entrevista

Manoel Fernandes

19 de agosto de 2021
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O Brasil irá às urnas só daqui a 14 meses, mas a eleição presidencial já começou faz tempo nas redes sociais, argumenta o sócio-diretor da consultoria Bites. Há 13 anos, a empresa fornece informações e análises de dados para a tomada de decisões estratégicas dos seus clientes.

É no ambiente digital, crava Manoel Fernandes, que os dois principais pré-candidatos à presidência estão disputando narrativas, angariando alianças, agredindo-se mutuamente e, como pano de fundo, se digladiando em torno de métricas que não eram relevantes até o último pleito presidencial, como “engajamento” e “número de seguidores”. Até agora, o atual presidente, Jair Bolsonaro, está em vantagem: ele reúne, sozinho, quatro vezes mais pessoas em seus perfis do que Lula, do PT, que tentará voltar ao poder depois de 11 anos. Mais do que isso, tem o quádruplo do volume de interações do petista.

A eleição de 2022 será mais polarizada do que a última, vencida por Bolsonaro, não apenas pela dinâmica das redes sociais, que dependem da tensão permanente entre os polos, mas também pela ausência de uma candidatura que dê conta das demandas do centro. E será, assim como em 2018, marcada mais pela desinformação do que pelas propostas políticas. “Será uma carnificina. Vamos ver um volume expressivo de fake news muito mais sofisticadas do que as de 2018. É uma utopia achar que vamos resolver este problema”, enfatiza ele.

Na entrevista a seguir, Fernandes ainda esmiuça as narrativas das bolhas bolsonaristas nas redes sociais e como elas conseguiram chegar ao debate público, além de situar o posicionamento das forças capazes de vencê-las.

“A formação da opinião do eleitor no ano que vem acontecerá, assim como foi em 2018, pela internet. Isso significa principalmente que ele será muito impactado pelas bolhas – tanto as petistas quanto as bolsonaristas –, porque o centro está silencioso.”

O que os fluxos de interações nas redes sociais já permitem apontar sobre as eleições de 2022?

A formação da opinião do eleitor no ano que vem acontecerá, assim como foi em 2018, pela internet. Isso significa principalmente que ele será muito impactado pelas bolhas – tanto as petistas quanto as bolsonaristas –, porque o centro está silencioso. O desafio atual de análise das redes sociais, neste sentido, é identificar os sinais que expressem os padrões desse centro. Mas não há dúvida de que exista uma grande força online do bolsonarismo, com capacidade de articulação e propagação superior aos seus oponentes. A verdade é que a oposição ainda não fez a sua transformação digital, para usar um termo comum do mundo dos negócios. Ela não conseguiu digitalizar sua militância, enquanto o bolsonarismo já nasceu dentro da internet. Em 2018, Bolsonaro estava sozinho lá. Então, vejo que vamos chegar à eleição com o presidente, e sua rede de apoiadores, ainda conseguindo impor narrativas com muita força. Basta ver agora a questão do voto impresso, por exemplo, que era uma discussão pontual, pequeníssima, e que voltou ao debate público por causa das redes. Esta foi uma narrativa bolsonarista construída em paralelo à pandemia. E não são só robôs que fazem isso: são pessoas que dão suporte a este discurso. Não à toa, ele ainda mantém uma média de aprovação em torno de 30% da população. 

As redes mostram, então, uma tendência de polarização mais clara entre Lula e Bolsonaro do que o surgimento de uma candidatura de centro?

Hoje, este é o cenário. A questão é que precisamos saber o que o centro quer. Uma terceira candidatura só conseguirá quebrar essa polarização se identificar os padrões que o centro político deseja. Por enquanto, isso não aconteceu. O que existe atualmente são bolhas bolsonaristas e petistas que sustentam os dois lados. É interessante observar que as redes de Lula e Bolsonaro não têm mais força do que já teriam. Assim, o que estão disputando são as “franjas” do centro: Bolsonaro com a centro-direita, e Lula e o PT, com a centro-esquerda. O ponto é que há um contingente muito grande neste meio, que podemos chamar de “centro do centro’, e que não vê nenhuma opção política para as suas demandas, mas que pode decidir a eleição – inclusive no sentido de gerar uma grande taxa de abstenção.

