entrevista

Inspiração para despertar

04 de maio de 2021
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Despertar inspirado, que conta com reflexões de dois dos nossos principais pensadores contemporâneos, nasceu a partir de posts matinais feitos durante o isolamento social. Impulsionado pela necessidade de se manter positivo, o professor gravou uma série de vídeos diários, posteriormente acrescidos de comentários da monja.

Nova parceria literária entre o jornalista e professor, Clóvis de Barros Filho, e a Monja Coen Roshi, fundadora da comunidade zen budista do Brasil, Despertar inspirado (Citadel) recupera as sementes dos frutos do primero livro, A monja e o professor: reflexões sobre ética, preceitos e valores (Record), lançado em 2018. Se o título anterior brotou de diálogo gravado durante um encontro entre os dois autores, dessa vez a interação ocorreu pelas vias digitais, mas a abundância da troca de saberes permanece. Continua intacta, também, a leveza, a prosa agregadora de conhecimentos históricos, espirituais e filosóficos.

Tudo começou quando o professor decidiu usar as redes sociais para comunicar o que lhe passava pela cabeça a cada amanhecer, assim que decretada a primeira fase do isolamento social motivado pela pandemia do novo coronavírus. Em um esforço para perseverar e encontrar positividade e motivação, sempre às 6h da manhã, durante 40 dias, Barros Filho ligava a câmera e falava consigo. Monja Coen, por sua vez, com a mesma assiduidade, acompanhava os vídeos produzidos por ele e endereçava ao amigo mensagens com comentários, aprofundando suas reflexões.

O conteúdo, transposto à forma textual, resultou em 15 capítulos com temas que tratam do sentido da vida, autoconhecimento, aprendizado, simplicidade, sabedoria e gentiliza. PB conversou com os autores para saber minúcias da iniciativa.

Professor, gostaria que comentasse sobre o que fez você começar a usar a internet, na forma de vídeos, para comunicar o que se passava pela sua cabeça a cada amanhecer. Por que quis fazer isso em audiovisual, e não diretamente em texto?

Clóvis de Barros Filho – A opção pelos vídeos responde a uma necessidade de urgência, de imediatidade própria da situação de pandemia em que nos encontrávamos, eu queria que a mensagem chegasse a todas as pessoas, que por ventura me acompanham, de forma rápida. Acredito que, de modo geral, os vídeos sejam mais imediatos e digeridos do que um texto, que, para ser lido, já requer alguma especificidade por parte do receptor.

O que você mais admira no modo como a Monja Coen fala de questões existenciais?

Clóvis – Bem, a Monja Coen é porta-voz do budismo, mais especificamente do chamado zen budismo, que tem entendimentos sobre o universo, o homem e a vida, que me encantam, com os quais eu concordo muito.

Quando saiu A Monja e o professor vocês foram resenhados como sendo “pensadores brasileiros de origens e abordagens muito distintas”. Essas “origens e abordagens” são tão díspares assim?

Monja Coen Roshi A Monja e o professor é um diálogo delicioso sobre ética e vida plena, pelo menos foi e continua sendo para mim. Momentos de aprendizado e ternura. Encontramos inúmeros pontos de convergência, no afeto, na gentileza, no cuidado em ouvir para entender, compreender linguagens diferentes com o mesmo propósito: que todos os seres despertem, que vivam em plenitude, que façam o seu melhor, que percebam suas amarras e se libertem. Origens históricas e abordagens diferentes, de linguagem, de etnias, de pensadores, nos levam a refletir melhor e perceber o ponto essencial de cada tradição filosófica espiritual.

Que lições podemos tirar do zen budismo para os radicalismos políticos e as intolerâncias atuais?

Monja – O zen budismo tem como prática fundamental a meditação silenciosa e profunda. O conhecer a si mesmo para transcender a si mesmo e se perceber interligado a tudo e a todos. Esse despertar da mente – “Buda” significa “o desperto” – nos leva a apreciar cada instante transitório da existência, saber que nada é fixo ou permanente, e que o que fazemos, falamos e pensamos mexe na trama da existência global, ou seja, cada uma de nós – pessoa humana – que desperta, se transforma em um ser consciente de seu papel e função na vida. Quando bem orientadas, as pessoas saem de conceitos e pensamentos errôneos sobre a realidade, com isso podem se tornar seres mais íntegros, dignos e capazes de transformar tanto a si como as pessoas à sua volta por meio do diálogo, do respeito, do pensar e do atuar para o bem de todos os seres. Quem sabe, possamos nos tornar mais compreensivos, inclusivos, e mais abertos ao encontro, para juntos construirmos uma cultura de paz, justiça e cura da Terra e de todos os seres.

