entrevista

Tom Zé

17 de dezembro de 2021
E

Era uma terça-feira, dia 19 de outubro. Depois de alguns dias de insistência da reportagem, Tom Zé aceitou interromper seus trabalhos — estava preparando o novo disco Língua Brasileira — para uma chamada telefônica em que o papo seria o Modernismo brasileiro. Já no avatar do WhatsApp, o apreço pelo movimento estava presente: em vez de uma fotografia, a imagem é a reprodução da tela Palmeiras, feita em 1925 por Tarsila do Amaral.

“Isso aí é coisa da Neusa”, desconversa ele. Neusa Martins é sua mulher e empresária. “Ela é uma pessoa muito mais culta do que eu, passou a vida lendo, desde criança. Sabia que ela lia até quando comia, e a mãe dava porrada porque ela lia demais?”

ESTE CONTEÚDO ESTÁ PUBLICADO NA ÍNTEGRA NA EDIÇÃO #467 IMPRESSA DA REVISTA PB. A VERSÃO DIGITAL ENCONTRA-SE DISPONÍVEL NA BANCAH .

Por que falam que o Tropicalismo, movimento cultural brasileiro dos anos 1960, do qual você fez parte, é um filho do Modernismo?

Nunca conversamos [os tropicalistas] sobre a Semana de 22. Não sei por que apresentam assim. Mas havia uma excitação instalada aqui em São Paulo pela poesia concreta, pelo [artista plástico] Hélio Oiticica [(1937-1980)], sobre o [modernista] Mário de Andrade [(1893-1945)]. Mas minha tese é a seguinte: nós fomos educados por preceptores babás com as tradições da Idade Média. Quando [o dramaturgo] Zé Celso Martinez Corrêa, a poesia concreta, Hélio Oiticica,  [maestro] Júlio Medaglia, o [compositor] Rogério Duprat [(1932-2006)], Os Mutantes, a [cantora] Rita Lee, esse pessoal todo avançou na cabeça da gente, fomos aos poucos tirando [o filósofo grego] Aristóteles [(384 a.C.- 322 a.C.)] do córtex. Mas a cabeça humana não joga nada fora, a gente joga no hipotálamo. Com excitação, passamos a dizer que o Brasil precisava fazer uma arte própria, uma arte brasileira. Essa conversa, sim, era inspirada na Semana de 22. O Zé Celso, é claro, estava com a Semana de 22 na cabeça, mas ele disparou o tiro no hipotálamo e voltou para o córtex a educação da infância. Essa teoria minha não é aceita por Caetano [Veloso] nem [Gilberto] Gil, mas é minha teoria.

“Não sei a semelhança que tenho com Mário de Andrade. Você quer que eu invente?”

No encarte de Tropicália Lixo Lógico, de 2012, você diz que “atribui-se ao rock internacional e a[o poeta modernista] Oswald de Andrade o surgimento da Tropicália”. Mas que isso não seria exato…

Eu vim para São Paulo, e Zé Celso Martinez tinha montado O Rei da Vela [peça escrita por Oswald de Andrade e encenada pelo grupo Teatro Oficina pela primeira vez em 1967], aquela maravilha. Esse dia foi o dia mais incrível da minha vida. Primeiro Caetano, que sabe que eu não falo língua nenhuma, me botou dentro do quarto e pôs o disco Sgt. Pepper’s [Lonely Hearts Club Band, dos Beatles, tambémlançadoem 1967]. E traduziu o disco todo para mim. Depois, me levou ao Zé Celso Martinez para ver aquela montagem inacreditável de O Rei da Vela. Uma montagem de fazer a gente cair do telhado. O Zé Celso tinha na cabeça isso [do Modernismo] que você quer que eu fale. Eu vi a montagem, li aqui e acolá alguma coisa passageira. Zé Celso era mais modernista, era mais anarquista. Se tem uma pessoa que é ligada ao Movimento de 22 é o Zé Celso Martinez Corrêa.

Mas já houve quem definiu você, por conta de suas músicas a respeito de São Paulo, como um Mário de Andrade redivivo, certo?

Eu li Mário de Andrade, li Macunaíma [de 1928], li as cartas dele para o [folclorista] Câmara Cascudo [(1898-1986) [eles se corresponderam de 1924 a 1944].Mas não foi uma coisa que depois foi elaborada, trabalhada, não foi. O [poeta concretista] Haroldo de Campos [(1929-2003)] escreveu um livro enorme sobre Macunaíma [Morfologia do Macunaíma, de 1973]. Lembro-me de que fomos à casa dele, porque, em tudo o que a poesia concreta fazia, a gente estava presente, e eu vi que ele estava na verdade se queixando de ter de dar aquele livro a uma porção de gente como eu, que não ia ler. E realmente eu só fui ler muito tempo depois, porque aquilo era outro mundo. Agora, qual é a semelhança que eu tenho com o Mário de Andrade, eu não sei. Você quer que eu invente?

 Pode ser algo inconsciente em sua obra.

  Isso pode até ser. Vocês que têm de descobrir isso. 

E por que Tarsila do Amaral no seu WhatsApp?

A Tarsila é ótima. Isso da Tarsila aqui, olha, tem uma coisa que alguém me falou que estão querendo fazer um negócio aqui no Brasil, uma peça teatral em que o Mário de Andrade… Querem falar da Arte Moderna, por causa dos 100 anos. E querem porque querem colocar a Tarsila. Mas aquele retrato da Tarsila [a tela Operários, de 1933] é de anos depois, aquilo não tem nada do operariado de verdade. É um retrato de gente de São Paulo. Mas, na peça, parece que vai entrar. E vão entrar caipiras, eu me lembro que tinha gente na coisa moderna que estava com caipiras e tal, o Mário de Andrade se interessava pela música caipira. Mas nesse show estão querendo aproveitar a popularidade desses sertanejos do Brasil de agora. São sucesso nos Estados Unidos, em Miami. Tem esse tipo de música caipira que os caipiras daqui modificaram, e Miami compra como se fosse uma coisa feita aqui. Estão chamando caipiras que são sucesso. O que tem a ver o sertanejo com 22?

Edison Veiga Harald Krichel
Edison Veiga Harald Krichel
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