois anos, mas daqui a cinco ou dez anos.

Karina Fusco Divulgação
Karina Fusco Divulgação
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