entrevista

Natalia Pasternak

16 de outubro de 2020
F

Formada em Biologia pela Universidade de São Paulo (USP), Natalia Pasternak Taschner tem PhD com pós-doutorado em Microbiologia pelo Instituto de Ciências Biomédicas da mesma universidade (ICB-USP), onde foi pesquisadora de 2018 até este ano.

Como divulgadora científica, atua como publisher da revista Questão de Ciência e diretora-presidente do Instituto Questão de Ciência, o primeiro no País a promover os pensamentos crítico e racional, além de políticas públicas baseadas em evidências científicas. Em entrevista ao Site PB, Natalia comenta o progresso das vacinas contra o covid-19.

“O Brasil sempre foi um exemplo mundial de campanhas de imunização. Vamos cuidar para que permaneça assim.”

Há 163 vacinas em desenvolvimento contra o covid-19, das quais 26 já estão na fase dos testes clínicos, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Quais a senhora enxerga como mais promissoras? Por quê?

Todas as que estão em fase 3, ou seja, passaram bem pelas fases 1 e 2, de segurança e marcadores de imunidade, são igualmente promissoras. Elas se mostraram seguras e capazes de provocar uma resposta imune. Se funcionam ou não, ou seja, se são capazes de proteger contra a doença, só saberemos depois da fase 3, no momento em que testarmos a eficácia, em um número grande de pessoas, vacinando um grupo com a vacina e outro com placebo, e aí avaliando se a vacina protegeu mais pessoas da doença do que o placebo.

Pelo menos três vacinas já estão com testes clínicos realizados no Brasil, com a aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Como a senhora analisa o valor dessa contribuição brasileira? De que maneira o fato de termos brasileiros entre os voluntários melhora o estudo e/ou beneficia a população local?

As parcerias para o Brasil trazem acordos de colaboração importantes, tanto para aquisição das doses em si como para desenvolvimento de tecnologias e futuras parcerias internacionais. A maior vantagem que o Brasil oferece, além de ter a doença circulando aqui, o que permite os testes clínicos, é a tradição das nossas plantas vacinais – Butantan e Bio-Manguinhos – de produção e distribuição, assim como a organização de campanhas.

Qual a sua opinião sobre a vacina russa Sputnik V? Embora a maioria da comunidade científica esteja dizendo que ela não é confiável devido ao fato de não ter completado a terceira fase dos testes clínicos, sabemos que diversos países, e governos estaduais brasileiros (como o da Bahia), já fizeram acordos para trazê-la. Quanto nessa questão podemos creditar ao jogo geopolítico? 

A Sputnik publicou apenas dados das fases 1 e 2, que são insuficientes para liberação. Fazer acordos para testar em fase 3 no Brasil é bastante razoável, pelos motivos que falei acima, como qualquer outra vacina. Mas, para comercializar, é temerário, pois não existem dados disponíveis para submeter a uma avaliação da Anvisa. A agência não vai aprovar vacinas sem dados de fase 3. O uso político das vacinas é, infelizmente, uma realidade, não só para a Sputnik, mas para todas. Vacinas têm sido utilizadas por diversos governos como instrumentos políticos e eleitorais.

De acordo com pesquisa do Instituto Datafolha divulgada em agosto deste ano, 89% dos brasileiros têm intenção de se vacinarem assim que uma imunização estiver disponível. Entretanto, 9% dizem que não vão se vacinar. E sabemos que as taxas de imunizações contra outras doenças, como o sarampo, têm caído no Brasil. Como a senhora vê esses dados? 

Com preocupação. Apesar de o movimento antivacinas não ser predominante no Brasil, como é na Europa e nos Estados Unidos, ele tem crescido aqui. Pesquisa feita pela União Pró-Vacinas, da USP Ribeirão, mostra que postagens antivacinas em mídias sociais cresceram de forma significativa nos últimos meses. A queda da vacinação no Brasil não parece ser causada pelo movimento antivacinas, mas por problemas de importação, logística e distribuição. No entanto, o sentimento antivacinas pode crescer, impulsionado pela desconfiança gerada pela pressa e pela polarização política que envolvem as vacinas contra o covid-19, e é preciso ficar vigilante. O Brasil sempre foi um exemplo mundial de campanhas de imunização. Vamos cuidar para que permaneça assim.

O avanço das fake news sobre a vacina levou a OMS a declarar uma “infodemia” no mundo. Um estudo da plataforma Avaaz identificou que os sites que divulgam notícias falsas sobre saúde alcançam quatro vezes mais visualizações do que as páginas das dez principais instituições de saúde. De que maneira a senhora, na qualidade de divulgadora de ciência, encara esses fatos? E quais caminhos nós temos para mudar esse panorama?

