entrevista

Solidariedade gera transformação

03 de agosto de 2022
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Já faz 11 anos que Thiago Vinícius decidiu empreender, ao se tornar agente social no Campo Limpo, Zona Sul de São Paulo, onde fica a sede da Agência Popular Solano Trindade. A organização, fundada por ele, está à frente de diversas ações transformadoras. O que começou com um coworking, um mercadinho de produtos orgânicos, um restaurante e o Festival Percurso – que leva shows de grande porte para a periferia da região –, desde a crise sanitária trazida pela covid-19, converteu-se em porto-seguro de muitos moradores.

Com um chamado ao apoio mútuo, as ações postas em prática pela equipe da Solano Trindade têm conseguido alguns feitos grandiosos, como garantir a distribuição de 300 mil marmitas até o final deste ano, com o apoio da Family Care Foundation (FCF) – organização mundial sem fins lucrativos que presta suporte de emergência para crianças e famílias. Vinícius relata que, desde o início, a estratégia para vencer os desafios esteve em manter a calma e buscar a capacidade de sistematizar uma teia colaborativa, para fazer a ajuda chegar rápido às pessoas.

Ele se refere a um dos muitos projetos da associação, o Organicamente Rangô, que surgiu de um empreendimento familiar. “Abrimos o restaurante um pouco antes da pandemia. De repente, vimos começar a faltar comida na comunidade. Então, acabamos assumindo a responsabilidade de amparar estes lares”, diz. A idealização partiu da Tia Nice, cozinheira-administradora da casa e, não por acaso, mãe de Vinícius.

Qual você diria que foi a maior barreira já vencida pela Agência Solano Trindade neste amparo que vem prestando às comunidades na Zona Sul de São Paulo?

Acho que a grande vitória da nossa rede foi ter perdido o menor número de pessoas possível. Soubemos respeitar o momento e levar a sério tudo o que estava acontecendo. A primeira vitória é estarmos vivos. No nosso raio mais próximo, nós nos protegemos, sempre lutando para chegar do outro lado do rio, que é onde estamos hoje. Dentro desta força vital, entram todas as ações que já fizemos, distribuímos 20 mil chinelos, 10 mil máscaras, 10 mil tubos de álcool em gel, mais de 50 mil cestas básicas. Entre 2020 e 2021, distribuímos mais de 50 mil marmitas do Organicamente Rangô. Também conseguimos implementar um auxílio emergencial para a nossa rede de empreendedores periféricos, dando dinheiro para as pessoas conseguirem se organizar, não desistir de seus negócios. Isso foi algo que nos deixou muito felizes, de poder ser este instrumento de acesso não somente à alimentação, mas uma capacidade de poder estruturar o isolamento social das pessoas na periferia.

Imagino que você mesmo tenha ficado impressionado com o que a sua articulação conseguiu prover para as pessoas.

Sim, têm sido muitas as bênçãos. Já teve doação de peixe, por exemplo, frutas, verduras e legumes, kit gás; conseguimos mandar dinheiro para as comunidades indígenas guaranis e pataxós. No auge da pandemia, as pessoas me ligavam para dizer que estavam depositando uma verba. Aqui na nossa casa, todos os cômodos ficavam ocupados por cestas básicas, divididas pelo nome das organizações. A gente foi como um Médico sem Fronteiras, uma Cruz Vermelha, da quebrada.

Ajuda a questão de que vocês possuem uma sede e um histórico de estímulo ao empreendedorismo e à cultura na comunidade, não é?

Sim, pois não é para qualquer lugar que as pessoas vão encaminhar a ajuda. Além do que, são poucos os movimentos sociais da periferia que têm sede. E o CNPJ também, legalizado, tudo certinho. Mas o mais importante é a equipe. Nós nos organizamos como equipe. Algumas pessoas no planejamento das coisas e outras na rua. Foi um “corre” gigante, jamais teríamos conseguido sem essa força conjunta.

“Conseguiremos, até o final deste ano, distribuir cerca de 300 mil marmitas. Estamos fazendo de tudo para ajudar a fazer virar a página da fome aqui em São Paulo.”

E o trabalho acabou ganhando uma dimensão internacional, com a sua ida a Bilbao, na Espanha, para receber o prêmio 50 Next ao lado de sua mãe.

