entrevista

Visão além das ilhas

12 de março de 2024
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Para trabalhar com sustentabilidade, é necessário ter uma visão de arquipélago, não de ilha. Precisamos olhar para o longo prazo. É o que afirma Fernanda Gabriela Borger, pesquisadora sênior da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) e especialista em ESG e gestão estratégica para a sustentabilidade. Ela também é consultora do Programa de Benchmarking e do Prêmio da Associação Brasileira de Distribuidoras de Energia Elétrica (Abradee), que tem como associadas 46 concessionárias dos serviços de energia elétrica. A premiação tem como objetivo inspirar e reconhecer as boas práticas do setor, viabilizando a melhoria da gestão das empresas associadas e reconhecendo aquelas que apresentaram um destaque no desempenho.

Fernanda explica que, ao longo dos anos, os indicadores passaram por uma série de aprimoramentos com o objetivo de incorporar e refletir os avanços na agenda da sustentabilidade empresarial. As categorias se estendem da gestão econômico-financeira e da gestão operacional à responsabilidade social. Além de prestar consultoria para a premiação, Fernanda também é uma das autoras do livro Essas mulheres sustentáveis (2022), escrito de forma colaborativa por 45 mulheres atuantes nessa área. Ela concedeu entrevista exclusiva à Revista Problemas Brasileiros durante participação na Conferência Ethos 360º, realizado pelo Instituto Ethos no fim de 2023. Confira a entrevista a seguir.

Na Conferência Ethos 360º, você participou do painel sobre o Prêmio Abradee, que inspira e reconhece as boas práticas do setor elétrico, e celebrou a parceria Ethos– Abradee.  Você vem acompanhando o setor por mais de 20 anos e faz parte da equipe da Fipe que desenvolveu a metodologia de premiação da Abradee. Qual é o papel da fundação na premiação?

O papel da Fipe é de muito suporte e de olhar para a metodologia. Sempre trabalhamos em conjunto com o cliente, e isso fez uma enorme diferença. Começamos com o prêmio; depois, percebemos que era muito mais do que isso. Era um programa de benchmarking, de referência para o setor, com uma visão bem ampla e sistêmica. Tanto que o prêmio conta com indicadores bem técnicos, como o de gestão operacional, e a categoria “responsabilidade empresarial”, que é pioneira. É uma pesquisa feita todo ano, regularmente.


Ao longo dos anos, os
Indicadores Ethos passaram por uma série de aprimoramentos com os objetivos de incorporar e refletir os avanços na agenda da sustentabilidade empresarial. Quais foram as principais transformações desses indicadores nos últimos anos?

A primeira mudança foi mostrar que o setor tem características próprias, como a regionalidade. Por isso, é necessário fazer uma adaptação para o setor de energia elétrica. Ao mesmo tempo, é necessário manter uma comparabilidade geral. Esse já foi um grande desafio, e, a cada ano, a régua sobe, pois as empresas vão melhorando. É necessário olhar para o que está acontecendo no mundo, como as questões de governança. Todas as métricas na área de Sustentabilidade têm essa metodologia. É importante ter um diálogo com os stakeholders e, ao mesmo tempo, evoluir.  

Por quais transformações o setor de distribuição de energia deve passar nos próximos anos e quais serão os impactos dessas transformações para as empresas, de modo geral, e para consumidores?

Nas pesquisas da Abradee, em responsabilidades social, empresarial e ambiental, usamos os indicadores dos consumidores, como é a percepção deles em relação a tudo isso. Então, acompanhamos e vemos como as empresas do setor de energia elétrica atuam na comunidade. Isso impacta diretamente os consumidores.

Em uma entrevista, Wagner Ferreira, diretor institucional da Abradde, comentou que o consumidor não será só um cliente de energia elétrica, mas vai gerir o próprio consumo, assim como poderá produzir energia. Como será a relação com os consumidores nos próximos anos? 

Falamos muito no setor que, agora, vamos ter o prosumer. Além de consumir, [o cliente] também pode produzir energia. As empresas estão se preparando para olhar para esse novo consumidor. Haverá muitos desafios, e o setor precisa se adaptar, pois terá um papel enorme para essa transição energética ao lidar com esse novo consumidor, com novos produtos e serviços.

Quais são os desafios e as tendências da sustentabilidade para esse setor? Qual é o recado às empresas para que consigam se adaptar? 

Quando trabalhamos com sustentabilidade, temos de ter uma visão de arquipélago, não de ilha. Temos de olhar para o longo prazo. Isso não quer dizer que a gente precise abandonar o curto prazo, mas é uma longevidade de 50 anos. É importante olhar para os resultados de forma diferente. 

“Não podemos nos dar ao luxo de não sermos otimistas. Vamos ter de continuar conversando muito. As pessoas estão acordando para a emergência climática, porque a conta já chegou. Não tem como não olhar para isso.”

Você também participou do livro Essas mulheres sustentáveis, escrito de forma colaborativa, exclusivamente, por 45 mulheres que atuam na área de Sustentabilidade. Qual tem sido o papel e quais são as contribuições das mulheres para essa agenda?

Como professora e coordenadora de curso nessa área, sempre vi que as mulheres predominavam. Há uma identificação das mulheres e profissionais de sustentabilidade com essa temática. Elas têm um pensar diferente. O livro já está na segunda edição, e é impressionante o seu caráter, de fato, colaborativo. Cada uma contribui do seu jeito. Eu, por exemplo, faço uma conversa com Anita Roddick, fundadora da rede de cosméticos britânica The Body Shop. É isso que existe nesse livro: uma troca como realmente temos no dia a dia. Gostamos de trocar e conversar.

Qual é a principal mensagem dessa conversa?

Eu li em uma biografia da Anita que ela ficava muito triste nas reuniões com acionistas, pois ninguém perguntava sobre o desempenho ético, social ou ambiental das empresas. Acionistas não estão interessados nessa questão. Então, na conversa, falo que tenho uma boa notícia para ela. Agora, eles estão se interessando por essa história de ESG. Já no segundo volume, estou um pouco mais preocupada, porque as mudanças estão demorando para acontecer, e os pobres são os mais afetados. 

Um estudo da Fundação Getulio Vargas (FGV) sinalizou que organizações com alta pontuação em indicadores de sustentabilidade têm em comum a liderança feminina. Que diferença o olhar feminino faz para essa agenda? 

Uma liderança feminina não é só cobrar representatividade, senão, ficaremos apenas nos porcentuais e nas estatísticas. A presença da mulher faz uma enorme diferença em todos os níveis. Eu contribuí para um plano estadual de políticas de mulheres — e elas são as mais beneficiadas quanto às cotas. São negras e indígenas que conseguem se formar e usufruir das cotas. Isso é muito importante. 

Quais são as perspectivas para este ano?

Não podemos nos dar ao luxo de não sermos otimistas. Vamos ter de continuar conversando muito. As pessoas estão acordando para a emergência climática, porque a conta já chegou. Não tem como não olhar para isso. Precisamos também batalhar pelos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) que estão aí. As perspectivas são boas, apesar de o mundo estar muito conturbado. Mas acredito que a reação esteja chegando.

Camila Silveira Canal Um Brasil
Camila Silveira Canal Um Brasil
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