entrevista

Pascoal da Conceição encarna Mário de Andrade

28 de dezembro de 2021
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No início dos anos 1990, o porteiro do prédio onde vivia o ator Pascoal da Conceição viu, no jornal, a reprodução de uma cédula de 500 mil cruzeiros e apontou para o retrato nela estampado: não é que o simpático morador ali do prédio era igual ao escritor Mário de Andrade (1893-1945)? Conceição reconheceu-se no personagem e, desde então, já o interpretou em diversas ocasiões — do comercial institucional de TV, para explicar o imposto de renda, à minissérie da Globo Um Só Coração.

Vive tanto o personagem, que descobriu até uma coincidência: ambos fazem aniversário exatamente no mesmo dia, separados no nascimento por 60 anos. Em outubro, enquanto estava em cartaz com Mário de Andrade Desce aos Infernos (agora disponível em seu canal no YouTube), ele atendeu à reportagem.

ESTE CONTEÚDO ESTÁ PUBLICADO NA ÍNTEGRA NA EDIÇÃO #467 IMPRESSA DA REVISTA PB. A VERSÃO DIGITAL ENCONTRA-SE DISPONÍVEL NA BANCAH.

“A gente precisa visitar este sentimento de cultura, de renovação, de liberdade, de modernismo. De forma sinestésica, precisamos imitar este movimento.”

Você, hoje, é mais reconhecido como Dr. Abobrinha, o personagem da série infantil Castelo Rá-Tim-Bum, da TV Cultura, ou como Mário de Andrade?

O Zé Celso [dramaturgo José Celso Martinez Corrêa, fundador do Teatro Oficina] diz que, inspirados, criamos coisas; pirados, somos estas coisas. Esta é a frase do Zé. Quando eu comecei a fazer este trabalho como Mário de Andrade, fui lentamente tomando conhecimento do Mário de Andrade, sabendo como ele é, estudando. Porque eu sou ator. E, como ator, me dedico a estudar as coisas do personagem, como ele é. Falei com pessoas que o conheceram, com a família; até onde deu, eu fui atrás. E sei que ele era um ativista na questão dos direitos, da liberdade, da cultura. Um cara que ia atrás. Agora, o Brasil… Do jeito que está, as manifestações… No ano em que houve aqui as ocupações das escolas [em 2015, quando estudantes secundaristas se mobilizaram contra a reforma do ensino estadual], quando há manifestações pela cultura, eu sempre estou em todas, sempre como Mário de Andrade. Nunca vou à paisana. O personagem é muito forte. Há dois anos, quando começaram os ataques atuais contra a cultura, o governo [de João] Doria [governador paulista], que era parceiro do [presidente Jair] Bolsonaro, começou cortando todas as coisas da cultura. Nós, aqui de São Paulo, fizemos uma manifestação na frente da Secretaria da Cultura com 3,4 mil artistas. No meio do caminho, um rapaz, que tinha a sua idade, virou para mim e falou: “Dr. Abobrinha, Dr. Abobrinha, posso tirar uma selfie com você?” E eu estava como Mário de Andrade…

De que forma encarnar o personagem traz a atenção para as causas, afinal?

A cultura brasileira é uma coisa frágil, em construção. Falar destas coisas, carregadas de abstração, não bate nada, né? É o Dr. Abobrinha enrolando. Mas, aí, eu falo: “você foi criança e, se olhar em volta, todo mundo aqui foi criança. Na sua infância, teve Castelo Rá-Tim-Bum. Tem infância com Castelo Rá-Tim-Bum e infância sem Castelo Rá-Tim-Bum. O Castelo Rá-Tim-Bum é uma coisa que foi colocada na sua infância, se você não tivesse assistido, nem ia sentir falta. Cultura é mais ou menos como a liberdade: se você não tem, não sente falta. Mas, se você tem, começa a achar que é importante. Você gostaria de ter uma infância com ou sem Castelo Rá-Tim-Bum, com ou sem cultura? Esta é a questão. Mas fiz este preâmbulo para dizer que, quando saí de casa, aqui na Vila Mariana [bairro de São Paulo], vestido de Mário de Andrade, todo de branco, gravata e “pá e pá e pá”, meu vizinho, lá de cima, do alto do sobrado, gritou: “Aê, Dr. Abobrinha! Disfarçado de Mário de Andrade!”