Qual é a demanda do “centro do centro”?

Ele não quer a volta do PT, porque entende que o ciclo petista acabou. Até por isso foi um grupo que ajudou a garantir a vitória de Bolsonaro três anos atrás. Entretanto, a gestão ruim da pandemia impactou muito a imagem do presidente para este perfil. Na eleição de 2018, o que definiu o resultado foi a composição de quatro grupos: os conservadores nos costumes, as pessoas com medo da violência (aquelas mais simpáticas à liberalização de armas, por exemplo), os liberais apoiadores da proposta econômica de Paulo Guedes e os antipetistas. Desses, o grupo mais fiel a Bolsonaro é o dos conservadores. Os liberais são pragmáticos e, entre uma disputa entre Lula e Bolsonaro, podem permanecer com o presidente – caso prometa manter a sua estratégia privatista. Já os antipetistas querem tudo, menos o PT. O ponto, no entanto, é que esses antipetistas também se afastaram demais de Bolsonaro e dificilmente voltarão a apoiá-lo, por causa da gestão que fez da pandemia. Este é o grupo que está completamente órfão, hoje, e que demanda uma terceira via. E é para ele que esta candidatura teria que se dirigir.

As redes sociais mostram que, entre todos os fatos, é a gestão ruim da pandemia que prejudica a estratégia de reeleição do presidente?

Sim, até porque ficou muito claro que faltou organização, que o governo federal deveria fazer mais do que fez e, principalmente, que poderia ter comprado as vacinas antes. Este fato atingiu as camadas mais altas com muita intensidade.

E a corrupção? Não teve apelo?

A corrupção não é um fator determinante, porque ainda não existe uma relação direta entre o presidente Bolsonaro e as investigações da CPI da Covid. E tem outro detalhe: a CPI não trouxe nada próximo àquilo que deu força à Lava Jato, por exemplo. O que há ali é uma disputa política entre um grupo do Congresso com o governo, sem uma terceira força atuando, como foi o Judiciário no período lavajatista. 

As redes terão, no ano que vem, o mesmo peso que tiveram no pleito de 2018?

Nossos dados indicam que elas serão ainda mais polarizadas, até porque a oposição estará mais preparada. Em 2018, ela simplesmente ignorou o mundo digital, achando que o que faria a diferença, no fim, seriam os modelos clássicos de campanha política. Agora não: a oposição já percebeu que foi ultrapassada por causa das redes sociais e vai diminuir esta desvantagem. O fato é que o aprendizado das bolhas bolsonaristas é constante. Não se trata só de redes sociais, mas de um ecossistema de informação que envolve sites e perfis, em diversos lugares, que sabem atuar muito bem. Nas eleições de 2020, porém, nós já identificamos dois grandes fenômenos que indicam esta retomada do outro lado do espectro: as campanhas de Guilherme Boulos, em São Paulo, e de Manuela d’Ávila, no Rio Grande do Sul. Eles aprenderam a fazer o que o PT ainda não faz. Lula e o PT, por exemplo, não sabem trabalhar as redes – e precisam aprender, se quiserem ter chances. Para você ter uma ideia, os perfis de Lula ganharam 1,8 milhão de seguidores de janeiro até agora, promovendo 72,6 milhões de interações. São números razoáveis, mas ao comparar com os do Bolsonaro, entende melhor o argumento: no mesmo período, o presidente ganhou 1,3 milhão de seguidores e teve 289 milhões de interações. Isso considerando que ele é seguido por 40 milhões de pessoas entre todos os seus perfis – quatro vezes mais do que Lula. Estamos falando aqui de um agente digital com muito mais capacidade de promover interações do que o seu oponente. Considerando ainda que as pesquisas mostram que os brasileiros se informam mais por redes sociais do que pela imprensa, esta realidade é muito significativa. É por isso que, em 2022, Bolsonaro vai precisar só da sua organização digital, enquanto a oposição terá de correr atrás.