Você acredita que as mensagens contidas em Despertar inspirado possam realmente ajudar as pessoas em um momento tão propício à falta de esperança?

Monja – “Esperança de esperançar”, como dizia Paulo Freire. De fazer acontecer, de estimular para que aconteça, para que a transformação ocorra em todos nós. Estamos oferecendo o que eu chamo de “mente Buda”: mente iluminada, mente desperta. Inspirações para o despertar da consciência humana, de forma a desenvolver o nosso mais elevado potencial – sempre para o bem de todos os seres. Podemos perceber que estamos todos interligados, coexistindo com todas as formas de vida do planeta, que sem as outras formas de vida nós não temos chance de sobreviver. Esse despertar nos leva a cuidar e a respeitar todas as formas de vida. Precisamos uns dos outros, dependemos uns dos outros. A rede da interdependência é um dos selos que confirmam os ensinamentos de Buda. Tudo está se transformando incessantemente. Todos nós, tudo o que existe. Podemos escolher o rumo das transformações: mais vacinas, mais remédios para todos, menos abusos da vida silvestre, manutenção do compromisso com a Agenda 2030.

Qual é a perspectiva do budismo em relação à crença em Deus?

Monja – Não tenho nenhuma expectativa quanto a reverter o número de ateus no mundo para um maior número de teístas. A pergunta principal, que todos deveriam fazer e procurar respostas, vai além de teísmo e do ateísmo. Budismo não tem conceito de Deus. Quando ao Buda histórico foi perguntada qual seria a causa primeira, visto que ensinava a lei de causa, condição e efeito, ele silenciou. Buda não é um Deus. Buda significa “o desperto”, e geralmente se refere ao Buda histórico que viveu na Índia há mais de 2600 anos. Descrevemos a natureza Buda, presente da menor partícula ao maior espaço, dizemos que seres humanos podem despertar e viver de modo mais harmonioso, sábio e compassivo, e nos lembramos, celebramos e respeitamos o Buda histórico: Xaquiamuni – o sábio da família Xaquia.

E quanto à religião?

Monja – A inteligência espiritual, como o professor Frances Torralba, da Universidade de Barcelona, insiste em nos lembrar, independe de envolvimentos em algum grupo religioso, alguma seita, alguma dependência emocional a algum mestre ou guru.Inteligência espiritual é comum a todos os seres humanos, é o que nos leva a questionar o que é vida, o que é morte, o que é Deus ou Deusa, o que são Deuses ou Deusas? O que estamos fazendo com a nossa existência? O que podemos fazer? Como conhecer intimamente os movimentos e funções da mente pensante e da mente não pensante?Há tantas perguntas e inúmeras respostas, analogias, parábolas, meios hábeis. É uma inteligência a ser desenvolvida e apurada, como as outras inteligências, quer sejam para matemática, física, química, filosofia, letras, direito, história, geografia, computação e a ciência de explicar, de poder transformar um assunto considerado árduo e difícil em prazeroso e profundo.Desenvolver nossas capacidades pensantes para nunca sermos enganados, nem por nós mesmos, pela nossa mente, muito menos por falsos líderes, falsos profetas, falsos gurus.Logo, a necessidade do “despertar inspirado”.

E você, professor, o que pensa sobre Deus e religião?

Clóvis –Penso num Deus de amor e perdão. E penso na possibilidade de um homem, que é feito a sua imagem e semelhança, viver manifestando o divino que nele há. Portanto, um homem de amor e perdão. Isso tem pouco a ver com a tirania e o autoritarismo. Isso tem muito a ver com a generosidade, a solidariedade e a fraternidade.

Ambas as obras que a Monja e você produziram juntos só foram possíveis por causa do exercício do diálogo produtivo, respeitoso, complementar. Qual é o “segredo” para saber dialogar assim?

Clóvis –Em um diálogo, a intervenção do outro é muito poderosa. Esse discurso não existiria se não tivesse havido aquela intervenção, portanto, a condição primária de um diálogo enriquecedor é o respeito pela intervenção do outro.

Eduardo Ribeiro Divulgação
Eduardo Ribeiro Divulgação
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