(Risos) Ou seja: minha pergunta ficou sem resposta…

Ou seja: se eu sou mais Mário ou mais… Acho que, como ator, quando eu pratico o personagem, eu pratico mais pirado do que inspirado. Eu entro na piração e sou mesmo a criatura, vou ser a criatura. Quando as ocupações [nas escolas] estavam ocorrendo, eu fui a todas: a de Guaianases [bairro na periferia de São Paulo], a do centro, de inúmeros lugares, falando com os estudantes. Misturou esta coisa do Dr. Abobrinha com o Mário de Andrade. E eu falei também um pouco da conferência do movimento modernista, de 1922, porque é tudo material de estudo do ator.

“Nós, aqui de São Paulo, fizemos uma manifestação na frente da Secretaria da Cultura com 3,4 mil artistas. No meio do caminho, um rapaz, que tinha a sua idade, virou para mim e falou: ‘Dr. Abobrinha, Dr. Abobrinha, posso tirar uma selfie com você?’ E eu estava como Mário de Andrade…”

No fundo, é seu jeito de construir o personagem?

Eu tento construir o personagem o melhor possível. Aquele personagem, aquele pensamento, aquela maneira de ser. Eu não acho uma coincidência o fato de o movimento modernista – e Mário de Andrade fala que a Semana de Arte Moderna foi o alto-falante do modernismo – ter acontecido num teatro, no Theatro Municipal. Não foi por acaso. É porque o teatro estava presente na estrutura de quem fazia a Semana. O teatro estava presente. Mário de Andrade dizia: “como é que eu tive a coragem para fazer a conferência de artes plásticas na frente de pessoas que me achincalhavam, me ofendiam para valer, eu estou acostumado a escrever, não estou de corpo presente como o ator”. A arte do ator é em corpo presente, a gente sempre está em ação de corpo presente. Claro, passando por perrengues, nem sempre fica engraçado. Fica engraçado depois. Mas, quando a gente foi para as ocupações, a polícia jogou gás lacrimogêneo. É horrível, são coisas fortes, você tem bastante medo, não é fácil. Eu compreendo Mário de Andrade. Que vem dizer aqui, no Brasil de hoje, no momento de um desgoverno, com um presidente que fala atrocidades para a nação dia e noite. Então, há um movimento modernista em você que quer deixá-lo mais novo, mais recente, mais presente, mais 2021, mais agora. Isto é movimento modernista, a gente sempre está no movimento. O que me norteia, me dirige, está na frente, é o trabalho do ator. Este trabalho me coloca em situações de invenção, de criatividade. Porque a pesquisa, e isto é uma conquista do modernismo, é um exercício de liberdade, já que, para dentro, você pode mexer com vários assuntos. Claro, isso pressupõe uma sociedade de liberdade — e o movimento modernista é, na verdade, um movimento libertário.

Mas incorporar o personagem também é vestir uma armadura, não? Isso acaba protegendo você, já que “no palhaço ninguém vai bater”?

Exatamente. No meu [perfil do] Facebook, tem uma foto com os policiais na frente e eu vestido de Mário de Andrade. A não ser que você chegue a um estágio muito semelhante ao que a gente está vivendo agora, onde a ignorância ultrapassa esta linha – como em 1968, quando bateram nos atores –, neste dia [da foto do Facebook], os soldados respeitaram, até me reconheceram como Dr. Abobrinha. Este estranhamento é necessário, porque o campo da cultura é o campo em que o modernismo está lutando. É o lugar que criou noções de justiça, de liberdade, de igualdade, de direito. Tudo foi criado no campo da cultura. Os direitos, estas coisas, foram noções inventadas por poetas, por dramaturgos…

Neste mergulho tão profundo, às vezes, você se pega pensando como Mário de Andrade? Tem esta confusão?

É quase como uma inspiração. Você está consciente, mas é atravessado, às vezes, por estes pensamentos, estas coisas. Quando eu estou andando de Mário de Andrade, as pessoas me chamam de Mário de Andrade, então, estão chamando o Mário de Andrade que tem dentro de mim.

