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O papel social das empresas

16 de janeiro de 2024
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Para o diretor-presidente do Instituto Ethos, Caio Magri, é dever do setor privado atuar permanentemente no desenvolvimento da sociedade — não por meio de ações isoladas, mas mediante atuação perene numa missão intrínseca à cultura organizacional. “Neste momento, o maior desafio é que a responsabilidade social das empresas seja uma forma de gestão empresarial, capaz de reduzir as desigualdades.”

Em São Paulo, concedeu entrevista à Problemas Brasileiros durante a Conferência Ethos 360º.

O gestor do instituto destacou, ainda, como as pequenas e médias empresas têm condições de exercer o compromisso com a cidadania sem aumentar as despesas. Uma das medidas, segundo ele, está no processo seletivo, ao mencionar a importância da diversidade na hora da contratação.

“Se, no quadro profissional, há 15 homens brancos, é possível estabelecer uma meta de transição para contratar mulheres e pessoas negras, por exemplo, inserindo o negócio em um processo de inclusão. Não existe ação mais efetiva no combate às desigualdades do que gerar um posto de trabalho a mulheres negras.”

Magri também discutiu o trabalho escravo, a pacificação no ambiente profissional, a devastação da Amazônia, o racismo estrutural, entre outros temas atuais e de interesse da sociedade. Confira!

Em 2023, o Instituto Ethos completou 25 anos de avanços no compromisso das empresas com a responsabilidade social e o desenvolvimento sustentável. Como você faria um balanço desse período?

Nesta edição da Conferência Ethos 360º, tivemos um palco dedicado ao que consideramos os marcos nessa trajetória, e outro, o palco Vivências, que reproduziu a forma com qual trabalhamos, com um formato de oficinas permanentes, de diálogo e construção conjunta. As desigualdades estão no centro dessa discussão, e não só as sociais, mas as desigualdades políticas — de gênero e raça dentro do contexto político —, além de culturais e ambientais.

Além disso, o Ethos está participando, de maneira intensa, do Pacto Nacional pelo Combate às Desigualdades, e nosso papel nesse processo, até pela própria natureza do instituto, é trazer o engajamento das empresas tanto com relação às desigualdades internas (políticas de governança) como ao entorno das localidades onde estão presentes.

Lançamos, recentemente, um guia sobre o tema, disponível no nosso site, que traz dez medidas estratégicas que vão desde a adoção do trabalho decente até a promoção e a defesa da democracia. Uma série de recomendações sobre como as empresas podem fazer isso na cadeia de valor e de que forma podem apoiar políticas públicas. Essa agenda [sobre as desigualdades] vai direcionar nossas ações nos próximos anos. Temos um desafio de promover mudanças no curto prazo. Ainda estamos no grupo Z10 — que são os dez países mais desiguais do mundo —, e o Brasil é o único a estar nessa posição e, ao mesmo tempo, apresentar um dos maiores PIBs mundiais. Isto é, a nação que configura as maiores desigualdades no mundo.

Do ponto de vista cronológico, devemos olhar o que acontecerá na COP30. A justiça climática é pauta fundamental, mas é preciso assegurar que todos sejam incluídos nas medidas de proteção relacionadas a esse tema. Sabemos que as populações mais vulneráveis certamente serão as mais atingidas pelos eventos climáticos, e de maneira muito mais profunda.

Como vê o Brasil — hoje e no futuro, principalmente — sob a ótica da conscientização?

É importante reforçar a perspectiva de que a responsabilidade social das empresas é algo pétreo do ponto de vista do papel e da sua autonomia de operar na sociedade, mas que se modifica do ponto de vista dos desafios ao longo dos tempos. Neste momento, o maior desafio corporativo é uma forma de gestão capaz de reduzir as desigualdades.

Hoje, aliás, essa responsabilidade deixou de ser um diferencial do setor, mas uma necessidade que deve estar intrínseca ao ambiente de negócios.

Sim, é uma necessidade, uma postura exigida pela sociedade: construir um ambiente com mais qualidade de vida a todos. Se as empresas não tiverem um olhar atento a essa questão, estarão cometendo erros graves e sofrerão desvalorização do patrimônio e da reputação, colocando em risco a própria existência.

Muitos conceitos ganharam força com a atuação de pessoas dedicadas a lutar por uma sociedade mais justa e igualitária, a exemplo do conceito de ecodesenvolvimento, adotado de forma pioneira por Ignacy Sachs. Você poderia explorar alguns divisores de águas na jornada da sustentabilidade do País?

Ignacy Sachs foi um visionário do ponto de vista do que esperar para o futuro. Ele se destacou durante a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, além de ser um dos líderes reconhecidos pela ONU durante a Rio-92.

Existe, claramente, uma percepção distinta de desenvolvimento antes e depois da a contribuição de Sachs. Primeiro, porque ele traz uma desconstrução da lógica de que desenvolvimento seja crescimento econômico; segundo, porque mostra que desenvolvimento é um processo que combina várias frentes e dimensões.

Sobre esse pensamento, Sachs costumava contar um diálogo que houve entre um jovem e um mestre da sabedoria na Índia, no qual o jovem perguntava: “Onde começa o rabo da cobra?”. E o sábio respondia: “A cobra é o rabo”. É isso. O desenvolvimento é tudo e precisa ser inclusivo, capaz de inserir a sociedade em um processo permanente, com acesso a educação e saúde, além de outras necessidades essenciais —, além de sustentável, em que o próprio se reproduza em um constate movimento constante de evolução.