Os dados da Bites mostram também que Lula e Bolsonaro aumentaram suas interações durante a CPI da Covid, no Senado. Qual é a qualidade destas variações?

O ato de interagir com um post de qualquer natureza digital é sempre um ato de apoio – ou de ignorância, caso a intenção seja criticar. Isso porque, ao fazer uma crítica, é preciso, ao mesmo tempo, levar quem está sendo criticado para dentro da sua rede. E aí, por mais que você seja crítico àquela pessoa, alguém da sua rede terá afinidade com ela. Do ponto de vista qualitativo, esse é o grande ponto sobre o alcance dos perfis do presidente. Se Lula é antítese de Bolsonaro na eleição e, assim, tende a capturar todo o antibolsonarismo, por que as pessoas não estão interagindo com as redes dele? Por que Lula não está crescendo no mundo online tanto quanto o presidente? Essa é a grande questão. Até porque, na nossa análise, este fluxo qualitativo não está saindo de um e indo para o outro: ele está paralisado. 

“Não se trata só de redes sociais, mas de um ecossistema de informação que envolve sites e perfis, em diversos lugares, que sabem atuar muito bem.”

Qual é a relevância das mídias tradicionais, como TV e rádio, no processo eleitoral?

A grande plataforma de comunicação do Brasil, hoje, é o WhatsApp. Isso porque o aplicativo permite uma facilidade de interpretação da mensagem, e é por isso que as estratégias são mais baseadas em vídeo, em áudio e, só depois, em texto. Então, não adianta nada ser um grande comunicador, como é o caso do Datena, se não consegue digitalizar este ativo. Por essa perspectiva, é possível também perceber melhor os erros de análise sobre Bolsonaro: ele não nasceu em 2018, mas em 2014, quando disse que seria candidato na eleição seguinte e começou a atuar a partir disso. Hoje, o que os políticos estão disputando é a atenção dos eleitores no mundo digital. Só que, neste mundo, a disputa é com marcas, produtos, amigos, cachorros fofinhos, etc. É por isso que a política precisa encontrar um meio de se destacar no meio de todas estas informações, e Bolsonaro encontrou um jeito de fazer isso. Ele não tinha uma agenda política, mas falava de forma muito assertiva; tampouco tinha propostas, mas explorou uma das facetas das redes sociais, que é a tensão permanente, com um discurso agressivo. Tanto é que, agora, faz com que seus oponentes obrigatoriamente assumam o mesmo tom. Caso contrário, eles não chamam a atenção.

O fenômeno das fake news ainda será relevante na decisão do voto dos brasileiros?

Será uma carnificina. Vamos ver um volume expressivo de fake news muito mais sofisticadas do que as de 2018. É uma utopia achar que vamos resolver este problema. Nós precisávamos ter sistemas transparentes, mas também ter educação, e, como isso não vai acontecer, teremos que conviver com as fake news, assim como aprenderemos a fazer com o vírus da covid-19. Contudo, tenho outro ponto: não existe fake news. Toda notícia é, por sua natureza, verdadeira. O que existe são mentiras travestidas de notícia. É muito mais sobre desinformações, principalmente porque não há nenhum controle sobre aonde elas vão. Esta é uma questão é estrutural: uma plataforma de mídia social chama a atenção sempre pelo número de usuários que tem e pela quantidade de interações que promovem. Nela, o que vai atrair mais gente é sempre uma desinformação. É um dilema até para as plataformas, que sabem que precisam conter isso, mas também entendem que, ao fazê-lo, perderão audiência e, por consequência, receitas. 

Especificamente no caso das bases bolsonaristas, o que há de particular na forma como interagem online?

