entrevista

Juventude e trabalho

15 de abril de 2021
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Diante das altas taxas de desemprego entre os jovens, o debate sobre a formação profissional como possibilidade de inserção qualificada no mundo do trabalho vem à superfície. Se a falta de uma ponte firme de condução da escola ao trabalho é problema antigo no Brasil, a situação ficou mais aguda na pandemia. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a taxa média de desemprego em 2020 entre pessoas de 18 a 24 anos atingiu a marca de 29,8%, a maior da série histórica.

Em conversa com a PB, Ana Inoue, superintendente do Itaú Educação e Trabalho, chama a atenção para a importância de se repensar as perspectivas de formação do jovem já a partir do ensino médio. E o momento se faz propício, sendo que, com a implementação do novo ensino médio, a Educação Profissional e Tecnológica (EPT) passa a ser um dos itinerários.

“Não teremos um país totalmente desenvolvido se não tivermos uma oferta ampla de educação profissional e tecnológica.”

Gostaria de começar pedindo a você uma avaliação do modelo de educação profissional e tecnológica adotado atualmente no Brasil, que, agora, passa a integrar os itinerários do ensino médio…

O modelo proposto pela Lei 13.415 de 2017 está em processo de implementação e representará um avanço em relação ao modelo atual por integrar a Educação Profissional e Tecnológica (EPT) à educação básica, permitindo mais articulação entre a formação geral e a formação para o mundo do trabalho. Além disso, terá maior possibilidade de escala, uma vez que todas as escolas de ensino médio poderão ofertar EPT. No entanto, para que estas mudanças representem um ganho efetivo para o País, é determinante que esta expansão seja acompanhada rigorosamente de alta qualidade e esteja conectada às aspirações da juventude, à demanda do setor produtivo, ao plano de desenvolvimento econômico nacional e ao trabalho do futuro. 

Essa mudança traz também uma importante transformação na perspectiva proposta pela EPT, que passa a representar uma etapa da formação do jovem, uma oportunidade de articular saberes em contextos diversos e de promover ampliação das aprendizagens e da formação profissional de acordo com os projetos pessoais e profissionais deste aluno, em um mundo em constante mudança, que exige adaptação, colaboração, inventividade e uso de novas tecnologias. A articulação entre as competências gerais e a formação para o mundo do trabalho pode representar também um novo sentido para os jovens permanecerem na escola.

Com base nos dados mais recentes do Censo da Educação Básica do Inep/MEC (9.486.847 de matriculados no ensino médio, dos quais 1.936.094 estão no médio profissional), você enxerga positivamente o status dos números da educação profissional no ensino médio?

Embora o crescimento de 1,1% de matrículas na educação profissional de 2019 para 2020, em que o número de alunos saltou de 1.914.749 para 1.936.094, possa ser considerado um sinal positivo, ainda não é o suficiente para comemorarmos. Podemos (e devemos) desejar mais do que isso. A EPT de nível médio, hoje, representa apenas 11% das matrículas do ensino médio, enquanto nos países da OCDE [Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico], esta média é de 42%.

Ainda estamos muito aquém das 4,8 milhões de vagas nos cursos técnicos de nível médio estabelecidas na meta 11 do Plano Nacional de Educação, e, infelizmente, a expansão ocorre de maneira lenta, beirando à estagnação. Até 2024, a intenção é chegar aos 5.224.584 de alunos matriculados.

Acreditamos que, para gerar mudanças irreversíveis em um cenário tão complexo, é importante o envolvimento efetivo de todos os atores envolvidos – setor produtivo, Poder Público, academia e sociedade civil. Assim, o Itaú Educação e Trabalho tem foco no desenvolvimento da formação profissional dos jovens a partir do ensino médio, apoiando tecnicamente as Secretarias de Educação e de Desenvolvimento Econômico dos Estados, a fim de viabilizar e aprimorar a oferta da EPT e a inserção digna dos jovens no mundo laboral. Tem parceria também com instituições como o Consed [Conselho Nacional de Secretários de Educação].

O que é preciso fazer para que o Brasil consiga atingir um foco maior no aumento da adesão à formação profissional no ensino médio, algo tão importante para melhorar os índices de qualificação dos jovens?

Antes de tudo, gostaria de ressaltar que os Estados brasileiros e o Distrito Federal estão em processo de reformulação dos currículos do ensino médio, e o Fundeb [Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica] passa a incluir o financiamento para o itinerário de formação técnica profissional do ensino médio. Estas mudanças sinalizam claramente um caminho de ampliação da educação profissional no País.

Isto posto, ressalto a necessidade de uma mudança conceitual sobre EPT. Explico: a EPT foi, por muito tempo, considerada uma formação alternativa à universidade, com menos prestígio por oferecer menos chances de desenvolvimento e crescimento profissionais. Considerando os impactos que tecnologia, globalização, sustentabilidade, demografia e legislação trabalhista, entre outros, terão sobre a organização do trabalho, temos um mundo em constante transformação e a necessidade de pessoas que consigam se adaptar e se dispor a uma aprendizagem contínua. Portanto, precisaremos reorganizar, também os caminhos de formação profissional dos jovens. A escola, a educação profissional e a universidade devem estar articuladas de forma a favorecer a formação e a mobilidade neste futuro próximo. Isso determina que a escola seja ágil e criativa, um espaço de diálogo com os interesses dos jovens e o que se anuncia para o mundo do trabalho.