Ganhou uma dimensão por causa do tamanho da desigualdade em nossa cidade. A Zona Sul de São Paulo, segundo estudo da Câmara Municipal, encomendado pela Erika Hilton, é a região que tem o maior número de gente passando fome [Levantamento feito entre 1º e 14 de dezembro de 2021 registrou que cerca de seis mil pessoas buscaram ajuda em Unidades Básicas de Saúde (UBSs) devido à fome. Das 483 UBSs que responderam ao levantamento, 122 afirmaram possuir demanda de atendimento para pessoas com sintomas decorrentes da fome. A maior demanda desse atendimento ocorreu na Zona Sul da cidade, que respondeu por 53% dos casos]. O destaque que o projeto vem ganhando ocorre em razão da nossa capacidade de entender a gravidade da situação e colocar à disposição a nossa infraestrutura para fazer a ajuda chegar rapidamente às pessoas que mais precisam. Viramos uma plataforma de acesso à comida mesmo, de alimentação. No nosso restaurante, as pessoas pagam um preço acessível pelo prato e fomentam esse ecossistema.Junto com as cestas básicas, tivemos a ideia de colocar também livros de autores negras e negros, como Emicida, Sobrevivendo no Inferno; Racionais MCs; Itamar Vieira Junior, Torto Arado, livros bons mesmo, novos, alguns de poetas da periferia.

Quantas refeições vocês estão conseguindo distribuir atualmente?

Graças à Family Care Foundation, da Inglaterra, conseguiremos, até o final deste ano, distribuir cerca de 300 mil marmitas. Estamos fazendo de tudo para ajudar a fazer virar a página da fome aqui em São Paulo.

De apoio em apoio, as ações de suporte alimentar não cessaram desde 2020?

O projeto segue desde então. Agora, estamos com esse apoio da Inglaterra, garantidos até o final do ano. E, depois, vamos ver.

Como funciona o sistema da distribuição?

Nós mapeamos as comunidades, cadastramos as famílias. E o interessante é que cada família receba quatro marmitas de 400 gramas por dia, durante 20 dias. Então, neste momento, em que tudo está caro, pelo menos, durante mais da metade do mês, ela tem garantido o alimento. Nós não distribuímos aleatoriamente, são 20 dias de comida para a mesma família, mensalmente. Estamos conseguindo entregar 18 mil marmitas por mês.

De onde vem tanta intimidade com o universo da gastronomia?

Minha família tem um histórico de trabalhar servindo o mercado gastronômico da cidade, isso entre as décadas de 1970-90. Minhas tias trabalharam em lanchonete, restaurante, minha mãe trabalhou no Seiva, que foi um dos primeiros restaurantes vegetarianos de São Paulo, no Itaim. Ela e minhas tias, quando se reuniam para alguma coisa comemorativa, sempre tinha muito “rango”. Uma de minhas tias foi saladeira de vários restaurantes de grande movimento. Eu sempre via e ficava apaixonado pelas cores e por esse movimento do fazer também, uma coisa superdivertida, comidas gostosas, preparadas para muita gente. Sempre fiquei fascinado com isso. Aí, quando tivemos a oportunidade de montar o restaurante, juntamos toda essa experiência. E minha mãe não trouxe a experiência só de cozinha, mas também de uma mulher empreendedora da quebrada. Ela já foi empregada doméstica, manicure, trabalhou em bar, já foi dona de bar no litoral, então, toda essa experiência foi um suporte para a gente começar.

Entendi, muito legal. Então, vocês mal inauguraram o restaurante e já toparam com uma crise sem precedentes causada pela pandemia.

Inauguramos em 12 de outubro de 2019, um pouco antes da pandemia. De repente, vimos começar a faltar comida na comunidade. E, aí, veio a pandemia. Então, acabamos assumindo a responsabilidade de amparar estes lares. Tivemos que nos recriar, integrando essa ação da distribuição de marmitas, sempre dando o nosso toque, o nosso diferencial, porque não é só a distribuição. É a compra do arroz, do feijão, do óleo, na comunidade. É a compra dos legumes de agricultores familiares. Esse dinheiro entra fortalecendo os trabalhadores, que já eram da cozinha e, hoje, estão no “corre” da marmita, como geração de trabalho e renda para a galera; ela fortalece a economia local; e ainda chega refeição para as pessoas que precisam. É preciso ter esse cuidado, de favorecer os comércios da comunidade, adquirir de quem tem nota fiscal, tudo certinho. Para poder fazer uma prestação de contas correta e ter a capacidade de fortalecer o ecossistema do negócio social na quebrada. Na pandemia, nós não mandamos ninguém embora, pelo contrário, contratamos ainda mais, para conseguir atender à demanda.