Eles entenderam a dinâmica das redes. Não há limite nenhum dos pontos de vista de ataques e de construção de narrativas, ao contrário da oposição. Não checam nenhuma informação, só passam adiante desesperadamente. E estão muito encastelados nas suas bolhas de informação, sem nenhum acesso à mídia tradicional ou ao contraditório. Bolsonaro é o único candidato deste grupo à direita, porque não há outro nome para disputar este papel com ele. Enquanto a oposição segue sem se entender, com três, quatro candidatos, toda esta estrutura vai estar à disposição do presidente.

Como Bolsonaro consegue levar as pautas das bolhas dele para fora, a exemplo do voto impresso?

Isso acontece porque a mídia tradicional, em oposição ao bolsonarismo, compra a narrativa. Quando se nega alguma coisa, aceita-se a premissa de que aquela coisa é possível – e, por isso, é preciso negá-la. A postura da imprensa é parecida à do ateu, que aceita a existência de Deus, mas a nega. É diferente do agnóstico, que nem sequer acredita nessa existência. Em outras palavras, aceita debater premissas que não deveriam ser debatidas, como é o caso do voto impresso. À medida que o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Luís Roberto Barroso, precisa se posicionar sobre o tema, é porque a discussão já saiu das bolhas e passou a contaminar outros lugares que, antes, estavam imunes. Os bolsonaristas estão conseguindo trazer a oposição para dentro da arena deles, mesmo sabendo que podem perder o jogo. Eles ficam lá “batendo roupa” até o outro lado cansar.

Se não fossem as redes, o bolsonarismo teria a força que tem?

Não. O bolsonarismo é fruto das frustrações da sociedade brasileira, que fizeram com que houvesse uma polarização fortíssima potencializada pelas redes sociais. 

“O ato de interagir com um post de qualquer natureza digital é sempre um ato de apoio – ou de ignorância, caso a intenção seja criticar. Isso porque, ao fazer uma crítica, é preciso, ao mesmo tempo, levar quem está sendo criticado para dentro da sua rede.”

E as bases de Lula? Como se comportam?

São bases muito autocentradas, assim como as bolsonaristas, mas sem a capacidade de entendimento do que é o mundo digital. A militância de esquerda ainda acredita que a rua é o suficiente, quando, na verdade, a rua é importante, mas depende das redes para se tornarem fortes.

Nenhum presidente brasileiro poderá ficar sem fazer lives no Facebook?

Nenhum. Bolsonaro criou um padrão que os aliados entendem como um sinal de transparência, e, do lado dele, é uma estratégia de imposição da narrativa em contraponto à mídia tradicional. É um padrão que terá de ser seguido, porque as pessoas se acostumaram a ele. Quem fizer menos do que isso, será cobrado.

Qual é a melhor estratégia dos candidatos para aumentar as interações nas redes sociais? Ela já deveria ser adotada?

A melhor estratégia é escutar as redes, entender os fluxos de opinião e atuar com base neles. Também não adianta começar uma campanha em abril do ano que vem, porque o que elege um candidato, hoje, é a sua densidade política, traduzida em número de votos, e a sua densidade digital. Um candidato que não tem nem uma, nem outra não tem chance. Um candidato só com densidade política pode se eleger, mas com dificuldade, assim como um só com densidade digital. Então, é preciso ter ambos. Bolsonaro não começou em 2018, mas em 2014, quando disse que seria o candidato da direita na eleição seguinte e, dali em diante, passou a explorar as redes sociais de forma intensa. Em 2018, já era o deputado com o maior número de seguidores da Câmara Federal. Ninguém via, mas já estávamos estava observando. Teve uma vez, naquela época, que o vimos chegar ao aeroporto de uma cidade do interior e ser recebido por uma centena de pessoas. Isso mostra como se construiu, durante quatro anos, sem que ninguém notasse.

Vinícius Mendes Divulgação
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