Daqui a pouco estará escrevendo como ele…

Infelizmente, não chega a tanto. Mas eu acabei me apropriando do personagem, é mesmo quase como se eu fosse o Mário de Andrade. Sobre escrever, nem precisaria escrever uma coisa nova dele, porque Mário de Andrade tem uma obra grande o suficiente para suprir muita coisa da qual o Brasil nem chegou perto. E precisa aprofundar, não só o Brasil, mas o mundo inteiro. Porque Mário de Andrade nem se considerava uma coisa brasileira, ele se considerava uma pessoa do mundo. E foi uma pessoa que teve coragem, porque é importante ser corajoso.

“O folclore é absolutamente antiburguês, uma legítima manifestação de potência que não é burguesa. E é visto pela burguesia com este nome de folclore. Isso tudo é conceito do Mário de Andrade, e eu não estava atento a isso.”

Você já leu tudo o que ele escreveu?

Não. Eu li bastante coisa. Eu sou da dramaturgia, e na dramaturgia somos parceiros da literatura. Comecei pela poesia, depois fui para Macunaíma, Amor, Verbo Intransitivo, essas coisas. A embocadura da poesia dele é de teatro. Depois, avancei por leituras que não conheço direito, como [os textos de Mário de Andrade sobre] a música, a pintura, a administração pública. Outro dia, eu estava conversando sobre folclore com um amigo meu. E este nome, “folclore”, já coloca o assunto numa caixinha, como primitivo, menor, rústico, rude. É uma caixinha burguesa, porque a burguesia tende a não olhar o folclore na sua potência. O folclore é absolutamente antiburguês, uma legítima manifestação de potência que não é burguesa. E é visto pela burguesia com este nome de folclore. Isso tudo é conceito do Mário de Andrade, e eu não estava atento a isso.

Afinal, o que mais o encanta em Mário de Andrade?

Respeito demais esta coisa de museu que tem a Semana de Arte Moderna, mas o que eu gosto em Mário de Andrade é que ele pode vir para azeitar meu pensamento lento, lerdo, acomodadão. Meu pensamento que não avança, engripa, precisa da leitura para sair deste lugar e avançar um pouco mais. Eu fico com a cabeça esmerilhando, é muito bonito. E é isso que eu, como pessoa, como ator, quero compartilhar, socializar. Este conhecimento, este ganho. Não pode ficar numa caixinha guardada.

Como você interpreta o que aquela molecada fez no Municipal, em 1922?

Era uma necessidade daquele momento. Como neste momento, estamos precisando disto. A gente precisa visitar este sentimento de cultura, de renovação, de liberdade, de modernismo. De forma sinestésica, precisamos imitar este movimento. Nós, brasileiros, estávamos vivendo-o aqui. E chega um [autoproclamado filósofo e ideólogo do bolsonarismo] Olavo de Carvalho, um mutirão contra a cultura, acabaram com a Lei Rouanet [de incentivo à cultura]. Na minha ingenuidade, fiquei pensando “para que tanto?”, “a gente nem é tão importante assim”. Porque o massacre foi gigantesco, cortaram coisas de filme, foi muito grande. A sensação é que foi desproporcional a força com que vieram para cima da gente . Eu não esperava tanto. Mas a cultura tem muita força. Por exemplo: só é possível ter raciocínios negacionistas, terraplanistas, atrasados etc. quando você desconsidera todo o ganho do processo cultural. Se não fosse a existência dos poetas, dos artistas, com aqueles delírios todos, não haveria nada, estaria todo mundo andando de quatro. Este ataque à cultura exige da gente um revide, uma remodelação da nossa inteligência. Isso é o movimento modernista. O espírito modernista serve para o agora, para falar contra o genocídio da gente negra, das pessoas de gêneros diferentes, para rever o pensamento machista. Serve para defender a vida, o viver, a natureza. Modernismo é movimento, move. Estamos dentro deste movimento.

Caberia uma nova Semana de 22, agora em 2022?

A Semana foi apenas o alto-falante do movimento, uma foto, uma panorâmica que tiraram lá de cima. Aquilo não foi o movimento modernista. O movimento modernista foi a abolição da escravatura, a primeira Guerra Mundial, os acontecimentos na Europa, na África… Mário fala isso na conferência [de 1942]. Aqueles primeiros modernistas das cavernas foram os alto-falantes de uma força nacional, universal, muito mais complexa do que nós, uma força fatal que virá mesmo.

Edison Veiga Jennifer Glass
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