“É preciso ter esse cuidado, de favorecer os comércios da comunidade, adquirir de quem tem nota fiscal, tudo certinho. Para poder fazer uma prestação de contas correta e ter a capacidade de fortalecer o ecossistema do negócio social na quebrada.”

A variedade de alimentos nas marmitas é uma iniciativa muito positiva. Tem gente que descobriu novos sabores com as comidas oferecidas?

Muita gente comeu alguns ingredientes pela primeira vez na nossa marmita. Ou já havia comido alguma vez, e depois nunca mais teve acesso. Por exemplo, a gente coloca inhame, legumes que, por falta de dinheiro, muitas vezes, as pessoas não conseguem nem comer de novo. Isso é algo que sempre fizemos, ter essa variedade, e nossas marmitas são vegetarianas. É porque a comida vegetariana tem relação com essa coisa de fortalecer a agricultura familiar. Fortalecer as famílias produtoras de ovo, abobrinha, beterraba, cenoura, batata. Isso é bacana. Já a questão da carne, hoje, em qualquer lugar que você compre, tem um selo CIF indicando a procedência. Mas a gente não tem como garantir a procedência dessa carne. O risco dessas marmitas azedarem é mil vezes maior do que se eu colocar um repolho ou algum outro alimento natural. Então, não podemos desperdiçar nada do dinheiro, porque é contado. E a gente bota um ovo, uma carne de soja, fica muito bom, arroz e feijão fresquinho, legumes. E toda semana um cardápio diferente.

Hoje, a Solano Trindade é uma associação, mas surgiu como um coletivo?

Acho que sempre vamos nos enxergar como um coletivo. Mas virar associação foi algo fundamental para conseguirmos, inclusive, obter apoio à comunidade. Essa coisa do CNPJ, por exemplo, foi superimportante. Temos as pessoas que trabalham aqui todo dia, na comunicação, na cozinha, no administrativo, articulando a comunidade. A cada projeto que entra, já incluímos uma cotação de equipe no orçamento. E existe também o pessoal que chega e vai ajudar em alguma coisa. Mas é isso: somos umas 30 pessoas atualmente.

Os apoios são importantes, mas quão importante é o desenvolvimento da capacidade de gerar a própria renda?

Isso é vital, vale dizer. Além do restaurante, temos o nosso coworking, armazém orgânico, o Festival Percurso, onde faturamos com a cerveja, a lojinha, onde vendemos as camisetas. A ideia é fazer uma atuação híbrida, tanto captação de recursos como geração da própria renda, para os momentos em que não conseguirmos um edital ou algo assim, para garantir o aluguel, a conta de água, de luz…

Este ano, há uma grande expectativa pela volta do Festival Percurso. Como andam os preparativos?

Os preparativos estão rolando, este é um evento que, antes da pandemia, costumava atrair cerca de dez mil pessoas, na praça do Campo Limpo. Ele ativa a economia de mais de 200 empreendedores, que montam a feira, e de mais de 200 pessoas, que trabalham na cenografia, na maquiagem, na produção. Ficamos mais de três anos parados com o festival, então, este ano, as expectativas são grandes. Foram três anos, porque, como acontece em dezembro, a pandemia de 2019, por ter chegado bem na véspera, inviabilizou o evento previsto [para aquele ano]. Já tivemos várias edições legais, levamos Baiana System para tocar, Rincon Sapiência…

Como os empreendedores interessados fazem para ter uma barraca lá?

Antes do festival, os empreendedores precisam vir aqui para garantir a vaga. E nós fazemos um treinamento com o pessoal na casa, as pessoas passam por uma capacitação. Existe a Rede Solano, de empreendedores, ativa já desde 2014, e nós informamos para as pessoas da rede o período da capacitação, para quem estiver interessado. Não é só chegar lá e montar, não [risos].

Para saber mais e apoiar a causa, acesse: agenciasolanotrindade.com.br

Eduardo Ribeiro Divulgação
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