É esta escola que defendemos: onde haja mais articulação entre as formações geral e a profissional, dada a realidade de mudanças tecnológicas e de organização do trabalho, que requerem trabalhadores com múltiplas habilidades, autonomia e mais flexibilidade. Neste cenário, os jovens necessitam de conhecimentos, tanto acadêmicos quanto do universo laboral, para que possam se desenvolver individual, social e profissionalmente.

Você acha que a cultura do entendimento sobre a educação profissional, que, por anos, tem sido vista como reservada à baixa renda, ainda prejudica a adesão dos estudantes à educação profissional e tecnológica?

A visão estereotipada sobre a EPT não tem mais espaço no mundo moderno e globalizado em que vivemos. Não teremos um país totalmente desenvolvido se não tivermos uma oferta ampla de ensino profissional tecnológico, sempre articulado com uma formação geral robusta.

Os jovens querem a EPT. Fizemos uma pesquisa, em 2016, junto com o movimento Todos pela Educação, com jovens de todo o Brasil, e 76% dos entrevistados afirmaram que trocariam um terço dos componentes curriculares das áreas do conhecimento por componentes técnicos. Outra pesquisa, conduzida pelo Porvir, destaca este mesmo ponto. A formação para o mundo do trabalho é um desejo dos jovens. 

O que devemos buscar é a construção de percursos formativos possíveis que ampliem a formação profissional desses alunos e permitam a sua inserção no mundo do trabalho, que se anuncia em constante transformação e exigirá profissionais capazes de aprender sempre.

Há milhões de jovens sem estudar e sem trabalhar no Brasil. O mundo do trabalho é extremamente exigente e requer profissionais capacitados. Como fazer esta ponte entre a escola e o setor produtivo? Estamos trabalhando intensamente na aproximação destes agentes, para conseguir adaptar os currículos dos cursos técnicos às reais necessidades de cada segmento produtivo.

O que falta para que o Brasil consiga firmar uma proximidade maior com o setor empresarial, como se dá nos modelos elogiados e seguidos por referências mundiais, como Alemanha e Reino Unido?

Em primeiro lugar, é preciso que o setor empresarial acredite na educação profissional tecnológica. Estamos num momento especialmente propício, de mudanças significativas sendo processadas pelos Estados: currículos, normativas, escolha de cursos a serem ofertados e financiamento do itinerário de formação profissional pelo Fundeb. Tudo isso abre uma grande oportunidade para o setor produtivo se aproximar e participar deste processo. Em países com oferta de EPT de alta qualidade, a cooperação com empregadores é a chave. São as associações dos diversos setores que apoiam a certificação dos cursos, por exemplo, e atualizam os currículos em parceria com o Estado. Desta forma, as competências trabalhadas na escola estão sempre alinhadas às demandas de cada setor, permitindo ao jovem um desenvolvimento profissional atualizado e a flexibilidade necessária a um mundo laboral em constante transformação, permitindo o direcionamento necessário para crescer nas profissões do futuro.

Em muitos sistemas internacionais de EPT, fica evidente a participação profícua das associações por setor produtivo nas diferentes etapas da oferta desta modalidade de ensino, desde a atualização curricular, a avaliação e a certificação de competências até os estágios nas empresas, contribuindo, assim, para a robustez da formação profissional dos jovens. Devemos ressaltar que uma parte importante da formação profissional deve ocorrer no local de trabalho, à semelhança da formação médica, que oferece a residência em hospitais e situações reais sob supervisão.

Hoje, o Brasil ocupa a 71ª posição em um ranking de competitividade mundial que analisa 141 países. A falta de jovens preparados para o mundo do trabalho é um dos fatores considerados. A educação profissional, ofertada em escala, é estratégica para o setor produtivo e, alinhada às demandas dos diferentes setores, garante formação de qualidade para os jovens no mundo do trabalho.

Como as ferramentas de inovação digital podem ser aliadas para melhorar a qualidade e o acesso do ensino profissional no Brasil, considerando, é claro, os entraves econômicos e estruturais?

O índice de competitividade publicado pelo Fórum Econômico Mundial mostra que quando se trata das competências digitais necessárias ao trabalho, o Brasil ocupa o 133º lugar de 140 países.

De acordo com estimativas da OCDE, 14% dos trabalhos podem ser totalmente impactados pela tecnologia nos próximos anos, e um adicional de 32% dos empregos podem sofrer mudanças significativas graças à automação. Ao mesmo tempo, o progresso tecnológico cria novos empregos, geralmente com habilidades muito diferentes daquelas exigidas pelos trabalhos que se tornaram obsoletos.

A parcela de empregos altamente qualificados aumentou 25% nas últimas duas décadas. Hoje, embora 50% das ocupações ocorram em setores de tecnologia, seis em cada dez adultos não têm conhecimentos em Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC) ou nenhuma experiência em informática, criando um descompasso entre as exigências do mundo do trabalho e a formação profissional em curso.

O Itaú Educação e Trabalho vem dialogando com organismos internacionais, como a OCDE, academia – como USP e FGV – e organizações públicas e da sociedade civil no Brasil, com objetivo de contribuir para que a EPT consiga avançar a fim de obtermos um sistema de educação profissional bem projetado, estruturado e de qualidade.

A crise do covid-19 está acelerando algumas dessas mudanças, incluindo a remodelagem dos locais de trabalho e o mundo laboral, criando necessidades de novas habilidades. Além disso, a crise está tornando as necessidades de educação e formação profissional relevantes oportunidades ainda mais urgentes, pois os jovens são confrontados com transições particularmente difíceis para o mundo do trabalho.

Eduardo Ribeiro Divulgação
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