entrevista

Música para os bolsos

20 de janeiro de 2021
R

Rap para ensinar finanças. A economista Gabriela Mendes Chaves enxergou na cultura hip-hop uma maneira de orientar a população mais carente sobre temas do dia a dia, como formação de reservas financeiras, adminsitração de dívidas, empreendedorismo e padrões de consumo, além das melhores formas de lidar com o dinheiro durante e depois do covid-19. “Não existe mais o novo normal, mas o mundo pré-pandemia e o mundo pós-pandemia”, diz a economista, formada pela PUC-SP e fundadora da Nofront, escola que leva educação financeira a comunidades periféricas.

ESTE TEXTO FOI PUBLICADO NA EDIÇÃO ESPECIAL DA PB EM PARCERIA COM O CANAL UM BRASIL. AO LONGO DO MÊS DE JANEIRO, O CONTEÚDO COMPLETO DA REVISTA SERÁ OFERECIDO NO SITE DA PB.

Qual é a sua história com o rap?

Cresci em Taboão da Serra, que é bem próximo ao Capão Redondo [bairro da periferia da Zona Sul de São Paulo]. A cultura hip-hop do rap sempre esteve muito presente na minha vida. O primeiro show ao vivo que assisti foi ao do Racionais MC’s, aos seis anos.

Como decidiu que estudaria Economia?

Sempre tive senso crítico bastante aguçado. Então, queria ser advogada. Acabei conseguindo uma bolsa na Faculdade de Economia e decidi conhecer a profissão. Meus pais não vêm de uma tradição de economistas. Meu pai era metalúrgico e minha mãe, assistente social. Quando ingressei no mercado financeiro, descobri o universo de possibilidades quando falamos da relação com o dinheiro e de investimentos. Por um lado, quando estava trabalhando no centro da cidade, via as pessoas conquistando as coisas por meio de investimentos. No entanto, por outro, quando voltava para casa, havia um panorama totalmente diferente: pessoas endividadas e nenhuma reserva de emergência. Comecei a pensar em como poderia criar um método que fizesse os outros entenderem que todo mundo lida com Economia. Temos esta ideia de que é assunto de gente rica, mas é a ciência que estuda como produzimos e distribuímos as coisas dentro de uma sociedade. É importante entendermos que existem os pequenos agentes: o mercadinho, o açougue – que são muito importantes para a construção desta malha da economia. Foi aí que surgiu a ideia de trazer a economia pela ótica do rap, numa perspectiva de mostrar como isso impacta diretamente a nossa vida. E também com o recorte racial, porque identificamos que muitas questões de educação financeira, em geral, não olham para a especificidade da população negra no Brasil, que sistematicamente ganha menos do que a branca e sofreu um processo histórico de escravização e precarização do trabalho.

Qual o perfil dos alunos?

Quase 70% são mulheres, e não há uma faixa etária definida. Inclusive, há um fenômeno muito interessante: várias gerações do mesmo núcleo familiar fazendo o curso para aprender uma nova relação com o dinheiro. Em muitos lares, dinheiro é motivo de briga e violência. Trabalhamos a perspectiva de conseguir integrar a família nesta discussão para termos, de fato, uma mudança sobre como lidamos com finanças – não só individualmente.

As mulheres chefiam muitos lares brasileiros e são a principal fonte de renda ou têm o papel de administrar as finanças, não é?!

Exato. Quem fala que as mulheres são descontroladas com o dinheiro, desconhece a realidade de milhões que chefiam lares e precisam sustentar famílias inteiras, por vezes, com dois ou três salários mínimos. Estamos falando de ressignificar a economia, entender que todo mundo lida com dinheiro, inclusive as donas de casa, porque elas são responsáveis pela economia doméstica. Falar de economia não é só das pessoas que estão comprando e vendendo ações todos os dias. Quando compramos no mercadinho do bairro, movimentamos aquela economia. Quando decido poupar R$ 10, já é melhor do que zero.

Como é a metodologia? Onde entra o rap?

O rap entra como base para refletirmos sobre o racismo no Brasil e a estrutura da periferia. As chefes de lares são excelentes administradoras, porque muitas têm que administrar um frango inteiro para cinco pessoas. E o rap é muito importante para conseguirmos trazer referência própria a fim de falar de um tema muito difícil: dinheiro. No Brasil, temos a tendência de copiar a Europa ou os Estados Unidos. Qual é, de fato, a referência do Brasil? Tem a Europa, mas tem muita coisa da África. O rap traz a perspectiva de partirmos de um lugar próprio, de um diagnóstico próprio, e desenhar caminhos com processos próprios.

Como é trabalhada, nas aulas, a questão do consumo?