Situações de emergência geram pânico, assim como uma necessidade muito grande de respostas rápidas e soluções fáceis, que geralmente estão erradas. Notícias falsas circulam mais justamente porque não têm compromisso com a verdade, não precisam justificar, explicar, citar fontes. Assim, fica difícil competir com um meme que diz “vacinas causam autismo”, e a resposta é um texto de mil palavras explicando por que se trata de uma mentira. A solução para isso está em educação científica e divulgação de qualidade. [Deve-se] aumentar o letramento científico, dando ferramentas à população para que não acreditem tão facilmente em qualquer notícia das mídias sociais, contando sempre com um contraponto científico disponível, em linguagem fácil e acessível para todos. Precisamos ter certeza de que sempre que a pessoa “der um Google” em “vacinas”, ela encontre nossas páginas, não só as de movimentos antivacinas.

“Certamente, quem puder pagar uma clínica particular poderá ter acesso a outras vacinas que não estejam no programa de imunização nacional.”

A interrupção dos testes da vacina AstraZeneca/Universidade de Oxford, que ocorreu no início de setembro, provocou grande alvoroço, embora os especialistas digam que esse tipo de pausa é absolutamente normal. O fato de todos estarmos ansiosos pela aprovação de uma vacina faz com que a imprensa acompanhe mais de perto o desenvolvimento. É natural. Mas será que nós, jornalistas, temos de refrear o desejo de informar em alguns casos, para prevenir possíveis impactos negativos sobre a percepção da notícia pela população? Como equilibrar transparência e responsabilidade? 

Creio que a informação precise estar disponível sempre, mas de forma clara e transparente, sem medo de comunicar as incertezas. Em meio a uma pandemia, é natural que existam muitas coisas que ainda não sabemos.

Tedros Adhanom, diretor-geral da OMS recomendou que, a partir do momento que tivermos uma vacina pronta, a imunização seja feita de maneira horizontal, isto é, que sejam vacinadas todas as pessoas dos grupos de maior risco em todos os países; em seguida, aquelas ainda vulneráveis de um segundo grupo e assim por diante. E que o critério não seja “vacinar todas as pessoas de um único país” em primeiro lugar, como a Rússia divulgou que é sua intenção, assim que a sua vacina esteja pronta. Como a senhora enxerga essa questão? O que seria mais justo? Haveria como garantir a vacinação “horizontal”? 

A iniciativa Covax, da OMS, pretende fazer exatamente isso, priorizando uma distribuição igualitária, garantindo que todos os países-membros sejam contemplados com doses para vacinar 20% de suas populações, para somente depois liberar a compra de mais doses. Nos acordos bilaterais, no entanto, cada governo é livre para fechar contrato com qualquer empresa que tenha registro nas agências regulatórias.

A vacina da empresa Moderna, por exemplo, deverá custar entre US$ 50 e US$ 60 (segundo notícia de julho do jornal Financial Times), mais cara do que outras já anunciadas, na casa dos US$ 10, como a de Oxford. Quem vai pagar a conta? Seriam os governos? Quando possivelmente tivermos várias vacinas aprovadas, os ricos teriam acesso mais rápido às vacinas, pagando pelas doses em clínicas particulares, ou, nesse caso, teremos uma distribuição equânime, sem interferência da desigualdade social?  

Quem paga a conta depende dos acordos bilaterais que os governos farão, e da adesão a programas globais como a Covax. Mas, certamente, quem puder pagar uma clínica particular poderá ter acesso a outras vacinas que não estejam no programa de imunização nacional, mas que possam ser importadas por iniciativas privadas se tiverem registro na Anvisa.

O Brasil integra a força-tarefa mundial para a produção da vacina. Teremos fôlego para produzir todas as doses que a população precisará?

No momento, nenhum país tem capacidade de produzir em escala, envasar, distribuir e montar as campanhas de vacinação completas. Isso requer investimento tanto em logística como em planejamento. No Brasil, há planos de ampliação do Instituto Butantan, em São Paulo, e do Bio-Manguinhos/Fiocruz, no Rio de Janeiro.

Como imagina que será o cenário quando tivermos uma vacina pronta?

É importante lembrar que as vacinas não serão “balas de prata” e que as primeiras não serão necessariamente as melhores. É possível que as pioneiras não ofereçam a melhor proteção, ou não funcionem bem em idosos, por exemplo. Por isso, é muito importante que tenhamos tantas vacinas, com diferentes tecnologias, sendo testadas. Também é importante ressaltar que após a aprovação das vacinas, começa um longo caminho de campanhas de vacinação,  processo que envolve logística, armazenamento, transporte, distribuição, aplicação e treinamento de agentes de saúde, além de vacinação por grupos prioritários. Vacina aprovada não é imediatamente vacina disponível nos postos de saúde.

Lúcia Helena de Camargo Divulgação
Lúcia Helena de Camargo Divulgação

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