É comum que pequenos empresários deixem de aproveitar esse potencial por acreditar que seja uma obrigação das grandes empresas, e por não contar com a mesma infraestrutura e condições financeiras. Poderia falar a respeito?

É preciso desmistificar essa questão. Independentemente de ser pequeno, médio ou grande negócio, é preciso saber se há disposição para, de fato, investir estrategicamente e criar uma gestão socialmente responsável. É necessário, antes de tudo, conhecer a própria empresa, fazer um diagnóstico completo com base em indicadores que deem essa fotografia do seu lugar no ambiente de negócios. Por exemplo, se no quadro profissional há 15 homens brancos, é possível estabelecer uma meta de transição para contratar mulheres e pessoas negras, inserindo o negócio em um processo de inclusão. Não existe ação mais efetiva no combate às desigualdades do que gerar um posto de trabalho a mulheres negras. O significado de trazê-las para a empresa, com salário justo, proteção social e direito garantidos, causa um impacto imensurável, já que elas são as que têm mais responsabilidade de cuidados na sociedade, seja com os filhos, seja com os idosos. Elas são provedoras fundamentais desde a alimentação até a educação dos filhos. Agindo assim, continua se buscando os melhores perfis de profissionais, porém com recortes de gênero e raça. Qual o seu investimento financeiro nisso? Zero. É uma escolha.

Adentrando a questão do trabalho escravo, o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) resgatou 918 trabalhadores em condições semelhantes à de escravidão entre janeiro e 20 de março de 2023, uma alta de 124% em relação ao volume dos primeiros três meses de 2022. Na sua visão, o que ainda facilita e abre espaço para esse tipo de prática? As empresas estão, realmente, atuando de acordo com o todo o seu potencial de combate a essa situação?

Tivemos um avanço significativo ao longo dos últimos 20 anos, desde quando o Brasil admitiu a existência de trabalho escravo, em 1995, a partir de casos que foram denunciados. É preciso ter cautela ao compreender os números que apontam crescimento e saber diferenciar se houve, de fato, aumento da prática ou afrouxamento da fiscalização. Nos últimos anos, não houve uma repressão como deveria.

São várias as frentes para o desenvolvimento igualitário, próspero e sustentável. Uma delas foi exposta por meio da ODS 16 — Paz, Justiça e Instituições Eficazes. Como analisa o ambiente de negócios sob essa ótica? O que as empresas precisam absorver para, de fato, seguir a construção de políticas pacificadoras e inclusivas? E por parte do Poder Público?

O diálogo. Por meio dele, é possível buscar consensos, acordos e clareza de objetivos. Um ambiente pacífico e transparente precisa de diálogo.

Por exemplo, posso citar empresas de mineração: ou abrem o diálogo com as comunidades no entorno sobre as próprias iniciativas, entendendo as necessidades para as quais podem contribuir, ou recorrem ao Poder Público para reprimir. Uma empresa que esteja atuando em um espaço onde haja um quilombo precisa dialogar, criar parcerias, debater, inclusive acerca da riqueza produzida ali. Ou, ainda, pode judicializar questões que poderiam ser resolvidas com o diálogo e instaurar um ambiente conflituoso.

Em outubro de 2023, a Amazônia registrou o pior mês de devastação em razão das queimadas, de acordo com o Programa Queimadas, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Como vê esse impacto associado ao agravamento das questões climáticas?

É preciso lembrar, primeiro, que, na Amazônia, moram milhões de pessoas. Não se trata apenas de um ambiente natural, repleto de florestas. Precisamos cuidar e aprender com pessoas que moram lá. Tivemos um período grave nos últimos seis ou sete anos, em que o desmatamento cresceu vertiginosamente na região, nossa contribuição perversa ao aquecimento global. Além da devastação e da emissão de gases de efeito estufa, estamos destruindo uma vasta biodiversidade.

O impacto das queimadas na Amazônia, do ponto de vista da regulação do clima no Brasil, é globalmente muito sério, que poderá trazer outros ainda maiores com relação à pluviosidade da região, prejudicando diretamente a produção agrícola e a vida pessoas de maneira geral. A Amazônia é uma referência de meta para mitigação dos eventos extremos. As populações de lá têm um modo de vida que podem nos ensinar a como utilizar as soluções baseadas na natureza em outros ambientes, como a zona urbana.

Qual é a dimensão do impacto de uma iniciativa tão rica como essa (a Conferência Ethos 360º) em termos de conteúdo, de panorama global e de tendências e expectativas no curto, médio e longo prazos?

Tivemos 1,5 mil inscritos, um número recorde na história dessa iniciativa. Essa foi a primeira conferência presencial após a pandemia. Tivemos 60 painéis com 150 palestrantes. Foi uma ampla multiplicidade de temas. Trouxemos relatos e casos reais sobre como agregar soluções para aquilo que nos propusemos a debater. Conseguimos conectar temas importantes, como movimento negro e racismo estrutural e o programa de transformação ecológica do governo federal: como se interligam? Apresentamos diálogos improváveis, por exemplo, como os quilombos podem inspirar as empresas a partir do modo de vida, da organização coletiva, na construção de um ambiente mais inclusivo e com mais produtividade. 

Aline Carvalho Canal Um Brasil
Aline Carvalho Canal Um Brasil
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