Trabalhamos para não criminalizar a ostentação, entendendo que, socialmente, a ostentação é problematizada quando ela está no CEP errado. Sempre houve carros de luxo. Roupas de marca, idem. Quando é que estas coisas se tornam ostentação? Quando está na favela, e não no bairro de elite. Porque se estão no bairro de elite, é normal. Não chamamos de ostentação quando um cara como Eike Batista tem um jato particular. Espera-se que ele tenha. Contudo, quando falamos do moleque na favela, ele não pode querer ter um tênis de R$ 1 mil. Esta criminalização da ostentação é nociva. Às vezes, é o consumo que vai dar “um gás” para o cara aguentar o emprego, procurar um trabalho melhor, dar “o gás” para ele estudar. É muito perverso penalizar o desejo da periferia de ter uma vida melhor. Trabalhamos numa perspectiva de que está tudo bem em querer ter o que se quer, mas é muito importante planejar para conquistar tudo isto.

Quais as principais dúvidas nas aulas?

Estruturação financeira, dívidas e como se organizar. E, neste momento, em razão do que está acontecendo na economia em relação aos empregos, há muitas perguntas sobre empreendedorismo.

“Quem fala que as mulheres são descontroladas com o dinheiro, desconhece a realidade de milhões que chefiam lares e precisam sustentar famílias inteiras, por vezes, com dois ou três salários mínimos”

Quais são as perspectivas para as pessoas que estão em busca de um trabalho, lidando com as próprias dívidas e, ao mesmo tempo, querendo administrar para que não falte nada em casa?

Estamos vivendo uma recessão econômica – o que significa que o País está produzindo cada vez menos. Se produzimos menos, contratamos menos. Se contratamos menos, temos menos postos de trabalho. Isso coloca a população numa situação de grande fragilidade. É um momento de muita cautela financeira. Não é hora para grandes investimentos ou grandes dívidas; é preciso criar reservas financeiras. Para esta pessoa que está apertada, a recomendação é: priorize o seu sustento.

Quais políticas públicas são urgentes?

A renda mínima resolveria alguns dos problemas, como o País não voltar para o Mapa da Fome. Precisamos de obras de infraestrutura e do Estado para recuperar a economia.

E as grandes reformas em discussão?

O Brasil precisa de uma Reforma Tributária urgente e discutir uma Reforma Agrária. É necessário criar mecanismos de tributação sobre dividendos e tributações que incidam sobre a renda. O Imposto de Renda (IR) onera excessivamente a classe média e não tributa os mais ricos. Há estudos que comprovam que taxações muito simples em grandes fortunas permitem investimentos gigantescos.

É mais difícil ensinar as pessoas sobre como investir com uma taxa de juros mais baixa?

A taxa de juros pode ser de 50% ou de 1%, que o conceito para explicar juros compostos é o mesmo. Estamos falando de uma população que está na caderneta de poupança. Então, falar de Tesouro Público, mesmo com uma taxa de juros baixa, é um avanço enorme na vida financeira. Neste momento, é necessário criar reservas de valor. Esta é uma lição de casa que o brasileiro ainda não tem: a cultura de uma reserva de emergência.

A que atribui a dificuldade da população em relação à economia ou a temas relativos à economia?

Primeiro, uma base escolar matemática muito traumatizante para a maior parte das pessoas. Isso faz com que elas criem bloqueio com tudo o que envolva números. Há também uma cultura de distanciamento da economia.

Como enxerga o Brasil pós-pandemia?

Empobrecido, com mais concentração de renda, além de oligopólios e monopólios fortalecidos. Mas também um Brasil de resistência, onde as mulheres negras estão organizadas, a população LGBT está organizada; onde atores que sempre estiveram fora do tabuleiro estão, agora, chegando e falando: “Não há jogo sem a nossa peça”. Um Brasil de transformações, que desejo muito que sejam menos dolorosas e violentas. A polaridade que se criou na sociedade brasileira é muito nociva para o nosso avanço coletivo. Espero que a gente consiga, neste momento de isolamento e de silêncio, desenvolver mais a capacidade de escuta. É necessário para a sociedade debater, de maneira educada e pacífica, para se chegar ao consenso. Não existe mais o novo normal, mas o mundo pré-pandemia e o mundo pós-pandemia.

Entrevista concedida ao UM BRASIL – uma realização da FecomercioSP. UM BRASIL é uma plataforma multimídia composta por entrevistas, debates e documentários com nomes dos meios acadêmico, intelectual e empresarial. O conteúdo desses encontros aborda questões importantes sobre os quadros econômico, político e social do Brasil. Confira aqui a entrevista completa.

Leda Rosa Camila Portela
Leda Rosa Camila Portela
receba a nossa newsletter
seta